O PAPEL DA EDUCAÇÃO NA INCLUSÃO SOCIAL: CONSTRUIR UM FUTURO SEM EXCLUSÃO

POR JOAQUIM JAIME

Construir uma Angola mais justa, onde ninguém seja deixado para trás, exige que a educação inclusiva deixe de ser vista como um “problema a gerir” e passe a ser assumida como princípio organizador de todo o sistema educativo.

A sala de aula é, ou deveria ser, o reflexo mais fiel da sociedade que aspiramos construir. Quando olhamos para as carteiras das nossas escolas, em Luanda, no Huambo, no Cuanza-Norte ou no Cuando-Cubango, vemos a riqueza e a complexidade de Angola: diferentes origens étnicas, condições socio-económicas, capacidades e histórias de vida. No entanto, transformar esta diversidade numa verdadeira oportunidade de aprendizado para todos continua a ser um dos maiores desafios do nosso tempo.

A inclusão social não acontece por acaso: ela é construída diariamente através de políticas públicas coerentes, mudanças de atitude e, acima de tudo, conhecimento. É neste ponto que o papel da educação se revela absolutamente estrutural. A escola angolana não pode ser apenas um local de transmissão de conteúdos descontextualizados; deve ser um espaço privilegiado de convivência, formação cidadã e ruptura com os ciclos de pobreza que ainda assolam milhões de famílias.

O que significa inclusão social em Angola?

Para compreendermos a profundidade do papel da educação na inclusão social, precisamos primeiro definir o que entendemos por inclusão. Muitas vezes, o termo é usado de forma redutora, como se fosse apenas “colocar todos no mesmo espaço físico”. Mas a verdadeira inclusão vai muito além da presença.

Em Angola, a inclusão social refere-se ao conjunto de meios e acções que combatem a exclusão aos benefícios da vida em sociedade – exclusão esta provocada por diferenças de classe social, origem geográfica, etnia, deficiência, género ou outros factores históricos e estruturais . O nosso país carrega as marcas profundas de um longo período colonial que estruturou a educação de forma selectiva e excludente, seguido por décadas de conflito armado que agravaram a destruição de infra-estruturas escolares e comprometeram investimentos públicos no sector.

Quando uma sociedade falha em incluir, ela gera marginalização. A exclusão social retira do indivíduo o sentimento de pertença e, com ele, a própria dignidade. Em Angola, a desigualdade social manifesta-se de forma evidente no acesso desigual à educação entre zonas urbanas e rurais, entre províncias, entre crianças com e sem deficiência. Lutar pela inclusão é, portanto, uma questão de justiça social e de respeito pelos direitos humanos consagrados na nossa Constituição e nos instrumentos internacionais que o país subscreveu.

Educação inclusiva

Quando falamos do papel da educação na inclusão social em Angola, é fundamental abordar o conceito de educação inclusiva. Historicamente, houve uma tendência a associar este termo apenas à inserção de pessoas com deficiência no ensino regular. Embora esta seja uma pauta urgente e obrigatória – sobretudo num país onde milhares de pessoas ficaram com deficiência devido à guerra, incluindo crianças vítimas de minas – a educação inclusiva é um conceito muito mais amplo.

A verdadeira escola inclusiva em Angola é aquela que reconhece, respeita e responde às necessidades de todos os estudantes. Ela parte do princípio de que a diversidade na sala de aula é a regra, não a excepção. Isto abrange:

•⁠  ⁠Diversidade socio-económica: acolher alunos de diferentes classes sociais, garantindo que a pobreza não seja barreira ao aprendizado.

•⁠  ⁠Diversidade cultural e étnico-racial: valorizar as línguas nacionais, as histórias locais e as culturas dos diversos povos que constituem Angola, combatendo preconceitos e hierarquizações herdadas do período colonial.

•⁠  ⁠Diversidade geográfica: assegurar que crianças do meio rural tenham oportunidades equivalentes às das zonas urbanas.

•⁠ ⁠Neurodiversidade e deficiências: oferecer acessibilidade física, pedagógica e atitudinal nas escolas.

A Lei de Bases do Sistema de Educação e Ensino (Lei n.º 17/16 de 7 de Outubro) e o Decreto Presidencial n.º 187/17, que estabelece a Política Nacional de Educação Especial Orientada para a Inclusão Escolar, representam marcos legais importantes neste caminho. Angola também é signatária da Declaração de Salamanca (1994) e da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, compromissos internacionais que reforçam a obrigação de construir um sistema educativo verdadeiramente inclusivo.

Água e saneamento: o alicerce invisível da inclusão escolar

Falar de inclusão social sem abordar as condições básicas de funcionamento das escolas é ignorar a realidade mais dura que milhões de crianças angolanas enfrentam diariamente. A verdade é que, para muitos alunos, o simples acto de ir à escola significa passar horas num ambiente sem água potável, sem casas de banho dignas e sem condições mínimas de higiene.

