ZOOM DA TUNDAVALA

Durante alguns anos, poucos, depois de proclamada a independência nacional, os angolanos, filhos da pátria, estudavam todos nas mesmas escolas públicas, fossem elas de que nível fossem. Não havia distinção alguma entre filho de ministro, de director nacional, ou de cidadão comum. Não se diferenciavam as salas onde estudavam, e todos se davam bem, conviviam com elevado sentido de camaradagem e de amizade e, nesses poucos anos, o ambiente académico era, indubitavelmente, muito diferente.
Nessa altura, em que só havia escolas públicas, até porque a economia era centralizada, o Estado mandava em tudo, era dono de tudo, quase não havia actividade privada porque até a simples retrosaria ou geladaria era do Estado. Também não havia cá dessas coisas de filho de ministro estudar noutras escolas ou colégios, porque não havia dessas “modernices”.
As alterações ocorridas ao nível mundial, principalmente depois da Perestroika e da queda do Muro de Berlim, em 1989, levaram que Angola mudasse também de rumo e daí que, em 1991, a Pátria passou da economia centralizada para a economia de mercado. A partir dessa altura, a chamada “iniciativa privada” ganhou fôlego e o mundo dos negócios abriu as portas, até para o surgimento de colégios privados, mas que, no fundo, tinham como verdadeiros donos, gente ligada à “numenklatura”, gente com massa e “estatuto”. E, com a maior das naturalidades, os filhos dos ministros deixaram de estudar nas escolas públicas, porque essas passaram a ser escolas do povo. Nada de misturas.
A partir de certa altura, o “comércio” de escolas e de colégios privados foi tomando conta do negócio, a tal ponto que hoje, o ensino privado assume uma fatia enorme no sistema de ensino, do básico ao superior, sem que esse “boom” tivesse sido seguido, salvo excepções, do necessário crescimento da qualidade do ensino.
Depois da “perestroika” angolana, começou também a ganhar expressão, a decisão de pais de todas as latitudes da Pátria, colocarem os filhos a estudar “lá fora”, porque a qualidade do ensino no país caiu de tal forma, que deixaram de existir garantias de formação decente. Logicamente, quem pretende para o seu filho, o melhor ensino, ensino de qualidade, passou a mandar os putos para as estranjas. Claro que isso não é para todos, é para quem pode. E os pioneiros nessa prática foram precisamente pessoas lá de cima, como se diz, “os ministros”. As coisas estão de tal forma, que hoje se acredita que, ser “filho de ministro”, é estatuto bastante para estudar apenas nos melhores colégios do país. Mas, quase e só, para aprender a ler e a escrever, porque depois do 9º ano, por aí, os papás mandam todos “lá para fora”. Pudera, quem melhor que eles sabe o que há por cá? O sistema público de ensino está da tal forma que nem “eles” o querem.
Assim, filhos de “ministros” e de “quem pode”, vão indo para a “Tuga”, para colégios e universidades de referência nas Inglaterras, Américas e tantas outras paragens. No dia em que se souber que há boas universidades em Marte, o mais certo é que os primeiros a chegar lá sejam filhos de “ministros” angolanos.
Uns vão e ficam. Não voltam. Porque descobrem novos mundos, novas realidades, aproveitam oportunidades que muitas vezes lhes são negadas na Pátria, ou não existem, mesmo. Fazem as suas formações, têm o devido reconhecimento, conseguem bons empregos e, conhecedores da realidade da Pátria, ficam. Enraízam-se na terra que os acolheu e por lá ficam.
Outros vão mas, volvidos alguns anos, já formados, e com alguma tarimba decidem, por vontade própria, atender ao chamamento da Pátria que os teve, e voltam. Voltam por sentirem que fazem falta, ao contrário da opinião “daquela senhora”. Sim, fazem falta. Todos os filhos da Pátria fazem falta, tenham ido estudar fora da mãe que os teve, ou tenham estudado cá, sejam filhos de “ministro”, ou de “quem pode”, anónimos ou outro estatuto. São todos quadros, ainda que alguém só os reconheça como “molduras”.
Quando os filhos da Pátria regressam, trazem consigo não só o conhecimento adquirido, a formação feita e a experiência profissional acumulada. Vêm com vontade de dar o que têm para e pela Pátria. Mas trazem, ou querem trazer algo mais. Querem trazer também os seus livros, a biblioteca que fez parte da sua formação, os seus pertences, sem ser a roupa e a escova dos dentes, os bens que conseguiram juntar durante os anos que, para terem uma formação capaz, se viram “forçados” a ir “lá para fora”, mandados pelos progenitores, ou beneficiando de bolsas de estudo garantidas pela Pátria, para terem uma formação melhor.
O regresso dos filhos da Pátria devia, por isso, merecer mais apoio por parte de quem manda, porque, os que não conseguem embrenhar-se no “esquema”, nem os livros conseguem trazer, muito menos outros bens que possuem, vendo-se obrigados a desfazer-se deles, porque os custos de transporte são elevados. E, chegados os bens à Pátria que os teve, os que conseguem, ainda têm de enfrentar ou contornar os ditos “direitos aduaneiros” e outras taxas porque ninguém lhes perdoa. Muito menos a toda-poderosa AGT.
O regresso dos filhos da Pátria é, em muitos casos, motivo de grandes decepções. Ou porque a Pátria que os teve não lhes assegura emprego compatível com a formação que possuem, sendo muitas vezes relegados para trabalhos secundários sem qualquer perspectiva, ou ficam mesmo a “dar cabeçadas” a torto e a direito para arranjar emprego, ou acabam por engrossar a lista de desempregados por muito tempo, ou se sujeitam a viver à custa dos pais, de outros familiares ou de outros expedientes. São só frustrações!
No entanto, contradizendo tudo isto, ouve-se falar da falta de quadros, da falta de técnicos, da falta de especialistas disto e daquilo, quando muitos dos filhos da Pátria são desprezados pela mãe que os teve, acabando alguns por voltar aos países de onde vieram, para tentarem mais uma vez a sua sorte. Imigrar parece ser o destino de muitos por não encontrarem soluções na Pátria que os teve.
O regresso dos filhos da Pátria não pode ser visto apenas pela cor da roupa que trazem vestida, ou do estatuto que possam ter, porque todos fazem falta, todos são importantes, todos são necessários, todos são imprescindíveis e indispensáveis. São todos filhos desta terra!
A Pátria que os teve, tem outras obrigações das quais não se pode querer livrar! Nem pode tratar uns como filhos e outros como enteados.
É preciso apoiar, acarinhar, proteger os filhos da Pátria que atendem ao chamamento da terra mãe!
