BRINCAR DE PAÍS

JOSÉ LUÍS MENDONÇA

Alguém anda a brincar de país com o nome de Angola.

Alguém que desconhece a História de Angola, que nunca estudou a fundo a História Geral de África, não sabe o que é o colonialismo, da Conferência de Berlim nem sequer leu um décimo e nunca se preocupou em saber quais foram os reinos, nações e povos dos nossos antepassados.

Esse alguém não sai da teoria da conspiração perpétua, que já vem desde Julho de 64 DC, quando o imperador romano Nero teve uma visão antecipada das impressões digitais no incêndio de Roma. Recorde-se que, nos seus primeiros anos de governo, Nero foi um exemplo de respeito pelas tradições políticas romanas. Mais tarde, decidiu ser um déspota. O incêndio que destruiu grande parte da cidade veio-lhe mesmo a calhar. Nero acusou os cristãos como ateadores do incêndio. 

Esse alguém não sai da teoria da conspiração perpétua, revisitada em 27 de Fevereiro de 1933, quando o Reichstag (parlamento alemão) pegou fogo e Hitler, chanceler do Reich, se serviu das chamas para consolidar o seu poder.

Ao ver o Reichstag em chamas, Hitler vociferou: “Agora não há mais piedade. Quem se colocar no nosso caminho, será eliminado”. De seguida, em 28 de Fevereiro de 1933, saía o Decreto do Presidente do Reich para a protecção do povo e do Estado, que eliminava a liberdade de expressão, de opinião, de reunião e de imprensa. Assim acabava o sonho da democracia na República de Weimar e se abria o caminho para a ditadura nazista.

Por causa do desconhecimento da História Mundial, Angola não é o país do menino albino de pé na curva da Via Expressa, com um cartaz de papelão: “FAMILHA BOA, AJUDAMI PRO FAVOR”.

Angola não é o país da mãe que dorme numa rua do Talatona, com seus três filhinhos menores.

Angola não é o país de milhões de crianças que vão à escola e não aprendem a ler nem a escrever. Se forem à universidade pública, constatarão que 80% dos estudantes desconhecem os reais contornos do cursivo da letra jota.

Angola não é o país das mães que vão parir no Hospital Geral de Luanda onde não há água. 

Angola não é o país do kupapata que trabalha na via, diariamente assediado pelo polícia motorizado, enquanto o crime passa ao lado noutra motorizada ou num táxi.

Angola não é o país das raparigas que desaparecem todos os meses na cidade de Luanda, enquanto o SIC anda à procura de gambuzinos com aspecto de explosivos.

Angola não é o país da menina noctívaga de mini-saia, na Avenida do Patriota, a chamar clientes de sexo.

Angola não é o país dos que vieram do outro lado da guerra em 2002, e pensaram que iriam viver os benefícios da paz política.

Este é o país dos governadores do asfalto, que desconhecem a vida nos bairros periféricos, porque nunca lá vão ver que não há caminhos lisos para circular, não há locais de entretenimento e de lazer para as crianças, não há bibliotecas, não há postos médicos de proximidade.

Este é o país dos que viajam com dinheiro do Estado, para desencravar uma unha em Espanha ou fazer check-up.

Este é o país dos que formatam projectos regulares de perseguição contra os revus e contra os intelectuais proletários.

Este é o país dos que acolhem em casa o estrangeiro, mas não conseguem pronunciar o nome nem abraçar o angolano que tem outro ideal político-económico e cultural para o desenvolvimento sustentável de Angola, mesmo 23 anos depois da pomba branca levantar voo no Lwena.

Este é o país de alguém que anda a brincar de país.

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