Segundo dados recentes, cerca de 62% das escolas nas províncias do Bié, Huambo, Namibe, Luanda, Cunene e Huíla não possuem qualquer sistema de abastecimento de água potável. As crianças aprendem, brincam e crescem num ambiente onde lavar as mãos é um luxo, e o acesso a uma casa de banho higiénica é uma excepção. Em muitos casos, a água disponível – quando existe – não é tratada. Cerca de 70% das escolas não têm acesso a rede pública de distribuição de água, e aquelas que estão ligadas não são abastecidas durante 78% do tempo. Apenas 24% das escolas que têm acesso à água fazem algum tipo de tratamento, como a adição de cloro. Nas zonas mais áridas, como o sul do país, esse número é ainda mais reduzido.

Estes dados reflectem uma realidade nacional profundamente preocupante. Um inquérito do Instituto Nacional de Estatística (INE) indica que apenas 28% da população nas áreas rurais tem acesso a fontes melhoradas de água potável. Quando se olha para o sector da educação, a situação torna-se ainda mais crítica: mais de 50% das escolas não têm latrinas funcionais, e cerca de 68% não dispõem de locais para lavagem das mãos com sabão e água.

Como podemos falar de inclusão social quando uma criança adoece por beber água contaminada na escola? Como podemos garantir igualdade de oportunidades quando as raparigas, durante o período menstrual, faltam às aulas por não existirem casas de banho dignas que lhes garantam privacidade e higiene? A exclusão começa muito antes do currículo escolar: começa na ausência das condições mais elementares de dignidade humana.

A falta de água e saneamento nas escolas não é apenas um problema de saúde pública – é uma violência silenciosa que perpetua o ciclo da pobreza. Crianças que adoecem repetidamente perdem dias de aula, acumulam dificuldades de aprendizagem e, muitas vezes, abandonam definitivamente o sistema de ensino. As raparigas são as mais afectadas: a falta de instalações sanitárias adequadas é uma das principais causas do abandono escolar no ensino secundário, comprometendo o seu futuro e reforçando desigualdades de género estruturais.

Como a educação pode promover inclusão

A teoria é necessária, mas é no “chão da escola” que o papel da educação na inclusão social se concretiza. Em Angola, este papel manifesta-se em três frentes principais: a adaptação pedagógica, a convivência com a diversidade e a formação para a cidadania.

1.⁠ ⁠Adaptação pedagógica e valorização da diversidade

Equidade na educação não significa dar o mesmo a todos – isso seria igualdade formal. Equidade significa dar a cada um o que precisa para se desenvolver plenamente. Numa escola inclusiva, abandona-se o modelo “tamanho único” de ensino.

Para um aluno com dislexia, pode significar mais tempo de prova ou avaliações orais. Para uma aluna de uma comunidade rural que precisa caminhar longas distâncias para chegar à escola, pode significar horários flexíveis ou apoio para permanência. Para uma criança com deficiência visual, implica materiais em braille e professores preparados para a utilizar.

A investigação sobre educação inclusiva em Angola tem demonstrado que a escassez de recursos e de formação específica em necessidades educativas especiais gera sentimentos de insegurança entre os professores, condicionando o sucesso dos processos de aprendizagem. É urgente investir na formação inicial e contínua dos docentes, capacitando-os para lidar com a diversidade em sala de aula.

Importa sublinhar: adaptação não é facilitar ou empobrecer o currículo. Pelo contrário, é criar estratégias didácticas diversificadas – uso de tecnologias assistivas, projectos práticos, metodologias activas – para que todos alcancem os mesmos objectivos de aprendizagem, cada um ao seu ritmo.

2.⁠ ⁠Convivência e respeito às diferenças

A escola é, para muitas crianças angolanas, o primeiro espaço de socialização fora do núcleo familiar. É ali que se descobre o “outro”. Se a escola é segregadora, a criança aprende que o mundo se divide entre “nós” e “eles”. Se a escola é inclusiva, aprende que a diferença é natural e enriquecedora.

O convívio diário com a diversidade é a ferramenta mais poderosa contra o preconceito. Projectos que promovem a empatia, o diálogo intercultural e a resolução pacífica de conflitos são essenciais. Quando um estudante sem deficiência convive com um colega com síndrome de Down ou com uma criança vinda de uma província com cultura diferente, ambos aprendem: um desenvolve competências académicas, o outro desenvolve humanidade e compreensão de que o valor humano tem múltiplas faces.

3.⁠ ⁠Formação cidadã e mobilidade social

Talvez o aspecto mais tangível do papel da educação na inclusão social seja a mobilidade social. Em Angola, a educação formal continua a ser o principal caminho para melhores oportunidades de emprego e renda .

Para jovens de famílias de baixa renda, particularmente os que vivem nas periferias ou nas zonas rurais, a escola de qualidade é a porta de saída do ciclo da pobreza. Mas a formação cidadã vai além da preparação para o mercado de trabalho. Ela empodera o sujeito para conhecer e exigir os seus direitos.

