
Aconteceu hoje, a partir do Porto do Lobito, o embarque de mais de dez toneladas de abacate Hass rumo aos Países Baixos, acto que inaugura, com pompa e circunstância, a era da Certificação Fitossanitária Digital em Angola. A operação, abençoada pelas etiquetas internacionais GLOBALG.A.P. e GRASP, foi recebida como um verdadeiro baptismo de modernidade agrícola quase como se, de súbito, tivéssemos descoberto que o campo afinal existe e dá frutos.
Dizem que o embarque dos abacates foi bafejado pelos ventos diplomáticos da cimeira UA–UE. É possível. Seja como for, o episódio já é celebrado como marco histórico para o Huambo e mais uma medalha pregada no paletó do Corredor do Lobito, que, entretanto ainda espera ver passar, com regularidade, mercadorias que não sejam somente promessas.
A narrativa começa com a entrada em cena da Embaixada do Reino dos Países Baixos, em parceria com a Agência Reguladora de Certificação de Cargas e Logística de Angola (ALCCLA). Juntas, lançaram, em 27 de Novembro último, o primeiro Cluster Nacional do Abacate na província do Huambo, feito que bem merece registo, pois jamais um humilde abacate das terras dos reis notáveis, Wambu Kalunga, Ekuikui V, Ekuikui VI e Katyavala Bwila conhecera tão elevada diplomacia.
A ARCCLA, apresentou-se ladeado pelos representantes das três fazendas âncoras MMM, Mungo e EDM que assumiram o comando da empreitada. Para tal, o Reino dos Países Baixos desembolsou 1,1 milhão de euros, dotando o trio de capacidade técnica, financeira e operacional para transformar o abacate angolano num novo passaporte verde, rumo ao mercado europeu. Foi tudo impecável, produzir, exportar e ainda integrar pequenos produtores na cadeia de valor. Uma sinfonia exemplar desde que os instrumentos toquem.
Contudo, os conhecedores da lavoura em Angola lembram que a agricultura só floresce onde há seriedade, e o campo nacional, esse pobre paciente esquecido, continua internado na eterna enfermaria dos oportunistas. Governantes que se fazem fazendeiros, fazendeiros que se fazem senhores feudais, e produtores genuínos que, querendo trabalhar, não encontram terra onde fincar a enxada. Eis a ironia, um país que já foi auto-suficiente, que já exportou com altivez, vive hoje mergulhado em indicadores que fariam corar qualquer nação com memória.
Enquanto isso, sobre os campos sopraram ventos de miséria. A juventude, encantada pelo consumismo instantâneo, foge do campo para sonhar nas cidades onde muitas vezes acorda em labirintos de marginalidade, pequenos e grandes delitos ou ilusões quebradas. As jovens, por sua vez, empurradas pela falta de oportunidades, trilham caminhos igualmente sombrios. Tudo isto enquanto hectares de terra fértil repousam, silenciosos, à espera de um país disposto a trabalhar.
Urge, pois, um compromisso sério, fortalecer a agricultura familiar, apoiar os produtores, assegurar insumos e assistência técnica, criar condições para a terra produzir e para que o produtor viva com dignidade. O país possui potencial agronómico raro, terras generosas e um clima que faria inveja a muitas nações.
O embarque do primeiro contentor de dez toneladas de fruta e muita esperança, foi celebrado com festa. E com razão, a agricultura é muito mais do que uma actividade produtiva. É sustento, cultura, identidade e futuro.
A partir deste gesto simples, poderiam sair milhares de contentores carregados de frutas, café, milho e tantas outras riquezas, transformando o Porto do Lobito numa verdadeira paragem obrigatória para o mundo que compra.
Oxalá este abacate não seja somente mais uma fruta a viajar sem que o país colha a árvore.











