
A semana que findou trouxe a Benguela o regresso de um fenómeno antigo e bem conhecido: as conversas de bastidores que nascem como “fofoca” de mesa de café e, não raro, acabam por ganhar contornos de assunto político sério. No passado, esses murmúrios tinham como palco o emblemático Bar Guimarães. Hoje já não se sabe se surgem num restaurante, numa sala climatizada, num sofá king, ou entre goles de café forte e a fumaça preguiçosa de um cigarro noturno. O ambiente é sempre o mesmo, propício para “cassete”, como dizem os brasileiros. Aquele discurso longo, especulativo, meio sonho, meio tese…
Vivemos um tempo em que os média, as redes sociais, os blogues e até as conversas mais banais nas padarias ou nos engarrafamentos, se transformam em câmaras de eco emocional. A opinião, muitas vezes, sobrepõe-se ao facto. A emoção atropela a razão. E nesse caldo de percepções, julgamentos e desejos colectivos, surgem nomes, hipóteses e cenários que rapidamente ganham vida própria.
Foi nesse contexto que emergiu, ainda que no plano do pensamento opinativo, o nome de Adérito Areias como possível governador de Benguela. Não como anúncio formal, nem como campanha disfarçada, mas como construção intelectual de um articulista que escreveu: “Se um dia fores governador de Benguela, não será ascensão, será oficialização”.
Não é campanha. Não é profecia. É constatação íntima: “O cargo ainda não é teu (…) mas já te obedece em pensamento”.
A força da frase não está na previsão, mas na leitura simbólica de um percurso. Adérito Areias, empresário reconhecido no panorama económico angolano, construiu reputação como um dos principais nomes ligados ao sector salineiro e com presença também na agropecuária. É visto como gestor experiente, figura influente e actor relevante na economia real, aquela que produz, emprega e exporta.
O país precisa, de facto, de empresários capazes de gerar riqueza. E a história demonstra que, em certos contextos, gestores oriundos do sector privado podem contribuir para uma administração pública mais pragmática, orientada a resultados e menos tolerante à estagnação. Benguela já viveu experiências de governação, que deixaram memória positiva, como no tempo de Luís da Fonseca Nunes, frequentemente recordado pela sua postura dinâmica e proximidade com a realidade económica da província.
Contudo, é importante sublinhar, competência empresarial não é sinónimo automático de vocação política. Governar exige mais do que visão de negócio, requer sensibilidade social, capacidade de mediação, respeito institucional e compromisso inequívoco com o interesse público, acima de qualquer círculo restrito.
A reflexão em torno do nome de Adérito Areias, revela menos sobre uma pessoa específica e mais sobre um sentimento colectivo, o cansaço com modelos de governação distantes da economia produtiva e das necessidades concretas das populações. Há um desejo latente por lideranças que conheçam o valor do trabalho, da gestão eficiente e da responsabilidade sobre recursos.
O problema, é que vivemos também uma era de desalinhamento emocional e cognitivo. As pessoas sentem que o mundo já não funciona segundo as regras que aprenderam a reconhecer. As expectativas formadas ao longo do tempo, chocam com uma realidade que parece operar noutra lógica. É uma espécie de erro de paralaxe social. Olhamos, mas a imagem já não coincide com a posição real dos factos.
Nesse cenário, surgem emoções que não são de encantamento, mas de desconexão. A sensação de que “as coisas não batem certo”. E quando a confiança nos sistemas enfraquece, a sociedade passa a projectar esperança em figuras que simbolizem ruptura, eficiência ou mudança de estilo. Mas, se isso é suficiente para governar, é outra conversa. E essa, sim, já não cabe apenas na mesa do café.