Um cidadão educado sabe reivindicar melhores condições de saúde, sabe votar com consciência, sabe identificar injustiças e organizar-se para as combater. A inclusão educativa fornece as ferramentas intelectuais para que cada angolano ocupe o seu espaço na sociedade com autonomia e dignidade.

Os desafios que enfrentamos

Apesar dos avanços legislativos e do reconhecimento crescente da importância da educação inclusiva, o caminho é árduo. Os obstáculos ao pleno exercício do papel da educação na inclusão social em Angola são múltiplos e interligados:

•⁠  ⁠Desigualdade de base: muitas crianças chegam à escola em situação de desvantagem extrema – subnutrição, violência doméstica, falta de saneamento básico nas periferias. A escola, sozinha, não consegue compensar a ausência de políticas públicas básicas, o que compromete o rendimento escolar.

•⁠  ⁠A “inclusão” de fachada: um fenómeno preocupante é a matrícula sem pertença real. O aluno está fisicamente na escola, mas é ignorado pedagogicamente, progredindo sem aprender. Isto não é inclusão; é negligência disfarçada.

•⁠  ⁠Preparação docente insuficiente: muitos professores angolanos não foram formados para lidar com a diversidade. A falta de formação continuada e específica em necessidades educativas especiais deixa os educadores sem ferramentas para gerir uma sala de aula heterogénea.

•⁠  ⁠Infra-estrutura precária e falta de água: como os números demonstram, a maioria das escolas não oferece as condições mais básicas de funcionamento. A acessibilidade não se resume a rampas — que já são escassas — mas inclui água potável, casas de banho dignas, materiais didáticos adaptados e tecnologias assistivas. Sem estes alicerces, qualquer discurso sobre inclusão é vazio.

•⁠ Implementação desigual das políticas: embora existam marcos normativos importantes sob influência de organizações multilaterais, os avanços registados na legislação reflectem-se pouco nos resultados esperados na prática quotidiana das escolas. O fosso entre o que está na lei e o que acontece nas salas de aula continua a ser uma ferramenta de tormento a angolana.

O papel do Estado e das instituições

Para que o papel da educação na inclusão social seja efectivo, é necessário um esforço concertado. A responsabilidade é partilhada entre o Estado, as famílias e as instituições de ensino.

Ao governo angolano cabe garantir o financiamento adequado da educação: salários dignos para professores, construção e reabilitação de escolas acessíveis, programas de assistência estudantil (transporte escolar, merenda, material didáctico). Sem investimento consistente, a equidade na educação permanece um discurso bonito, mas materialmente vazio.

As instituições de ensino têm o poder de moldar a cultura local. Uma gestão escolar democrática, que ouve pais, alunos e comunidade, tende a ser mais inclusiva. É necessário adaptar os projectos educativos à realidade de cada província e município, promovendo parcerias com centros de saúde, acção social e organizações da sociedade civil.

A formação continuada de professores deve ser prioridade absoluta. Como demonstram os estudos sobre a realidade angolana, a capacitação docente é garantia de melhoria do sistema educativo. Sem professores preparados, não há inclusão possível.

Conclusão: um caminho a percorrer

Ao longo desta reflexão, vimos que o papel da educação na inclusão social em Angola é fundamental para o desenvolvimento do país. A educação não é apenas uma etapa da vida: é o alicerce sobre o qual construímos a cidadania e a coesão nacional.

A inclusão educacional enfrenta barreiras complexas – desde a falta de recursos materiais e infra-estruturas básicas até preconceitos enraizados. Os números sobre a falta de água e saneamento nas escolas do Bié, Huambo, Namibe, Luanda, Cunene e Huíla são um alerta incontornável: não podemos falar de inclusão social enquanto milhares de crianças passarem os dias em escolas sem água potável, sem casas de banho e sem condições mínimas de higiene.

No entanto, os benefícios de superar estes desafios são imensuráveis. Uma escola que inclui é uma escola que ensina melhor a todos. Prepara o ser humano para a vida real, que é diversa, complexa e bela na sua pluralidade. Uma escola com água e saneamento dignos é uma escola que respeita os seus alunos e lhes devolve a dignidade que lhes é devida.

A transformação começa na mudança de mentalidade e na qualificação profissional. Cada director de escola, cada professor, cada funcionário que abraça a causa da inclusão torna-se um agente de mudança, capaz de reescrever o futuro dos seus alunos e, consequentemente, da sociedade angolana.

Construir uma Angola mais justa, onde ninguém seja deixado para trás, exige que a educação inclusiva deixe de ser vista como um “problema a gerir” e passe a ser assumida como princípio organizador de todo o sistema educativo. Exige, acima de tudo, que garantamos o básico: água, saneamento e dignidade em cada escola do país. O futuro de Angola depende disso.

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