MIGRANTE E EXPATRIADO

POR JOAQUIM SEQUEIRA

A diferença entre “expatriado” (ou “expat”) e “migrante” é complexa e envolve nuances sociais, económicas e, muitas vezes, preconceitos.

Em termos legais, ambos são imigrantes (estrangeiros residindo num país). Entretanto, o uso comum dos termos carrega conotações muito diferentes.

Comecemos pelo expatriado

  • Conotação: o termo é frequentemente usado de forma positiva ou neutra.
  • Percepção: o que seria normal, seria tratar-se de um profissional qualificado que se muda temporariamente para outro país por uma oportunidade específica, geralmente para trabalhar.
  • Contexto: associa-se a um pacote de alocação corporativa, a um status socioeconómico mais alto, e a ideia de que a estadia é limitada ao contrato de trabalho, mas muitas vezes não corresponde a esta realidade.
  • Integração: por vezes mantém fortes laços culturais e financeiros com o país de origem (ex: enviando dinheiro para investir, e muitas vezes para sustentar a família), e pode viver numa “bolha” social com outros, também denominados expatriados.

Considerando exemplos práticos: um engenheiro brasileiro transferido ou contratado por uma multinacional para trabalhar na Alemanha por 3 anos, com passagem de volta paga pela empresa, mas também um pedreiro português deslocado para Angola para trabalhar na construção civil.

Comparando com migrante

  • Conotação: o termo é amplo e, infelizmente, muitas vezes carregado de estereótipos negativos, especialmente no debate político.
  • Perfil: abrange uma maior gama de pessoas, incluindo trabalhadores qualificados e não qualificados, refugiados e pessoas em busca de uma vida melhor.
  • Motivação: procura de melhores condições de vida, trabalho, segurança ou reunificação familiar; a mudança é geralmente vista como permanente ou de longo prazo.
  • Integração: normalmente procura integrar-se na sociedade do país de destino, aprender a língua local e estabelecer raízes.

Exemplo prático: um brasileiro que se muda para Portugal por conta própria à procura de emprego e de estabelecer residência permanente, ou uma família síria a fugir da guerra.

O cerne da questão: uma distinção problemática

Sociólogos e outros especialistas em migração criticam essa distinção, argumentando que ela é mais social e racial do que factual. Quais os motivos indicados?

  1. Privilégio e nacionalidade: um profissional branco do Reino Unido com educação e formação técnica adequada que vai morar em Espanha é chamado de “expatriado”. Um profissional igualmente qualificado das Filipinas ou do Senegal que se muda para o mesmo local é frequentemente chamado “imigrante”. A nacionalidade e a cor da pele influenciam o rótulo.
  2. Direcção do fluxo: o termo “expatriado” é frequentemente aplicado a pessoas que se mudam de países considerados ricos para países mais pobres. Um norte-americano que vai morar na Tailândia é um “expat”, mas um tailandês que vai morar nos EUA é um “imigrante”.
  3. Temporalidade vs. permanência: muitos “expats” acabam por ficar no país de destino por décadas, e muitos “imigrantes” podem retornar ao seu país de origem após alguns anos. A linha é fluida.

Podemos, como exemplo, indicar a deslocação de força de trabalho portuguesa, normalmente não qualificada, para França, Luxemburgo, Bélgica, etc., durante o Estado Novo. Estes foram sempre considerados “imigrantes”, chegando a ocorrer situações em que os franceses se referiam aos portugueses como “os pretos dos outros brancos”.

Um resumo comparativo

Podemos rematar que, embora haja diferenças no contexto típico de cada termo (um ligado a transferências corporativas, outro mais amplo), a distinção popular está profundamente ligada a hierarquias globais, preconceitos e percepções de classe e raça. Por isso, é importante usar os termos com consciência dessas nuances. No fundo, ambos são pessoas que cruzam fronteiras à procura de novas oportunidades.

A razão pela qual esta diferença de terminologia persiste não é acidental, mas sim um reflexo de hierarquias históricas, poder económico e racialização, mesmo não havendo diferenciação de classe social. O ponto central mais crítico e politizado desta distinção é o tratamento com origem no Ocidente.

Assim sendo, listam-se as razões principais:

1. Herança colonial e mentalidade de “missão civilizadora”

O termo “expatriado” carrega um eco do colonialismo. No século XIX, os europeus iam para as colónias no “Sul Global” como administradores, engenheiros ou missionários. Eles não eram vistos como “imigrantes” (alguém que se integra num lugar novo, com cruzamento de fronteiras), mas como representantes temporários de uma civilização superior, numa “missão” de trabalho ou desenvolvimento. O termo “expatriado” mantém essa conotação de ser um estrangeiro de elite, distinto da população local. O ocidental no Sul Global, portanto, vê-se nessa linhagem: um visitante temporário de status elevado. Os cidadãos do Norte global, mesmo os sem qualificação profissional, quando passam o Equador, denominam-se “engenheiros”, “arquitectos”, etc…

2. Pressuposto de temporalidade e superioridade

A auto-denominação “expatriado” pressupõe que a estadia é temporária e voluntária. A ideia subjacente é: “Estou aqui por um projecto ou contrato, mas a minha vida, a minha carreira e o meu ‘lar real’ estão no Ocidente.” Este é um privilégio que muitas pessoas do Sul Global que se expatriam não têm ou não lhes é consentida a hipótese dessa condição. Elas são frequentemente percebidas como tendo ido para ficar, escapando de condições nefastas, o que as coloca imediatamente na categoria de “imigrantes”: um termo que, no discurso público ocidental, está muitas vezes associado a carga permanente e competição por recursos. Vejam o que afirma qualquer energúmeno desventurado.

