ANGOLA. A CELA QUE NÃO GANHA PRO LIVRO

SAMPAIO JÚNIOR

A obra Le journal d’un prisonnier, atribuída a Nicolas Sarkozy, inscreve-se no campo híbrido entre o testemunho autobiográfico, o memorial político e o ensaio de autojustificação. Condenado em primeira instância pelo Tribunal Correcional de Paris a cinco anos de pena privativa de liberdade e a uma multa de cem mil euros, por factos relacionados com a alegada solicitação de financiamento ilícito ao regime líbio de Moammar Khadafi, no contexto da campanha presidencial de 2007, o antigo Chefe de Estado francês foi detido em 21 de Outubro e, posteriormente, libertado, em 10 de Novembro, pelo Tribunal de Recurso, ficando sujeito a controlo judicial.

Durante vinte dias de reclusão, o autor constrói uma narrativa centrada na experiência do confinamento, descrevendo de forma sistemática as condições materiais da cela, a limitação de objectos pessoais, a supressão de estímulos externos e a monotonia estrutural do quotidiano prisional. As observações sobre o silêncio, os ruídos súbitos e a suspensão do tempo funcionam não apenas como registo sensorial, mas como instrumento de construção simbólica de um estado de privação e isolamento.

A rotina relatada leitura, escrita, deslocações circulares no espaço exíguo da cela evidencia a dependência absoluta do indivíduo face ao sistema carcerário, particularmente no que respeita à gestão do tempo, acesso à alimentação e comunicação com o exterior. O próprio processo de escrita do diário, manuscrito com meios rudimentares e posteriormente transcrito por intermédio de advogados, reforça a ideia de mediação permanente entre o indivíduo enclausurado e o espaço público.

A referência recorrente à obra O Conde de Monte Cristo introduz uma camada intertextual que associa a narrativa pessoal à figura clássica do injustiçado, que busca reabilitação moral. Esta escolha literária não é neutra: constitui uma estratégia discursiva orientada para a inscrição da própria experiência numa tradição simbólica de perseguição e resistência.

Do ponto de vista psicológico, o texto explora temas como envelhecimento, percurso político, responsabilidade individual e exercício do poder. Embora admita erros de natureza genérica, o autor rejeita de forma categórica a imputação de culpa criminal, insistindo numa leitura alternativa dos factos, centrada na ideia de perseguição judicial e de instrumentalização política da justiça.

Paralelamente, o diário assume características de manifesto. O autor desenvolve uma crítica explícita ao sistema prisional, apontando problemas estruturais como a superlotação, a precariedade das condições materiais, a escassez de actividades de reintegração e a desigualdade de tratamento entre detidos. A privação de humanidade surge como eixo central da análise, ainda que a credibilidade desta crítica seja tensionada pelo carácter tardio e circunstancial da sua formulação.

No plano político-institucional, a obra propõe uma leitura crítica do funcionamento da democracia francesa, do papel das elites e da relação entre o poder judicial e o poder político. O autor posiciona-se como defensor de uma França que considera traída pelos seus próprios mecanismos institucionais, reforçando uma narrativa de resistência e de legitimação pessoal.

A recepção da obra revela uma polarização previsível, sectores próximos do autor interpretam o diário como uma denúncia legítima e um contributo relevante para o debate público, enquanto sectores críticos o classificam como exercício de autopromoção e vitimização, sublinhando a brevidade da experiência prisional em contraste com a realidade de milhares de reclusos.

O gesto de transformar vinte dias de reclusão em obra publicada possui um valor simbólico claro: fixar um registo histórico, influenciar a opinião pública e tentar reabilitar uma imagem política fragilizada.

Prolongamento comparativo: o silêncio carcerário no contexto angolano

No contexto angolano, a experiência prisional de antigos titulares de cargos públicos, nomeadamente ex-ministros, antigos governantes provinciais e outras figuras ligadas ao aparelho de Estado, raramente foi objecto de registo público sistematizado. Em Angola, antigos ministros, generais, filhos do poder, exemplos de Augusto Tomás, Zenu dos Santos, Kiteculo, Fernando Garcia Miala, e tantos outros passaram pelas grades, mas não nos deram diários, não nos deram páginas, não nos deram alma. Não escreveram sobre o frio das celas, o cheiro das paredes, o som metálico da humilhação. Não nos falaram da justiça, nem da ausência dela. Guardaram o silêncio como se o silêncio fosse ainda um cargo de Estado.

De igual modo, activistas e defensores de direitos cívicos detidos em diferentes momentos não dispuseram de plataformas editoriais que lhes permitissem transformar a experiência do cárcere em instrumento de reflexão pública. Excepções pontuais, como intervenções do jornalista Carlos Alberto através das redes sociais, revelam condições precárias e traços preocupantes do sistema penitenciário, mas não se consolidaram ainda em obras estruturadas de natureza analítica.

A inexistência deste tipo de narrativa no espaço público angolano constitui, por si só, um elemento relevante para a análise da qualidade do debate democrático, da transparência institucional e da cultura de responsabilização das elites. A ausência de memória escrita sobre o cárcere impede a construção de um corpus crítico capaz de contribuir para a reforma das instituições e para a prevenção de práticas ilícitas no exercício do poder público.

Neste sentido, se existissem diários desses homens e dessas mulheres, talvez se pudesse anatomizar a nossa democracia, radiografar a nossa justiça, desmascarar as nossas elites. Talvez servisse de aviso aos que ainda confundem o Estado com herança pessoal, e o erário com carteira de bolso.

Mas nada foi escrito.

E talvez esse silêncio seja a mais dura das condenações.

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