INDEPENDÊNCIA. NOITE DE 10 DE NOVEMBRO DE 1975

Angola, uma adulta com 48 anos, escuta os seus filhos questionarem o próprio valor da Dipanda, porque as promessas da luta contra o colonialismo e pela libertação não se concretizaram, na perspectiva da criação de uma sociedade inclusiva, justa, livre e solidária, promovendo a cidadania, o bem-estar e o progresso social numa base universal.

CESALTINA ABREU

Há 48 anos, estive no Largo 1o de Maio para participar na proclamação da independência de Angola.

Tenho bem presente os muitos e intensos sentimentos que nem conseguiria descrever por palavras. Um misto de alegria pelo que, finalmente, iria acontecer em algumas horas, e de apreensão por eventuais desmandos oportunistas que pudessem ocorrer e que dessem espaço a violências de vária ordem. Bem no fundo, a tristeza de continuar sem notícias sobre o meu irmão, o João Paulo, “largado” à sua sorte como muitos outros jovens, pelos “valorosos comandantes” do CIR Kwenha no Huambo. A apreensão, ainda, pelos efeitos dessa ausência completa de notícias, de informações, essa falta de cuidado em responsabilizar-se por seres humanos que, independente da idade, haviam tido a coragem de aderir à luta armada para assim contribuir para o alcance do sonho maior dos angolanos de então, a independência. Nesses meses – de finais de Agosto até Novembro – nenhuma informação se conseguiu obter sobre o que teria acontecido. Obviamente que a resposta “estamos em guerra e não temos condições de obter essas informações” era considerada “aceitável” dadas as circunstâncias. Volvidos 48 anos, e olhando em redor, procurando estudar o nosso contexto a partir da centralidade da sua maiorriqueza “as pessoas”, “os angolanos/as”, compreendo que afinal, aquele descaso é estrutural na força política que dirige este país desde então. É só olhar!

Também havia apreensão relativamente ao que estaria acontecendo, naquele momento histórico, em outras partes do país. E o discurso de proclamação, mais uma vez, traçava uma tendência que até hoje se mantém: Nós, e os outros. Nós, os que temos o poder, e os nossos “pares” e todos os outros que a esse(s) poder(es) devem submeter-se. Apesar da alegria do momento, a incerteza sobre as escolhas plasmadas nos discursos, no Hino e nas coberturas jornalísticas. E a discrepância, gritante e descarada, entre o que se diz e o que se faz!

Com consciência de combates duramente travados nas proximidades de Luanda, e apesar das apreensões, temores e medos, e das tristezas e sentimentos de dor e de perda, devidos à situação de guerra, de divisão e de incerteza relativamente ao futuro, eu queria muito acreditar que estávamos realmente no limiar de uma nova etapa, que marcaria

positivamente todos os angolanos, independente da sua condição social, da cor da pele, da crença religiosa e das preferências políticas e desportivas. Apesar de tudo, e de todos os cépticos com que então me cruzei, eu nunca imaginaria que a Angola com todo o potencial que lhe conheço – com destaque para a sua maior riqueza, a diversidade social e cultural da sua população –, a um passo de se tornar mais um país independente na arena internacional, iria estar, 48 anos depois, tão profundamente descaracterizada, pautando-se pela negativa, em todos os domínios da vida política, social, económica e cultural, nacional e internacionalmente.

Angola, uma adulta com 48 anos, escuta os seus filhos questionarem o próprio valor da Dipanda, porque as promessas da luta contra o colonialismo e pela libertação não se concretizaram, na perspectiva da criação de uma sociedade inclusiva, justa, livre e solidária, promovendo a cidadania, o bem-estar e o progresso social numa base universal.

Algo deu muito errado e nós, Todos, temos de reflectir sobre a razão desse falhanço estrondoso. Com honestidade e coragem temos de ser capazes de aprender com tudo o que aconteceu desde a noite de 10 de Novembro de 1975 – e o seu passivo, obviamente -, e (re)começar!

(Continua, afinal deveria ter sido assim 48 anos atrás).

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

PROCURAR