MATEMÁTICA DAS PALAVRAS

O norte da ‘prepodemo’ não tem amigos, apenas alvos por ordem de prioridade. Do ponto de vista da democracia e da soberania das nações, o rapto de um chefe de Estado por forças de outro, representa o auge da prepotência mundial e um ‘vai à merda’ ao Direito Internacional.
Bom, sejamos mesmo pessimistas. A democracia, já não é tão glamourosa. É atraente, mas estagnou porque atingiu um ponto em que já não consegue suster a necessidade de garantia para a estabilidade e desenvolvimento. Sejamos também, apologistas de que os fundamentos, que a sustenta, têm que ser reanalisados e novos paradigmas aplicados.
Essa “reanalise” implica uma datação não de carbono, mas cronológica. Com rigor histórico, o “berço” da democracia não é Atenas. Os gregos de Atenas, não só copiaram de outros, como a Índia (com os gana sanghas ou monarquias absolutas, governadas por assembleias de representantes de clãs e, onde as decisões eram colectivas), ou na Mesopotâmia (com o que é conhecido por democracia primitiva, principalmente descrito no “épico de Gilgamesh”), mas também alteraram conceitos (coisa mundana hoje em dia, principalmente, com as “desinteligências” do algoritmo e que equivale a monstrum horrendus, quando o chip nos pergunta se, somos humanos, miuxxx).
Os romanos (como bons fofoqueiros na época), espalharam a palavra, com gestos suaves, bastavas vezes tidos, como extremamente brutal. E, o dito mundo moderno no Ocidente de então, fez desses conceitos (tal como fizeram do cristianismo), sua produção intelectual. O resto, é parlapie de shebeen num recanto qualquer nas frias noites no Soweto.
Portanto, se quisermos “cronologicar” a democracia, a partir de 2026, precisamos de separar a moda antiga, que tem aproximadamente 2.500 anos. Na realidade, se recuarmos à Grécia dos imitadores em 508 a.C (altura em que um tipo chamado Clístenes, e aquém os ocidentais o chamam de pai da democracia, por ter se apercebido, que o poder, estaria melhor nas mãos do povo), iremos ver que a democracia tem cerca de 2.514 anos. No entanto, para os nossos padrões actuais, aquilo era um katolotolo de exclusão. Ou seja, as mulheres, os escravos e estrangeiros não contavam. Era uma democracia para ilustres, tipo os nossos “no que tange” só, que lá de Atenas.
A que vigora (inclusive entre nós), tem mais ou menos 237 a 250 anos e resulta de uma mistura de revoluções. A primeira, foi de imigrantes nas terras usurpadas aos índios iroqueses, siouxes, cheyennes, pueblos, navajos, haidas e tlingites, de 1776. E a segunda, de 1789, naquela terra dos que acham chique levar o pão cassete no sovaco katingoso, disfarçado com o mais sublime das rosas e que naquela altura, consideravam higiénico, ficar um mês sem tomar, porque poderiam adoecer.
A democracia que conhecemos hoje, tem, portanto, duas facetas. A impingida, que, já vem com déficit de legitimidade ou seja, o cidadão não se identifica com as instituições, porque imita modelos estrangeiros, que nada tem a ver com a sua identidade cultural e social. É querer que a CRA funcione tipo a da Suíça. Não dá, porque o nosso contexto, exige uma, que trate primeiro do pão, da resoquina, do abecedário (a lista é interminável). E mais: a tal impingida, acaba por ser “abocanhada” pelos politiquês e jurisdiquês do costume, que como exímios especialistas na retórica do falatoísmo, acabam por exercer um poder separatista e controlador, mas em constante peditório pelo “selo” de aprovação internacional.
A outra faceta é a prepontente. Uma verdadeira mixórdia de político e jurídico, onde as formas democráticas são utilizadas, para não só doutrinar outros (ansiosos em parecer ao invés de ser), mas também exercer um poder arrogante, exclusivo e autoritário. É a “democracia” de quem se sente acima do escrutínio, usa a legitimidade do cargo para esmagar qualquer dissidência. Vemos isso, por todo lado, aqui então…
Mas não chega sequer a hipocrisia do norte global, com a zona-euro e o Trump. Juntos e amigados, têm na prepodemo (democracia prepotente), a última bolacha do pacote, quando a endoutrinação, pela via do medo, não consegue conseguir. É justamente essa (a prepodemo), que vigora no nosso mundo. Ela tem aproximadamente 80 a 100 anos. Na realidade, há uns 80 foi adoptada pelos democratas bonzinhos e exportada, como modelo balabala, para impôr a ditadura da maioria, após a 2.ª Guerra de uns quantos (1945), se expandiu, com o fim da guerra dos quases (pós-1991).
Com o suporte ideológico da doutrina Monroe, a América, se viu no direito unilateral de prender tudo e todos. E já agora, importa dizer que o termo correcto é “rapto” e não sequestro. Rapto, porque o objectivo não era colocar o Maduro sob cativeiro, exigir um resgate em dinheiro ou concessões específicas (característica do sequestro), mas sim afastá-lo fisicamente do poder, para o matar, exilar ou entregar a outra autoridade, isto é, o ministério da justiça. Isto alinha-se com o núcleo do rapto, ou seja, agarrar e levar à força na medida em que os Estados Unidos, não tem a intenção de mantê-lo sob custódia prolongada enquanto negoceia a sua libertação.
