
Se continuar a investir mais na estética do discurso do que na engenharia das soluções, corre o risco de perder credibilidade junto do seu próprio eleitorado. A política não é um desfile de oratória; é um exercício de responsabilidade histórica.
Há dias em que a política em Angola parece uma feira popular. Não dessas feiras onde se vende apenas mandioca e cacusso, mas um bazar sofisticado, onde cada banca expõe palavras polidas, frases inflamadas, promessas embaladas em papel brilhante. A multidão passa, observa, aplaude, partilha nas redes sociais. Mas quando chega a hora de levar algo para casa, uma solução, uma proposta concreta, um caminho claro, percebe que comprou apenas retórica.
Infelizmente, este é, em muitos momentos, o drama da oposição angolana.
Assisti um vídeo no Tik Tok, onde numa tarde quente em Luanda, num desses debates transmitidos em directo, vi jovens atentos, telemóveis em punho, olhos fixos nos oradores. Cada frase mais dura contra o governo do MPLA e seus dirigentes, era recebida com entusiasmo. Cada denúncia parecia um pequeno triunfo moral. Mas, terminado o discurso, pairava um silêncio subtil: “E depois?” — perguntava-se, mesmo que ninguém verbalizasse.
Não se trata de negar o papel histórico e necessário da oposição numa democracia. Aliás, sem oposição não há contraditório, e sem contraditório não há maturidade institucional. O problema começa quando a crítica deixa de ser instrumento de construção para se tornar espectáculo de indignação permanente.
A oposição angolana, com destaque para a UNITA, o “eterno maior partido da oposição angolana”, tem sabido mobilizar narrativas fortes, sobretudo no que toca à denúncia da corrupção, da desigualdade social e da concentração do poder. No entanto, entre a retórica e a proposta concreta há um abismo que precisa de ser urgentemente superado. Denunciar é essencial; propor é indispensável.
Depois das eleições de 2022, cujo resultado consolidou a vitória do MPLA sob liderança de João Manuel Gonçalves Lourenço, esperava-se uma oposição mais estruturada, com uma agenda alternativa clara, quadros técnicos visíveis e um programa económico detalhado. Em vez disso, muitas vezes o que se vê é a repetição de slogans e uma política de reacção, quase sempre dependente dos erros do adversário.
A dialéctica política não pode ser apenas denúncia; deve ser também elaboração. Angola carrega ainda cicatrizes profundas: desigualdades gritantes, desemprego juvenil alarmante, dependência excessiva do petróleo, fragilidades institucionais. Denunciar é legítimo. Questionar é saudável. Pressionar é necessário. Contudo, quando a denúncia se transforma em método exclusivo, a política perde densidade e ganha teatralidade. Ser contra o governo não basta; é preciso ser a favor de um modelo viável de governação. Caso contrário, corre-se o risco de transformar a política num concurso de indignações, onde vence quem grita mais alto, e não quem pensa mais fundo.
Há ainda um outro fenómeno preocupante: a personalização excessiva do debate. A crítica política torna-se, por vezes, quase moralista, centrada em figuras e não em sistemas. Isso fragiliza o discurso e empobrece a reflexão. A democracia não se consolida com ataques pessoais, mas com propostas estruturantes. Disto, tenho a prova com os “bifes” entre os meus amigos, o Leopoldo e o Edú Humanista (só me mato em gargalhada, pah) no grupo WhatsApp.
O “bazar da lindeza” manifesta-se precisamente aí: discursos bem construídos, moralmente elevados, carregados de apelos à justiça e à transparência, mas escassos em arquitetura económica detalhada, em planos de execução, em cronogramas realistas. Fala-se de mudança, mas raramente se explica como financiar essa mudança, como reformar estruturas, como negociar resistências internas e externas.
O mais paradoxal é que Angola tem uma juventude politicamente desperta, conectada ao mundo, informada e exigente. Essa juventude não se satisfaz com palavras bonitas; quer soluções para o desemprego, para a inflação, para a habitação, para a educação. Quer saber como se vai diversificar a economia para além do petróleo, como se vai fortalecer o Estado de Direito, como se vai garantir transparência real, e não apenas proclamada.
Se a oposição continuar a investir mais na estética do discurso do que na engenharia das soluções, corre o risco de perder credibilidade junto do seu próprio eleitorado. A política não é um desfile de oratória; é um exercício de responsabilidade histórica.
O “bazar da lindeza” pode encantar por um momento, mas não constrói nação. Angola precisa de uma oposição robusta, tecnicamente preparada, ideologicamente clara e estrategicamente disciplinada. Uma oposição que saiba que a crítica é um meio, não um fim. A dialéctica política, quando madura, eleva o País. Quando superficial, apenas o distrai.
E Angola já não pode viver de distrações.
Um bom funje com o feijão de óleo de palma num sábado de céu cinzento quão hoje, será o ideal, para um bom fim de semana.
Tenho dito.
*Menga-Ma-Kimfumu.










