O POVO ESQUECIDO (1)

“…a pobreza e a desigualde acentuada na distribuição da riqueza são, na verdade, do ponto de vista social, talvez a maior ofensa que um país independente e com extraordinárias potencialidades de crescimento pode fazer aos seus cidadãos…”

(Alves da Rocha, Expansão, 06.10.2023)

LUÍS BERNARDINO

Numa altura em que se apressa (precipita?) a inauguração dum mega-aeroporto na capital do País, concebido para lidar com um número de passageiros 15 vezes maior do que o presente fluxo, e aonde já se instalam os terminais de outro elefante branco, a rede de metro aéreo congeminado para Luanda, mais de 50% dos 35 milhões de angolanos vivem abaixo do nível da pobreza, e 75% das aldeias em todo o território não têm qualquer estrutura de cuidados de saúde.

Este flagrante contraste entre as realizações dos políticos da capital na terceira década do século XXI e a qualidade de vida da maioria da população, tem-se operado nos quase cinquenta anos duma independência nacional concebida e vencida em nome da igualdade para todos os angolanos e conquista da justiça social que o colonialismo desrespeitava. O falhanço da luta pela independência é, visto a esta luz, estrondoso.

Ao partido que tem tido desde então o monopólio do poder, o MPLA, tem sido apontado a sua origem pequeno-burguesa das cidades, a sua falta de representatividade da Angola profunda. Mas vendo bem, a maioria dos partidos que mudaram o destino das nações, em África e no Mundo, formaram-se à volta de grupos urbanos, tiverem intelectuais como os seu líderes. A consciência e revolta do Povo têm de ser lidas e dinamizados pelos seus pensadores e intelectuais – essa é em geral a norma. O MPLA era o único partido nacionalista que tinha alguns lideres com uma ideologia de democracia e justiça social bebida nos princípios marxistas e socialistas, e que o equipavam para uma visão para além da cidade, voltada para todo o Povo e toda a Nação. E no entanto, a morte precoce de Agostino Neto, o decréscimo da influência de alguns, que como ele, tinham a ideologia igualitária inegociável como o norte da sua política, foram colocando ao leme do Partido e da Nação os de menos princípios, os espertos e oportunistas, vestindo a camisola do marxismo-leninismo enquanto isso foi recomendável para a aliança com a URSS e Cuba (agora as camisolas do dia são Israel e os Estados Unidos, e, sobretudo, os negócios) e que rapidamente cederam à tentação do dinheiro fácil do petróleo, do nepotismo e da corrupção e puseram a equidade e a justiça social apenas como retórica oca e demagógica que desse uma fachada populista à sua governação.

Daí à criação duma máquina de poder que controla a administração, as finanças, as forças armadas e de segurança e os meios de informação, e que, fechada sobre si, dentro da capital do País, desbarata os recursos nacionais em projectos megalómanos e de prestigio, que, longe de resolverem os problemas do Povo, como anunciava Neto, visam, em primeiríssimo lugar, o enriquecimento dos elementos do poder – foi o passo que a inauguração do gigantesco aeroporto vai, uma vez mais, consumar – por triste e revoltante ironia, na celebração de mais um aniversário da independência nacional.

A curteza de vistas de quem apenas vislumbra alguns quilómetros à volta do seu dia a dia cómodo e frequentemente luxuoso (afinal, é esse o seu país!) tem acentuado um açambarcamento excessivo de recursos para Luanda. Os atuais mega-empreendimentos executados e anunciados são apenas alguns dos projectos faraónicos que temos visto anunciar para Luanda, entre mais (sumptuosos e caríssimos) hospitais, bairros de ministérios, etc…, etc…. Pode dizer-se que, entre cegueira e cupidez, Luanda é manipulada como um parasita do resto do País – sendo ela própria uma vítima descaracterizada com os enormes edifícios de lavagem de dinheiro obscenamente vazios, que grotescamente talvez visassem emular um Dubai.

Não há, na actual governação, um senso de nacionalismo e de unidade que levem a seguir os exemplos da Nigéria, da Tanzânia e do Brasil, de se mudar a capital para o centro do País, e assim energizaram em vez de abandonarem as populações, a economia e a vida do interior. A própria potência colonial ciente de ter criado um país artificial juntando povos diferentes, tinha uma sensibilidade relativamente à unidade nacional angolana que parece estar agora adormecida. Citemos uma vez mais o Prof. Alves da Rocha:    

 “… o esquecimento das regiões do interior, a pobreza, o conflito-etno-cultural, a diferenciação social, etc, são contrários à constituição duma consciência nacional determinante para a estabilidade política…”.

Os recentes e recorrentes acontecimentos na Lunda, a situação de Cabinda, são, antes do mais, um exemplo do descontentamento e mesmo desespero das populações negligenciadas da periferia e materializam o perigo de fractura nacional a que o luandismo do poder está a sujeitar o País.

O Povo está esquecido. Não só nas províncias, mas naquele quase terço do país que é Luanda. E o esquecimento é retribuído na hora de votar, mas nem esse sinal foi entendido pelo alto responsável da Nação após as eleições de 2022.

Esta, mais do que a extravagante e narcisista inauguração do dia 11, é a melhor reflexão e a maior homenagem que podemos prestar no 11 de Novembro aos obreiros da independência nacional e aos idealistas duma Angola cujos imensos recursos sejam, partilhados equitativamente por todo o Povo, em todo o território.

9 de Novembro de 2023

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