
Uma ilha com economia em colapso, um regime envelhecido e um ambiente internacional mais hostil. Essas conversas, quando existem, não são garantia de mudança; são, antes, sinais de que o sistema procura alternativas para sobreviver. 2026 não é um destino; é um campo de possibilidades. Pode ser o ano em que se inicia uma transição lenta e controlada, ou o ano em que se acelera o desgaste. O que não é possível é regressar ao imobilismo absoluto: o movimento já começou.
Há frases que funcionam como pedras lançadas num lago calmo: as ondas demoram a chegar à margem, mas quando chegam mostram o que havia por baixo da superfície. Quando Mike Hammer, chefe da missão dos Estados Unidos em Havana, disse ao ABC que espera “uma mudança histórica em 2026” e que Washington mantém “comunicações com pessoas dentro do sistema”, não proferiu apenas uma previsão diplomática; lançou uma pedra num lago onde há fissuras antigas e correntes subterrâneas. A declaração reacendeu medos, esperanças e cálculos — em Havana, em Miami, em Bruxelas e nas capitais latino‑americanas — e obrigou todos a perguntar: o que, afinal, se move em Cuba?
A resposta não é simples porque o que se move em Cuba é, simultaneamente, político, económico, social e simbólico. Não se trata apenas de um jogo entre Estados; trata‑se de um conflito de agendas, de tempos e de legitimidades. Washington procura abertura e quer resultados que satisfaçam um eleitorado cubano‑americano exigente; Havana procura tempo e coesão; o exílio exige ruptura; a União Europeia e países da região preferem estabilidade e gestão de riscos. Cada actor olha para a ilha a partir da sua própria necessidade, e essa multiplicidade de leituras é parte do problema — e da oportunidade.
O subsolo que ferve
A superfície pode parecer calma: discursos oficiais, negações públicas, rotinas institucionais. Mas o subsolo ferve. A economia cubana atravessa uma crise que já não é episódica; é estrutural. Relatórios regionais e análises privadas apontam para contracção económica, inflação persistente, falhas energéticas e erosão dos serviços públicos — factores que corroem a legitimidade do poder mais rápido do que qualquer retórica. A CEPAL e outros observadores regionais documentaram previsões de crescimento negativas ou nulas para 2025–2026, e a EIU descreveu um quadro de recuperação frágil, condicionada por problemas de oferta, instabilidade de preços e crise energética. Esses números não são meras estatísticas: traduzem‑se em filas, consultas médicas adiadas, aulas suspensas e famílias que decidem partir.
A crise energética, em particular, tornou‑se um catalisador de emergência humanitária. A ONU alertou para o risco de “colapso humanitário” se as restrições ao fornecimento de petróleo persistirem, e relatos de cortes prolongados de energia, fechamentos de serviços e chegada de ajuda humanitária por via marítima confirmam que a pressão sobre a vida quotidiana é real e crescente. Quando a sobrevivência diária se torna o centro da experiência colectiva, a política formal perde parte do seu poder de explicação.
Entre o segredo e a negação: diplomacia paralela
A diplomacia raramente é linear. Negociações discretas convivem com negações públicas; contactos informais coexistem com notas de protesto. Hammer falou de contactos com “pessoas dentro do sistema”; Havana respondeu com reprovação e acusações de intromissão. Esse jogo — falar em privado, negar em público — é velho na diplomacia e não implica, por si só, que haja um acordo iminente. Implica, isso sim, que as partes testam limites, sondam possibilidades e medem riscos.
Relatos jornalísticos sugeriram ainda que figuras próximas ao núcleo histórico do poder — incluindo membros da família Castro — têm sido alvo de sondagens informais por parte de diplomatas e actores externos. A existência de canais paralelos não é novidade na história das transições; o que muda é o contexto: uma ilha com economia em colapso, um regime envelhecido e um ambiente internacional mais hostil. Essas conversas, quando existem, não são garantia de mudança; são, antes, sinais de que o sistema procura alternativas para sobreviver.
O precedente que ensina sem repetir
Evocar o caso polaco de 1989 — Jaruzelski e a Mesa Redonda — é útil, mas perigoso se for tomado como modelo automático. Jaruzelski decretou lei marcial em 1981 e, anos depois, negociou com a oposição porque percebeu que a rigidez absoluta conduzia ao desastre. A lição não é que haverá um Jaruzelski cubano; é que, em regimes fechados, a decisão de negociar costuma nascer da percepção de que a sobrevivência do Estado exige compromisso. Cada país tem a sua história, as suas instituições e as suas idiossincrasias; a Polónia não é Cuba, e 1989 não se repete como farsa nem como cópia. Ainda assim, a história mostra que transições negociadas existem quando uma parte do poder conclui que a continuidade sem mudança é insustentável.
As agendas em conflito
O que torna 2026 particularmente volátil é a sobreposição de agendas que não se cruzam naturalmente. Washington quer mudança, mas teme o caos; o exílio quer justiça e ruptura; Havana quer estabilidade e preservação do aparelho; a UE quer reformas graduais; países da região querem evitar uma crise migratória. Quando cada actor actua segundo a sua lógica, as políticas externas tornam‑se instrumentos de pressão que podem acelerar ou atrasar processos internos — e, por vezes, provocar efeitos contrários aos desejados. A política externa é, portanto, parte do problema e parte da solução: depende de como é usada.
O risco humanitário e a geopolítica do petróleo
A recente escalada em torno do fornecimento de petróleo — com ameaças de tarifas e pressão sobre países fornecedores — transformou a questão cubana numa peça de geopolítica energética. A tentativa de cortar fluxos de combustível visa aumentar a pressão sobre Havana, mas tem custos humanitários imediatos. A ONU e outras organizações alertaram para o risco de colapso dos serviços essenciais se o abastecimento não for reposto. A geopolítica do petróleo, portanto, não é apenas um jogo de sanções; é um factor que pode acelerar o desgaste social e empurrar a ilha para cenários de crise mais aguda.
