
Para os países africanos produtores de petróleo e Angola em particular, o aumento do preço do petróleo será numa proporção muito inferior à dos aumentos dos produtos importados, porque 50 anos após a independência, não produzimos praticamente nada. Dependemos em mais de 90% dos bens e serviços importados.
Como é do conhecimento público, no dia 28 de Fevereiro do corrente ano, os Estados Unidos da América, com o apoio do seu principal aliado, Israel, lançou um ataque coordenado contra o Irão, desencadeando um grande conflito, sem que houvesse consulta e anuência do Congresso americano. Em resposta, o Irão retaliou atingindo com os seus misseis, todos os países árabes onde estão instaladas bases americanas. Não seria demais relembrar, que, não obstante a maioria dos iranianos praticar a religião muçulmana, que lhes confere alguma afinidade, eles são persas e não árabes.
Com o desenrolar dos ataques, o Irão, inteligentemente, fechou parcialmente o estreito de Ormuz, impedindo a navegação dos navios da coligação americana, quer utilizando minas, quer barcos-bomba. Mas, deixa passar os barcos chineses e aceita o Yuan para a comercialização do seu petróleo. O objectivo, é enfraquecer o petro-dólar.
Qual é a estratégia do Irão?
A estratégia do Irão é destruir a base da economia americana. E está a conseguir. Com o dólar a desvalorizar, com a venda de petróleo em Yuan, os Estados Unidos deixam de ter os dólares que resultariam da compra do petróleo reinvestidos, quer na sua bolsa, quer nas suas empresas.
Qual o resultado da estratégia do Irão?
A guerra reduziu a produção do petróleo e do gás dos países do Golfo Pérsico, em 10 milhões de barris/dia e fez o preço do barril chegar muito próximo dos USD 120,00. O Irão exporta 20% do petróleo global, que agora escasseia no mercado. Por outro lado, os seguros marítimos também dispararam, e instalou-se o pânico nos mercados com o FMI a alertar que, por exemplo, um aumento de cerca de 10% no preço dos combustíveis, aumentaria em 40 pontos a taxa de inflação.
O Catar, país atacado na retaliação do Irão, onde se situa a maior e principal base militar americana no Médio Oriente, produz 40% do hélio mundial, um gás natural sem o qual não se podem fabricar chips, nem se operam equipamentos para ressonância magnética.
Mas, para além dos combustíveis, o Irão é responsável também pela exportação de 50% dos fertilizantes. Como consequência do conflito, o preço da ureia, produto essencial para a produção de fertilizantes, subiu 35%. O Governo da Índia, país com cerca de 1,47 bilhões de habitantes, já entrou em pânico, porque sem fertilizantes não há capacidade de produção de alimentos para alimentar tanta população.
Não é só isso. A cadeia de amônia do Irão, alimenta a produção de cerca de 12 milhões de pessoas nos Estados Unidos, e de cerca de 13 milhões no Brasil que não serão abastecidas, entre outros países.
Noutra vertente complementar do abastecimento logístico químico das principais economias, os Emirados Árabes Unidos, a Arábia Saudita, o Bahrein e o Catar são responsáveis pela produção de 10% do alumínio global. Trata-se de um metal leve fulcral para a produção de veículos, embalagens, construção civil e de componentes electrónicos. Receia-se que a escassez desse produto faça o preço por tonelada subir para USD 4.000,00. E recordo que neste momento, o alumínio é a “commodity” mais procurada pelos investidores, superando o ouro e em muitos casos, o petróleo.
Inicialmente, o Presidente Trump afirmou que as Forças Armadas dos Estados Unidos tinham capacidade de, por si só, atingir os objectivos a que se propunha com essa investida sobre o Irão. Prometeu destruir as bases militares iranianas, acabar com o seu armamento mais sofisticado, aniquilar e substituir o seu líder Supremo pelo filho do Xa da Pérsia deposto, Rezza Pahlevi, ou por quem mais lhe conviesse. Teria assim o controlo da economia iraniana, e a distribuição dos seus recursos geológicos e mineiros. Todavia, agora o Presidente Trump contradiz-se, solicitando auxílio até aos não aliados.
