Sumbala Rei que é Nguvulu ionene vai nu, konfará os súbditos dessa Nação Wakungu, onde se “sonha mentirosamente com processos de democratização da sociedade”.
A União dos Escritores Angolanos recebeu na tarde de ontem quinta-feira (9) o escritor (membro) Jacques Arlindo dos Santos para a apresentação de duas das suas mais recentes obras: “Fabuloso Mundu Iêtu – Uma Estória de Bichos” e “Primos Como Irmãos – Vida e Morte a Sul do Rio Grande”.
A sessão reuniu inúmeros amantes da literatura nacional e particularmente leitores que acompanham faz tempo o escritor Jacques Arlindo dos Santos, mas também vozes da crítica, da escrita e da leitura. Alías, Jacques Arlindo dos Santos é não só um escritor resiliente, mas também o sobrevivente de uma geração que continua a ser referência obrigatória da literatura angolana desamarrada e descomplexada.
Ao escritor José Luís Mendonça e a jornalista Amélia Aguiar (que deu voz a também escritora Luzia Moniz por se encontrar distante) coube a condução e a apresentação das duas obras.
Eis a intervenção de Luzia Moniz (na voz de Amélia Aguiar):

Quando eu era criança, melhor, na minha kabunga da adolescência, aprendi com o Manuel Rui que os anandenge da minha geração e gerações subsequentes aprenderiam “coisas de sonho e de verdade”. “Como se ganha uma bandeira” e “o que custou a liberdade”. Tudo isso “à volta da fogueira”.
E o tempo passou e, tal como a Velha Xica do Waldemar Bastos, mais velha fiquei. Nesse tempo, aprendi com homens e mulheres da poesia da emancipação dos povos, como Mandela, Samora, Aoua Keita, Cabral e outras e outros, que liberdade rima com dignidade.
Na conjugação dessa rima, encontro deste lado do Mundo, no meu involuntário exílio, o Mwadyakimi. O Jacques Arlindo dos Santos, homem de pensamento livre que, perante a epidemia do contagioso vírus que em Angola mata o carácter e a integridade, se recusa a confinar os seus ideais.
E porque saí de África sem que o continente saísse de mim, com os Adyakimi da Diáspora, como o nosso Jacques, também aprendi a escutar, a beber da sabedoria deles em encontros e reencontros, em nome de ideais. Etu mu Diêtu!
Aí, fui percebendo que, dentro de poucos anos, os meninos, desta vez à volta de um computador, vão mambussar sobre a História da integridade e dos homens e mulheres íntegros de Angola.
Com um clique, esses meninos vão entrar no Museu da Integridade de Angola e encontrar nomes de mulheres e de homens inscritos numa lista dos que, na nossa bela Pátria, cada vez mais Mátria, fizeram da integridade o seu modus vivendi e operandi, resistindo a todo o tipo de intempéries e epidemias.
Nessa lista (short) estará o Mwadyakimi Jacques, ao lado de outros nomes, como o do pai da minha ManaKamba Milonga, meu Kamba Adriano Pereira dos Santos.
Em tudo o que escreve, fala e insiste, ao desistir do cansaço e do descanso, no seu inconformismo, o Mwadyami Jacquesfaz da pedagogia a sua arma e, com isso, persistentemente vai-nos alertando: Xê, enu, Njila ii Ka uabé kana. Fá-lo com virulência literária, porque a urgência de mudança de rumo assim o exige.
Por isso, no Fabuloso Mundu iêtu, o Mwadyakimi, com contundência, mas sem mal criadez, mais uma vez, nos diz, tipo está a perguntar: “vocês não estão a ver que o Rei vai nu?”
Sumbala Rei que é Nguvulu ionene vai nu, konfará os súbditos dessa Nação Wakungu, onde se “sonha mentirosamente com processos de democratização da sociedade”. Essa mesma contundência é usada em Primos-Como-Irmãos, crítica mordaz aos regimes colonial e pós-colonial que tamu com ele.
Nudez que se generalizou. E mais não digo. Oiçam o apresentador das obras, o José Luís Mendonça, ministro Contra Todas as Formas de Incultura e meu primo-como-irmão no combate pela liberdade, justiça social e dignidade.
Mwadyakimi, “perdoa só já” (como diria a outra) esta apropriação, porque Cabral nos ensinou que a luta pela liberdade e dignidade é também um acto de Cultura.
Oiçam com ouvidos, olhos e narinas bem abertos (sim, narinas abertas porque, dizia a dona Marcela Godinho, minha mãe, que as coisas belas do pensamento têm cheiro de Amor, de Paz e de Mar) e, acrescento eu, de liberdade e de dignidade.
Comprem, leiam e partilhem o pensamento do nosso Jacques. Porque se, naquele tempo, a Velha Xica dizia “Xê menino, não fala política”, hoje, o nosso Mwadyakimi diz alto e em bom som: “Xê menino, fala, protesta, faz e grita política!”
Ni Ukamba, ni Henda, tamujuntu!