Ecos angolanos: negociações paralelas e diplomacia de bastidores
Para leitores angolanos, a memória das negociações que envolveram Angola, Cuba, África do Sul e Estados Unidos no final dos anos 1980 é instructiva. Acordos tripartidos e cuatripartidos mostraram que a diplomacia paralela, a gestão de informação e a combinação de pressão externa com incentivos internos podem produzir resultados inesperados. Esses episódios não são modelos, mas oferecem técnicas: negociar enquanto se nega negociar; usar canais informais para testar compromissos; preservar a face pública enquanto se trabalha nos bastidores. Em Cuba, essas técnicas reaparecem, adaptadas a um contexto diferente e a um tempo histórico distinto.
Três futuros possíveis — e o que os distingue
O futuro imediato de Cuba não é binário. Podemos imaginar, com graus diferentes de probabilidade, três trajectórias:
Transição controlada: uma figura interna ou um conjunto de elites decide negociar uma saída ordenada, preservando instituições básicas e evitando violência. Requer fractura interna e capacidade de liderança para gerir o “dia depois”;
Resistência prolongada: o regime mantém a linha dura, a crise económica aprofunda‑se e o desgaste social aumenta, sem ruptura imediata. É o cenário mais provável se as elites permanecerem coesas;
Reconfiguração sem democratização: mudanças de elites e ajustes económicos que aliviam a pressão sem abrir espaço a pluralismo político real.
O que distingue esses cenários não é apenas a vontade externa, mas a dinâmica interna: quem controla as Forças Armadas, quem decide nas estruturas do Partido, quem tem legitimidade para negociar. E, sobretudo, quanto tempo a sociedade aguenta o desgaste.
Conclusões não definitivas
A mudança já começou, mesmo que não se veja em manchetes. Não é necessariamente uma revolução, mas um processo de erosão e rearranjo que avança por baixo da superfície.
Nenhum actor externo detém o monopólio da decisão. Washington pode pressionar; o exílio pode exigir; a UE pode oferecer incentivos; mas a força decisiva será sempre a dinâmica interna cubana.
A crise económica e humanitária é o motor mais potente do momento. Quando a sobrevivência quotidiana se torna central, as soluções meramente retóricas perdem eficácia.
Negociações discretas e negações públicas são parte do mesmo jogo. A diplomacia paralela não garante mudança, mas cria possibilidades que, em contextos de exaustão social, podem transformar‑se em decisões políticas.
2026 não é um destino; é um campo de possibilidades. Pode ser o ano em que se inicia uma transição lenta e controlada, ou o ano em que se acelera o desgaste. O que não é possível é regressar ao imobilismo absoluto: o movimento já começou.
Entrevista de ABC a Mike Hammer (22 de Fevereiro de 2026): síntese analítica

Contexto e tom. A entrevista publicada pelo ABC colocou Hammer no centro de uma narrativa de expectativa. O diplomata falou de “mudança histórica” e de contactos com “pessoas dentro do sistema”, sem identificar nomes. O tom foi simultaneamente optimista e cauteloso: optimista quanto à possibilidade de transformação; cauteloso quanto à forma e ao tempo dessa transformação.
Pontos centrais da entrevista:
-Expectativa de mudança em 2026. Hammer afirmou que 2026 poderia ser um ano decisivo para Cuba, sem, porém, afirmar que haveria colapso ou transição imediata.
-Contactos internos. O diplomata confirmou que existem comunicações com actores dentro do sistema cubano, mas recusou‑se a revelar identidades, sublinhando o carácter exploratório dessas conversas.
-Plano para o “dia depois”. Hammer referiu que Washington tem cenários para o que se seguiria a uma mudança, indicando preparação, mas sem detalhar medidas concretas.
-Mensagem ao povo cubano e ao exílio. O diplomata procurou equilibrar apoio às aspirações democráticas com um apelo à paciência estratégica, pedindo que a pressão externa não agrave o sofrimento da população.
-Reacções e interpretações. Havana reagiu com reprovação e acusações de intromissão; o exílio leu a entrevista como sinal de que Washington detecta fissuras internas; analistas viram nas palavras de Hammer tanto um aviso como uma tentativa de estimular fracturas internas. A entrevista, em suma, funcionou como catalisador de expectativas e de receios.
Bibliografia
- ABC (22 Fev. 2026). Entrevista a Mike Hammer, chefe da missão dos EUA em Havana.
AP / Associated Press (2026). Reportagens sobre ajuda humanitária e crise em Cuba.
- Axios (2026). Reportagens sobre contactos discretos e negociações envolvendo figuras próximas ao poder em Cuba.
- CEPAL / ECLAC (2025). Relatórios económicos sobre América Latina e o desempenho de Cuba.
- EIU / Economist Intelligence Unit (2025). Cuba Country Report; análises sobre crescimento, energia e riscos.
- Granma / MINREX (2025–2026). Declarações oficiais e notas de protesto contra diplomatas estrangeiros.
- Gleijeses, Piero (2002). Estudos sobre a presença cubana em África e negociações da década de 1980.
- Jaruzelski / Polish Round Table sources (1989). Documentação e análises sobre a Mesa Redonda na Polónia.
- NBC / Reuters / Politico (2026). Cobertura das reacções políticas nos EUA, incluindo declarações de Marco Rubio e movimentos diplomáticos.
- OCHA / UN / UN News (2025–2026). Alertas humanitários e relatórios sobre impacto da crise energética em Cuba.
- Tripartite Accord / UN documents (1988). Acordos e documentos sobre negociações Angola–Cuba–South Africa.











