
RECADOS DA CESALTINA ABREU (77)
“A única revolução realmente digna de tal nome seria a revolução da paz, aquela que transformaria o homem treinado para a guerra em homem educado para a paz porque pela paz haveria sido educado. Essa, sim, seria a grande revolução mental, e, portanto, cultural da Humanidade. Esse seria, finalmente, o tão falado homem novo”. José Saramago
A 25 de Abril de 1974, um grupo de militares portugueses rompeu com a ordem estabelecida e derrubou, por via de um golpe de Estado, o regime do Estado Novo, liderado por Salazar e prolongado por Marcelo Caetano. Sob coordenação de Otelo Saraiva de Carvalho, a operação teve o seu centro no quartel da Pontinha, em Lisboa.
A “Revolução dos Cravos” não recebeu esse nome por acaso: o povo saiu à rua, colocou cravos nos canos das armas e transformou um acto militar num gesto colectivo de libertação — raro na história, quase sem sangue, mas cheio de significado.
Nesse dia, Portugal escolheu deixar de ter medo. E não ficou por si: abriu caminho à democracia e acelerou a independência das colónias em África.
Mas importa não romantizar: uma revolução não é apenas mudança de rostos. É ruptura. É substituição de estruturas. Diferente da reforma, que maquilha o sistema, e do golpe, que apenas troca os ocupantes do poder, a revolução pretende ‘virar a mesa’. E é aqui que o problema começa.
José Saramago lembrava que a verdadeira revolução não é a que troca governos, mas a que transforma o homem educado para a guerra num ser humano educado para a paz. Ou seja: sem mudança de mentalidade, não há revolução — há apenas reciclagem de poder.
Bakunin e Kropotkin já tinham avisado: nenhuma transformação social resiste se não começar dentro das pessoas — nas ideias, nos valores, na forma de sentir o mundo. Sem isso, tudo muda… para que tudo fique igual.
Marx chamou às revoluções “locomotivas da história”. Mas talvez hoje devêssemos perguntar: estamos mesmo a avançar — ou apenas a mudar de carruagem na mesma linha?
Bom sábado. Saúde, cuidado e coragem. Mas sobretudo lucidez: a revolução não começa nas ruas — começa quando deixamos de normalizar o que nos indigna. Enquanto a injustiça não nos incomodar o suficiente para agir, não há revolução nenhuma — há apenas adaptação confortável ao inaceitável.
Kandando daqui!
Obs: Foto obtida no Facebook, num post do general Apolo
Da esquerda para a direita: Generais Nunda, Kopelipa, Samuel Chiwale, Apollo Yakuvela e Armando da Cruz, no Luena, em Março de 2002










