
O que está em jogo é a banalização do horror. É a ideia, perigosamente difundida nos meios militar e mediático, de que há civis cujo sofrimento é aceitável porque serve um “bem maior” geopolítico. A Cruz Vermelha existe precisamente para combater essa ideia.
Nos últimos dias, a escalada do conflito entre os EUA/Israel e o Irão ganhou novo contorno com a revelação de que os EUA teriam apontado “a mira a alvos civis” em território iraniano. Perante este facto, o tenente-general Marco Serronha, comentador militar da CNN Portugal e, note-se, vice-presidente da Cruz Vermelha Portuguesa com tutela sobre a área da Emergência, não hesitou: tais ataques, afirmou, “são positivos para os EUA porque mostram que o regime não consegue defender os seus cidadãos”.
É legítimo que um especialista em assuntos militares faça uma análise estratégica. O que não é legítimo — e muito menos admissível vindo de um dirigente humanitário — é qualificar como “positivos” ataques deliberados a civis. Porque, ao contrário do que a declaração deixa subentender, matar ou ferir pessoas que não participam nas hostilidades não é um mero expediente táctico: é, pura e simplesmente, um crime de guerra.
Comecemos pelo óbvio. O Direito Internacional Humanitário, nas Convenções de Genebra e nos seus Protocolos Adicionais, é claro: é proibido dirigir ataques contra civis ou contra bens de carácter civil. Esta proibição é absoluta, não comporta excepções baseadas na utilidade política ou psicológica do acto. Ao afirmar que atingir civis é “positivo”porque demonstra fragilidade do regime iraniano, o tenente-general está, conscientemente ou não, a instrumentalizar o sofrimento humano como arma de propaganda. Está a normalizar o que o direito e a ética humanitária condenam há mais de setenta anos.
Ora, a Cruz Vermelha não é um clube de estratégia geopolítica. É o guardião maior, no plano simbólico e prático, dos princípios da humanidade, imparcialidade, neutralidade e independência. O seu mandato é proteger a vida e a dignidade das vítimas de conflitos — de todos os lados, sem distinção. Um vice-presidente que avalia como “positivo” o ataque a civis iranianos rompe com este mandato de forma violenta. Está a tomar partido. Está, ainda que involuntariamente, a emprestar o prestígio da Cruz Vermelha a uma lógica belicista que vê nos corpos de inocentes meros indicadores de fragilidade alheia.
Poderão dizer: “mas ele falava como comentador militar, não como dirigente da Cruz Vermelha”. A objecção não colhe. Quando se ocupa um cargo público com a visibilidade e a responsabilidade do de vice-presidente de uma organização humanitária, não há “chapéus” que se possam trocar à vontade. As palavras pesam. E pesam duplamente quando proferidas num órgão de comunicação social de alcance internacional, sem qualquer ressalva ética, sem um “mas isto viola o Direito Internacional Humanitário”, sem um “embora a Cruz Vermelha condene inequivocamente qualquer ataque a civis”. Nada disso houve. Apenas a análise crua, despida de qualquer consideração humanitária, do “positivo”que é mostrar que um regime é incapaz de proteger os seus.
O que está em jogo aqui não é se o regime iraniano é ou não democrático, aos olhos da democracia ocidental, se os EUA têm ou não razão no conflito. O que está em jogo é a banalização do horror. É a ideia, perigosamente difundida nos meios militar e mediático, de que há civis cujo sofrimento é aceitável porque serve um “bem maior” geopolítico. A Cruz Vermelha existe precisamente para combater essa ideia. Por isso, é insustentável que um dos seus mais altos dirigentes em Portugal a promova.
A menos que a instituição se demarque publicamente destas declarações — o que, até ao momento, não aconteceu —, o silêncio será interpretado como concordância. E aí, a Cruz Vermelha Portuguesa terá um problema grave de credibilidade. Porque não se pode, por um lado, exigir respeito pelo Direito Humanitário e, por outro, achar “positivo” quando ele é violado, desde que seja pelo lado certo da narrativa.
Os civis iranianos, tal como os civis israelitas, ucranianos, palestinianos, russos, libaneses, iraquianos, congoleses, sudaneses ou portugueses, não são peças de xadrez num tabuleiro estratégico. São pessoas. E nenhuma análise militar, por mais arguta que seja, pode considerar de “positivo” o acto de as bombardear.
Se o tenente-general Marco Serronha quer continuar a comentar conflitos como analista militar, que o faça. Mas que o faça sem esquecer o emblema que carrega. E que a Cruz Vermelha Portuguesa lembre aos seus dirigentes que, antes de estrategas, são guardiões da humanidade. Mesmo quando isso é incómodo. Mesmo quando o “inimigo” é o Irão.