De certo modo, é lícito dizer que Maduro foi vítima de um golpe de estado por captura. Historicamente, planos para afastar do poder o “ordens superiores”, são frequentemente designados por “rapto” ou “captura”. Recapitulando, se o plano era capturar Maduro para o matar ou exilar, trata-se de um rapto. Se o plano fosse capturá-lo e mantê-lo escondido para forçar o governo de Caracas a pagar um resgate ou ceder território, então seria um sequestro. Dado que todas as narrativas públicas apontam para o primeiro cenário (remoção do poder), “rapto” é o termo mais preciso e semanticamente correcto.
Na prática jornalística, é comum ver os termos usados de forma mais solta. “Sequestro” pode ser usado pela sua força dramática, e por ser o termo mais comum para crimes contra a liberdade pessoal. No entanto, numa análise rigorosa da língua e dos factos alegados, rapto é a palavra mais técnica e adequada. Ainda no âmbito dessa doutrina, Washington se arroga também no direito de julgar e condenar, presidentes no exercício de funções. Já que estamos na “vibe” das cronologias, importa também citar algumas aqui.
A terminologia rigorosa do Direito Internacional, requer que devemos distinguir entre intervenções militares directas (operações de mudança de regime) e o acto físico do “rapto” (captura e transporte forçado), pelo viralata que se arroga em ser o polícia do mundo. O caso mais flagrante é o de Manuel Noriega (Panamá 1989). É o exemplo de rapto de um “ordens superiores” em funções. Ele era o principal aliado da Casa Branca na região, foi vítima de um golpe de estado, por rapto, no decurso de uma invasão militar e, “gentilmente”, levado para Miami onde foi condenado a 40 anos de prisão, pelos mesmos crimes de que Maduro é acusado. Anos mais tarde, a sentença foi reduzida para 30 anos, mas cumpriu apenas 17 anos e foi liberto por bom comportamento, sendo de seguida extraditado para Paris, onde cumpriu 7 anos por branqueamento de capitais. Regressou a cidade do Panamá, onde foi condenado a 60 anos de prisão. Em 2017, passou ao regime de prisão domiciliar, falecendo no ano seguinte. O actual presidente, José Mulino, pode ter o mesmo destino, porque na cabecinha do loirinho, a presença dos chineses ameaça a segurança da América.
O outro presidente que escorregou nas babas do xerife viralata, foi Jean-Bertrand Aristide do Haiti, em 2004. Ele diz que foi raptado durante o golpe de estado, foi obrigado a assinar uma carta de renúncia e “enfiado” num avião rumo a Bangui, cena essa que os americanos negam, alegando que o retiraram do país para sua própria “protecção” num contexto de total violência interna.
A história (como sempre), registou outro caso de prepodemo. Salvador Allende, no Chile, em 1973, matou-se, após cercado numa das salas do palácio presidencial, no decurso de um golpe de estado, patrocinado por Richard Nixon. Saddam Hussein, foi capturado meses após a invasão norte-americana e enforcado, após julgamento sumário. E, claro, Maduro (aquém Luís Marques Mendes, candidato às eleições presidenciais do dia 18 próximo, na tuga, em acto de seguidismo puro e falta de juízo, classificou-o de o maior ditador. Exagero à parte, Nicolás Maduro, é caçulinha da bola, diante do que Stroessner e Pinochet, fizeram). Ou seja: 36 anos depois de Noriega, outro presidente na região foi raptado, desta vez de um condomínio presidencial de segurança máxima, em acto muito duvidoso (há certamente muitos que por menos, subiriam o Himalaia só de cuecas e saco d’água na mão, e entregar o chefe, por 50 milhões diante da subida ao Himalaia, é coisa mínima). Acreditamos, que se tratou de um “inside job”. E, desta vez, o estapafúrdio motivo útil, dentre outros e para além do óbvio, é a de Nicolás Maduro comercializava armas destruidoras, para traficar drogas.
Dias antes, Trump, contrariando o desejo das Honduras, indultou o ex-presidente Juan Hernández, detido e extraditado para Nova Iorque, onde foi condenado a 45 anos de prisão, pelos mesmos motivos de que Maduro é acusado. Na verdade, continua a ser o medo do expansionismo chinês em toda a extensão do espaço da Latino-América, ou seja, no que os yankees consideram ser seu “quintal”, a comichão para se “abocanhar” dos 100 anos de reservas petrolíferas (que Maduro, negociava, com todas as moedas, excepto o dólar). E por arrasto, o acesso às minas de prata do Chile (o maior produtor mundial combinado de prata e cobre) e do Peru (um dos maiores produtores de prata), países que, com a Venezuela, partilham fronteira comum e “estão” disponíveis a cobrir as necessidades americanas, para relançar a produção de mísseis cruzeiros tomahawk.
Para os menos emocionados com o ‘glamour’ yanke que e relativamente mais atentos à retórica ordenalística, estas acções são frequentemente camufladas com o katá de “restauração da democracia” ou “intervenção humanitária”. No entanto, do ponto de vista da democracia e da soberania das nações, o rapto de um chefe de Estado por forças de outro Estado, representa o auge da prepotência mundial e um vai à merda ao Direito Internacional. O norte da prepodemo não tem amigos, apenas alvos por ordem de prioridade e isso, já dizia Khadafi (que acabou sendo vítima da própria premonição), que o amigo de hoje é, o inimigo de amanhã…