3. Poder económico e racial

Quem é “expatriado”? Geralmente uma pessoa branca, de um país rico (ou assim considerado), com um contrato de trabalho vantajoso, pagando alugueres elevados e vivendo em bairros privilegiados de Nairobi, Bangkok, São Paulo ou Luanda. A sua mobilidade é vista como lateral ou descendente em termos de prestígio, mas nunca como uma “fuga”. É uma aventura profissional.

Quem é “imigrante”? Geralmente uma pessoa não-branca, de um país mais pobre, cuja mobilidade é vista como ascendente em busca de sobrevivência ou melhoria. Mesmo que seja um profissional altamente qualificado (um médico senegalês em França, um engenheiro brasileiro ou uma gestora de negócios portuguesa nos EUA), ele carrega o rótulo de “imigrante” porque é percebido como proveniente de um lugar de carência, à procura das benesses do Ocidente.

4. A narrativa do “fluxo”

A linguagem reflecte uma visão do mundo centrada no Ocidente.

O ocidental a ir para o Sul: é uma delegação, uma experiência. Ele “expatriou-se”.

A pessoa do Sul a ir para o Ocidente: é um fluxo, uma invasão (no discurso xenófobo), uma mudança permanente. Ele “imigrou”.

O termo “expatriado” quase nunca é usado para descrever um ganês a trabalhar na Nigéria ou um boliviano no Chile. Ele é reservado, quase que exclusivamente, para o movimento do núcleo rico (principalmente branco) para a periferia.

5. A excepção que prova a regra: o turista e o nómada digital

Mesmo um ocidental que vai morar no Sul Global sem um contrato corporativo formal (como um nómada digital ou um aposentado) dificilmente será chamado de “imigrante”. Ele será um “expatriado”, “residente estrangeiro” ou “nómada digital”. Isto porque ele detém o capital financeiro e o passaporte poderoso que lhe conferem o privilégio de escolher o seu destino sem a pressão da necessidade, mantendo assim a aura de temporalidade e opção de estilo de vida.

Uma distinção baseada no poder

Para terminar, podemos dizer que a diferença entre chamar a si mesmo de “expatriado” e chamar ao outro “imigrante” é, portanto, uma diferença de poder, raça e classe. É uma forma de:

  • Manutenção do status: o “expatriado” coloca-se fora da categoria “comum” de imigrante.
  • Negação de integração: sinaliza que ele não pretende tornar-se “um deles” (os locais).
  • Reforço de hierarquias globais: perpectua a ideia de que alguns movimentos são de “experts” ou “visitantes”, enquanto outros são de “população em movimento”.

É por isso que muitos académicos e activistas vêem o uso comum do termo “expatriado” como problemático e anacrónico, pois reforça divisões que têm pouco a ver com a realidade jurídica da migração e muito a ver com preconceito e privilégio estrutural. No fim, todo o expatriado é, por definição legal, um imigrante. A escolha de uma palavra sobre a outra é um acto político e social.

Referencias bibliográficas

A lista de obras apresentada não é exaustiva, mas serve para aprofundar a crítica sociológica, histórica e política sobre as distinções entre “expatriado” e “imigrante”, com foco nas hierarquias raciais e geopolíticas.

  1. Castles, Stephen e Miller, Mark J.; Fechando a Porta: A Migração Internacional na Era do Capitalismo Global; 1993 (1ª ed.).
  2. Sassen, Saskia; A Metáfora do “Sistema-Mundo”: Uma Dimensão Crítica na Análise da Migração Internacional.
  3. Lundström, Catrin; Branquitude e Cidadania Global: A Construção Social do “Expat”; 2014.
  4. Kunz, Sarah; “Expatriate is not a migrant… or is it?” (“Expatriado não é um migrante… ou é?”); Journal of Comparative Research in Anthropology and Sociology; 2020.
  5. Said, Edward W.; O Olhar Colonial e a Hierarquia das Mobilidades; 1978
  6. Shachar, Ayelet; O Privilégio do Passaporte: Cidadania como Herança de Classe Global; Foreign Policy; 2009.
  7. Mobilities, Journal of Ethnic and Migration Studies; A Ascensão do “Nomadismo Digital” e a Reinvenção do Expat; 2017.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

PROCURAR