RECORDAR PARA COMPREENDER A TRAJECTÓRIA DO GENERAL NUNDA

POR SAMPAIO JÚNIOR

Recordar figuras, episódios e decisões com as suas contradições e lições é também honrar o esforço colectivo que permitiu ao país sair da guerra e construir a paz. Porque a paz não nasce do esquecimento, mas da capacidade de lembrar, compreender e aprender.

Não reduzam o general Geraldo Sachipengo Nunda a rótulos ou julgamentos simplistas. Há episódios da sua vida que revelam uma dimensão humana e histórica que merece ser lembrada. 

Nunda, em entrevista que concedeu a TPA por ocasião do 24.º aniversário da assinatura dos acordos de paz, recordou um momento marcante. Enquanto comandante operacional nas lundas, salvou, a pedido de outros intervenientes, dois irmãos gémeos ainda bebés, abandonados em circunstâncias que sugeriam a morte dos progenitores, em consequência da acção militar das ex-FALA. Esses bebês, hoje homens feitos, são testemunhos vivos de que, mesmo em tempos de guerra, a compaixão podia sobreviver.

Os meninos órfãos anos depois foram posteriormente reconhecidos pelo comandante da Polícia a época no Huambo, Jorge Manuel dos Santos “Sukissa”, de feliz memória, que identificou neles laços familiares. A protecção que receberam, vista por muitos como providencial, cruzou-se mais tarde com outro momento decisivo. Os mesmos meninos de ontem, ajudaram a salvar o general Nunda e a sua família durante a fuga do Huambo, com o apoio de Sukissa, o comandante Ninja, factor que enfureceu o velho Jonas e deu lugar a um tempo duro, o chamado inferno dos 55 dias de guerra do Huambo.

Nunda, na entrevista, limitou-se a descrever fragmentos da sua própria vida, como quem folheia memórias antigas que poderiam caber num livro. Demonstrou conhecer profundamente a região leste e outras zonas do país, citando rios e povoados com a familiaridade de quem viveu e caminhou por aqueles caminhos. Falou dos cabos de guerra, como se recordasse velhos conhecidos, companheiros de uma história comum.

A sua trajectória também revela escolhas marcantes. Pouco tempo depois de abandonar as ex-FALA, recusou a chefia dos Serviços de Inteligência Militar, decisão fundamentada e visionária. Entendia que, para alguém que tinha deixado recentemente o outro lado da barricada, não seria prudente nem adequado assumir a direcção de um órgão tão sensível, onde a confiança e a lealdade institucional eram elementos essenciais. Preferiu, assim, resguardar a estabilidade da estrutura e evitar suspeições, demonstrando prudência, lucidez e sentido de responsabilidade.

Preferiu deixar o conforto de um gabinete e avançar para a área operacional. Até detalhes curiosos, como a dificuldade em suportar o fumo de cigarro constante do seu superior hierárquico, (caso o general, Armando da Cruz Neto) revelam um homem moldado por hábitos e disciplina.

A formação de Nunda ajuda a compreender essa postura. Em 1974, ainda sob o regime colonial, frequentou a Escola de Aplicação Militar, recebendo treino no curso de oficiais milicianos. A sua trajectória não nasceu apenas da improvisação da guerrilha. Houve contacto com método, técnica e disciplina formal. A origem familiar também contribuiu para esse perfil: filho da IECA, oriundo de uma família protestante do Planalto, com o pai pastor de segunda geração, cresceu num ambiente de rigor moral, valorização da instrução e contenção.

Recordar estas histórias tem algo de nostálgico, não por romantizar a guerra, mas por resgatar memórias de um tempo em que, mesmo no meio da dureza, ainda surgiam gestos de humanidade. 

A vida de Adolf Hitler continua a ser objecto de estudo, mesmo décadas após o fim da Segunda Guerra Mundial. Não se menciona o Holocausto sem lembrar o seu principal responsável, nem se fala de campos de concentração sem evocar essa figura histórica. A recordação dos acontecimentos dolorosos serve como lição. O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, prestou, nesta terça-feira, homenagem às vítimas do genocídio de 1994, no Ruanda, contra os tutsis, que completa 32 anos, sublinhando que “devemos aprender com os erros do passado”.

A data assinala o início do genocídio perpetrado contra membros da minoria tutsi por forças extremistas ligadas ao poder da maioria hutu, um episódio que permanece na consciência internacional como advertência sobre os perigos do ódio e da intolerância.

Em Angola, o Dia da Paz e da Reconciliação Nacional convida precisamente a este exercício de memória. Não para reabrir feridas, mas para compreender o caminho percorrido e valorizar os gestos que, mesmo em tempos sombrios, apontaram para a reconciliação. 

Recordar figuras, episódios e decisões com as suas contradições e lições é também honrar o esforço colectivo que permitiu ao país sair da guerra e construir a paz. Porque a paz não nasce do esquecimento, mas da capacidade de lembrar, compreender e aprender. Afinal, se o mundo preserva a memória das suas tragédias para evitar que se repitam, por que razão em Angola deveria ser diferente?

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