“Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento.
Mas ninguém chama violentas às margens que o comprimem.”
– Bertolt Brecht – 1898/1956

Em tempo de crise, o líder não se deve remeter ao silêncio ou blindar-se em comunicados, ou editoriais encomendados, à espera que as forças da ordem acabem com a desordem e reponham a mesma ordem que tem sido fortemente contestada por não garantir o ordenamento da cidadania.
Em tempo de crise, quando o caos se instala e derruba os pilares dos códigos de conduta engavetados por conveniência de serviço, particularmente no actual contexto em que se regista uma onda de indignação generalizada face ao aumento insuportável do custo de vida, a voz de líder deve fazer-se ouvir em tempo útil e de forma clara, inspiradora e eficaz. A voz do líder deve emitir uma mensagem dialogante de elevada responsabilidade e solidariedade para com os seus concidadãos, sem perder a autoridade que lhe é conferida pela Constituição e a lei, evidenciando um conhecimento profundo da realidade e uma vontade genuína de apostar na busca de soluções integradas para os múltiplos problemas que, em boa verdade, estão na base da crise que se agiganta dia após dia.
Em tempo de crise, o líder deve ter em consideração todos os pontos cardeais, condição indispensável para uma verdadeira concertação, integrando todos os sectores da sociedade sem deixar ninguém para trás.
Em tempo de crise, por maior que seja a força de quem tem poder e legitimidade, toda e qualquer manobra de incitamento ou aproveitamento político, venha de onde vier, acaba sempre por ter “efeito boomerang”, ou melhor, “um tiro que saiu pela culatra”. E, no final da operação, os resultados revelam-se quase sempre contrários aos que têm sido preconizados nos laboratórios concebidos por manipuladores sem escrúpulos. Porquê? Porque menosprezar a maturidade de um povo inteiro e tentar fabricar provas para incriminar adversários políticos ou “inimigos internos”, é pura perda de tempo.
A fome não tem princípios e a indignação não tem limites. Não são necessários mandantes nem “capachos” para que os estômagos vazios e as vozes ignoradas tomem conta das ruas. Prova disso é que, em apenas dois dias, a cidade de Luanda foi sacudida por um temporal de vandalismo e pilhagens sem precedentes, provocando perdas irreparáveis em todas as dimensões: vidas humanas, património público e privado, duros golpes na economia e uma mancha negra que compromete seriamente a reputação do país.
Para quem acompanhou de perto os tumultos de segunda e terça-feira (28 e 29 de Julho), há questões intrigantes que exigem uma clara explicação: por que razão as forças da ordem demoraram tanto tempo para tomar medidas de contenção?
Como se explica o facto de não terem sido acionados, atempadamente, os dispositivos de prevenção, uma vez que a paralisação dos taxistas foi amplamente divulgada com bastante antecedência? Negligência, incompetência ou conivência com “forças ocultas”?
Caso haja provas de alguma conspiração para a desestabilização do país, os dados apurados devem ser publicados. Os autores desses actos criminosos devem ser conduzidos aos calabouços para sentirem a mão pesada da justiça. Os jovens endiabrados, independentemente do desespero resultante da situação de pobreza em que se encontra a maioria da população, têm de entender que a reivindicação dos seus direitos não se coaduna com a violência e a destruição de bens e serviços públicos, assim como do património de cidadãos nacionais e estrangeiros que não têm culpa da má governação.
As autoridades, acima de tudo, têm a obrigação de prestar atenção ao perfil dos mais de mil e quinhentos (1.500) jovens detidos em menos de 24 horas. Quase todos com menos de 25 anos, na sua maioria sem quaisquer habilitações académicas, alguns deles analfabetos funcionais, vivendo numa situação de total indigência. São milhões de homens e mulheres na flor da juventude, vítimas da exclusão e das desigualdades sociais que quase nunca aparecem nos tópicos das principais notícias dos telejornais. Qual é o lugar reservado para essa franja da população nas celebrações dos 50 anos da independência? Nenhum. Absolutamente, nenhum.
É por isso que, em tempo de crise, a voz do líder é essencial para emitir sinais claros de comprometimento com o bem-comum, escutando as vozes de todos os quadrantes para sinalizar um novo traço de união. Só assim será possível remover os factores perturbadores e eliminar os vícios que impedem os angolanos de encararem o futuro com confiança e determinação.
Em tempo de crise, a voz do líder é imprescindível para que não se perca mais tempo e dinheiro com estratégias oportunistas, que servem apenas para arregimentar novas clientelas sem qualquer utilidade, policiar e silenciar vozes críticas, assim como adquirir meios e equipamentos sofisticados para intimidar os inconformados e tentar apagar incêndios, que seriam evitados se houvesse abertura para o diálogo e total disponibilidade para uma análise descomplexada das causas reais dos problemas actuais.
Em tempo de crise, torna-se urgente uma resposta para o grande desafio do momento: onde está a voz do líder que geralmente não dispensa uma oportunidade para elevar a sua voz nas inúmeras inaugurações, nas incontáveis viagens pelos quatro cantos do país e do mundo, bem como nas grandes entrevistas televisivas que parece terem sido adoptadas ultimamente para aprimorar a estratégia de comunicação para dentro e para fora?
Onde está a voz do líder?