MINHA LUA(NDA), 450 ANOS DEPOIS …

RECADOS DA CESALTINA ABREU(12)

Frequentemente descrita como “aberrante”, a desigualdade resulta de falhas nas políticas do Governo que não conseguem colmatar as assimetrias sociais, resultando numa sobrevivência baseada na solidariedade familiar e informal.

Luanda celebra este domingo 450 anos sob queixas de fome, de desemprego e críticas pela falta de saneamento e de infraestruturas e de serviços públicos básicos – da educação à saúde, acesso à água potável e à electricidade, passando pela habitação, transportes, espaços públicos, entre os mais urgentes -, para além da continuada ausência de qualquer tipo de diálogo entre os poderes instituídos e os cidadãos.

No ano passado, a minha mensagem à minha Cidade e aos Kalús, nascidos ou adaptados por esta Mãezona que a todos acolhe, por ocasião desta data, terminava assim: “Vamos juntos organizar uma campanha para que, em 2026, o Dia da Cidade seja Feriado Municipal? Juntos, Podemos!”.

Eu reconheço não ter feito nada, para além dessa vontade expressa, no sentido de materializar a minha intenção. Também não tive qualquer incentivo por parte daqueles com quem, então, partilhei a mensagem.

Mas bem, um ano passou… e o que dizer de Luanda, hoje?

Estas são algumas das consequências da má gestão da cidade – no quadro mais amplo da má gestão do país, dolorosamente demonstrados pela deterioração de todos os indicadores sociais nos últimos 8 anos -, acentuadas pela enorme concentração de população, com estimativas recentes do Censo 2024, apontando para mais de 10 milhões de habitantes na área metropolitana. Em consequência, a ‘fotografia’ actual de Luanda, em «preto e branco» devido aos gritantes contrastes, são:

•⁠  ⁠Uma urbanização caracterizada por um crescimento rápido e desordenado, resultando em profunda desigualdade socioespacial;

• Alta inflação e dependência do sector petrolífero, gerando instabilidade social, como evidenciada pelos protestos recentes devido ao aumento dos combustíveis;

• Pobreza multidimensional, incluindo aspectos não quantificáveis – inquéritos de 2024 indicam que a maioria da população de Luanda é pobre (30% extrema, 31% moderada, mais 30% devem estar em situação de pobreza ‘fraca’, o que perfaz 91%, significando que menos de 10% dos habitantes da cidade estarão fora desta condição de ‘algum nível de pobreza’ (entre outras fontes, World Poverty Clock);

•⁠ Concentrando cerca de 1/3 da população, Luanda reflecte de maneira ostensiva o aumento de 82% da Fome em Angola, entre 2017 e 2025, segundo dados internacionais (IGF, Índice Global da Fome) e confirmado pela simples observação directa de quem ‘não se nega a ver ’;

• Desigualdade social gritante e crescente gerando um contraste extremo entre áreas de riqueza (condomínios fechados) e um vasto “oceano de pobreza” urbana, onde grande parte da população carece do mais básico para viver. Frequentemente descrita como “aberrante”, esta desigualdade resulta de falhas nas políticas do Governo que não conseguem colmatar as assimetrias sociais, resultando numa sobrevivência baseada na solidariedade familiar e informal.  Entre outros efeitos, esta situação impede que os poucos privilegiados e a esmagadora maioria dos carenciados se entendam como parte de uma mesma sociedade

Algumas publicações de instituições do Governo dão conta ‘das festas da cidade’… com gala e circunstância! Programas de rádio juntam ‘especialistas’ de várias áreas, mas nenhum das sociais e humanidades, nenhuma voz dos cidadãos kalús, menos ainda das mulheres que, na zunga, atravessam esta cidade todos os dias em busca da sobrevivência das suas famílias. Onde estão os Kalús nessas actividades?

Enquanto escrevo esta mensagem sobre o aniversário da minha cidade, escuto os fortes ruídos dos fogos de artifício… uma boa ilustração dos simulacros com que procuram entreter-nos. 

Jikulumessu (abre o olho, no sentido literal/presta atenção, no sentido figurado) kalús, jikulumessu angolanos!

Kandando daqui!

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