O AMOR DAS TRÊS LARANJAS

AUTOR: JOAQUIM SEQUEIRA

Num recanto luminoso do laranjal, três laranjas pendiam nos seus ramos, cada uma com um brilho particular, cada uma com um jeito diferente de amar o seu lar.

A primeira laranja, a mais miúda e viva, era brincalhona. Saltitava com o vento, girava ao sol, espreitava os passarinhos e inventava travessuras para arrancar gargalhadas aos ramos vizinhos. Era uma verdadeira farrista: seduzia abelhas, borboletas e até pequenos insectos curiosos, convidando-os para dançar à sua volta. Sempre que uma flor caía, ela lamentava com dramatismo, como se tivesse perdido um amigo, e logo lhe ocorria uma nova brincadeira para animar o laranjal.

A segunda laranja era séria, mais madura no pensamento. Não se deixava levar por caprichos: falava de futuras plantações, imaginava novos ramos, desenhava no vento planos de fertilidade. Pensava que o laranjal devia crescer em harmonia, que cada árvore deveria dar frutos saudáveis, que as doçuras da laranja só teriam valor se viessem sustentadas por raízes fortes. Sempre que o vento soprava muito, ela segredava conselhos às outras frutas, lembrando-lhes da importância de manter o equilíbrio no galho.

A terceira laranja era inquieta, propensa ao conflito. Ela via problemas onde as outras viam calmaria: temia pragas, alertava para secas, imaginava tempestades que destruiriam toda a produção. Quando um ramo ficava mais carregado, ela gemia de preocupação; quando aparecia uma flor, ela alertava para o risco de apodrecimento. Às vezes, por desespero, tocava nas folhas vizinhas, assustava-as com rumores de ruína. A sua presença causava tensão no laranjal, porque ninguém sabia se os seus medos eram profecias ou exageros.

Ainda assim, todas amavam o laranjal, cada uma à sua maneira. A laranja brincalhona amava o laranjal porque era o seu palco de alegria: cada brisa, cada flor, cada insecto era um parceiro de dança. A laranja séria amava-o porque via nele futuro e propósito: cada ramo, cada muda, cada estação era uma promessa de abundância. E a terceira, apesar do seu coração aflito, amava porque se importava profundamente: os seus temores eram a expressão de um amor protector, de alguém que teme perder aquilo que mais estima.

Numa tarde dourada, quando o sol iluminava todas as folhas com um leve brilho alaranjado, as três conversaram. A brincalhona disse: “Sem risos, o laranjal fica triste.” A séria retorquiu: “Sem planos, não haverá mais frutos.” A terceira, com emoção, finalizou: “Sem cuidados, tudo pode ruir.” Então, juntas decidiram combinar os seus jeitos: a brincalhona faria o laranjal sorrir, a séria traçaria os planos e a preocupada lembraria a todas a fragilidade da vida.

E naquele instante, os seus brilhos misturaram-se como três cores de um mesmo pôr do sol. O laranjal, tocado por essa comunhão silenciosa, pareceu respirar mais fundo. Porque o amor das três laranjas, leve, firme, e vigilante, era a força que sustentava a vida ali. E enquanto elas balançavam nos ramos, o laranjal sabia: estava amado por inteiro; ninguém aguentaria quando o laranjal inteiro entoasse a mesma canção.

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