O Presidente Trump está assim a ver a capacidade das Forças Armadas americanas chegarem ao seu limite. Entre vários importantes vasos militares, foi atingido o USS FORD, o maior e mais moderno porta-aviões nuclear do mundo. Depois de ver recusada a ajuda dos países aliados nomeadamente, da União Europeia e do Japão, não teve outra alternativa senão solicitar ajuda aos países não aliados, como a China, a Rússia e a Índia, que como era de esperar, rejeitaram. A justificação que encontrou para tentar convencer os países não aliados, foi o facto da China depender em cerca de 90% da importação do petróleo que transita pelo Canal de Ormuz; já a Índia importa cerca de 80% das suas necessidades, seguindo-se a União Europeia, enquanto, segundo ele, os Estados Unidos apenas importam 1% das suas necessidades.
Gostaria de relembrar, que Angola já exportou cerca de 7% do petróleo consumido nos Estados Unidos, que muito raramente utiliza as suas reservas. Está claro, que o Presidente Trump não quer admitir, que a contraofensiva do Irão agita os mercados. Existe o aspecto subjectivo da indefinição do tempo que durará o conflito e o aspecto objectivo, relativo à subida dos preços do petróleo, dos fretes e a escassez de fertilizantes, devido ao encerramento do Estreito de Ormuz e da destruição de campos petrolíferos atingidos, quer no Irão, quer nos países árabes.
Por outro lado, a China e a Índia importam mais, porque produzem mais, inclusive os componentes para a indústria americana de montagem de equipamentos. Os Estados Unidos, desde os anos 90, deslocalizaram a produção industrial, essencialmente para a China, Índia, Canadá e México, países com mão de obra mais barata, o que permitia a redução de custos e maiores lucros às multinacionais americanas. Desde essa época, os Estados Unidos especializaram-se essencialmente em “design” e em produtos financeiros.
Desde os primórdios da formação dos reinados, nem todas as guerras são ganhas no campo de batalha. A maioria dos conflitos militares terminaram por negociação, que seria a arma mais adequada em pleno século XXI, não fosse a ganância e a sede de protagonismo de certos líderes, sobretudo, quando se cruzam interesses e ressentimentos pessoais com interesses do Estado.
Daí que, não foi surpresa o facto do Presidente Vladimir Putin tomar a dianteira desta vez, apresentando à Administração Trump como proposta, o levantamento das sanções à exportação do petróleo da Rússia. E para atenuar o nervosismo dos mercados financeiros, o Presidente Trump anuiu e o preço do petróleo baixou ligeiramente.
Enquanto isso, segundo a CNN, desde o início do conflito, a Rússia encaixou 6 mil milhões de euros, dos quais 672 milhões de euros de 1 a 12 de Março, com a venda de petróleo, gás e carvão, “uma vez que a média combinada de preço disparou 14%, relativamente ao mês de Fevereiro”.
A Rússia continua como um ‘player’ central responsável por 10% da produção global, imprescindíveis ao seu orçamento, que inclui a “máquina de guerra” contra a Ucrânia, mesmo com as sanções.
Tal como na teoria dos jogos de soma zero, (porque um ganha e outro perde), poder-se-ia ter evitado tantas mortes na guerra entre a Rússia e a Ucrânia, apoiada pelos Estados Unidos e pela União Europeia, se, como se observa agora, até conseguem acordar e unir interesses para acalmar o mercado. Concluindo, a estratégia actual do Irão beneficia a Rússia.
Quanto aos países africanos produtores de petróleo e Angola em particular, acreditamos que o aumento do preço do petróleo será numa proporção muito inferior à dos aumentos dos produtos importados, porque 50 anos após a independência, não produzimos praticamente nada. Dependemos em mais de 90% dos bens e serviços das importações.










