EDIÇÃO PÓS-COLONIAL COM ORÇAMENTO APERTADO
ALBÉRICO LUPITO
1. O fruto da escola que não houve
Num país onde a educação é um bem de luxo e o investimento ronca mais baixo que a soneca do guarda-noturno, pululam estes “doutores do faz-de-conta”. Não aprenderam a somar, mas são peritos em subtrair: subtrair a verdade, a honra e o troco do pão. São a prova viva que a “ignorância é uma bênção”… para eles, que assim enganam os que sabem menos. De subtracção, claro.
2. O herói da traição (em três actos)
– Acto colonial: apanhados pelas autoridades, cantam que nem canários em greve de fome; delatam o compadre, a comadre e até o cão de caça, tudo para salvar a sua pele de sol.
– Acto pós-colonial: livres e “democratas”, mudam o disco mas mantêm a gira-discos; agora, em vez de delatarem ao capitão, delatam ao “juiz”; e, num rasgo de génio perverso, atiram os companheiros de clausura aos lobos, tentando pintá-los de culpados para o seguirem no seu adorno de cordeiro. A traição é a única herança que não foi repatriada.
– Acto do regresso (o mais cínico de todos):
Ah, esta é a cereja no topo do bolo podre!
Eis que, finda a temporada na casa do Sr. Director da Penitenciária, o trafulheiro ressurge feito ave-fénix de esgoto. Com a mesma lábia de sempre, estende os braços e pede “reconciliação”. Mas não aos que magoou, não. Isso seria honroso. Ele pede abraços… aos seus próprios algozes!
Sim, senhor! Aos juízes que o condenaram, aos polícias que o algemaram, aos companheiros que delatou, ele agora estende o peito e solicita, com lágrimas de crocodilo ensaiadas no espelho da cela, um gesto de afecto.
É o “abraço do arrependido”. Mas cuidado: enquanto o abraça, a mão direita já lhe apalpa a carteira e a esquerda lhe desata os cordões dos sapatos. Para ele, o afecto é apenas a isca mais barata para o próximo golpe. Perdoar? Isso é para os tolos. Ele quer é que se esqueçam do que fez, ou melhor, que se lembrem dele com pena. Porque um trafulheiro que não desperta comiseração é um trafulheiro que não dura muito no mercado da vigarice.
E assim, a História repete-se: o traidor de ontem é o “amigo arrependido” de hoje, e o “amigo arrependido” de hoje será o delator de amanhã. Ah, doçura! A única coisa genuína neste homem é a falta de vergonha na cara, essa, coitada, é autêntica, biográfica, e não se desgasta nem com o tempo nem com o ferro das algemas.
E assim, meu amigo, fechamos o ciclo. O trafulheiro não é apenas um vigarista; é um artista do ressurgimento. Só lhe falta, para ser completo, pedir que lhe paguem o táxi para ir pedir os abraços.
3. O magnata do “furto por encomenda”
Montam uma empresa (com um nome pomposo, tipo “Futuro Brilhante, Lda.”) e, em vez de contratarem gente séria, lançam os seus capangas ao mercado como quem lança iscas ao rio. A missão? Furtar equipamentos que lhes fazem falta. Um rouba-lhe a impressora, outro o computador, outro o medidor de stress (que, para eles, está sempre avariado). É o “outsourcing do crime”: se forem apanhados, não foram eles que roubaram, foram os “colaboradores criativos”!
4. O gestor venenoso
Chefiar uma empresa para estes indivíduos é como ser jardineiro de um campo minado: em vez de regarem as flores (as competências dos funcionários), regam-nas com ácido. Lançam veneno sobre os colaboradores directos, semeiam a discórdia, criam inimizades… Tudo para que ninguém se junte, ninguém confie em ninguém, e assim, enquanto os funcionários se digladiam por um aumento de 2%, o “patrão” trafulheiro foge com o bolo inteiro, deixando um rasto de intrigas e promessas não cumpridas.
5. A maquilhagem moral
Por fim, vestem-se de vítimas. Queixam-se da “falta de oportunidades”, do “sistema que não os deixa crescer”, e até da “colonização” (que já lá vai há 50 anos, mas ainda serve de bode expiatório para a sua própria falta de carácter). Carregam a cruz da incompetência com uma das mãos, enquanto com a outra apontam o dedo a todos os que os tentam expor.
Para acabar em tom poético (ou quase):
Nascem da sombra da escola vazia,
Vendem o Sol, compram a noite escura.
Traem o amigo, traem a Maria,
E chamam a isso “vida dura”.
Com um sorriso, montam o engenho,
Onde o furto é trabalho e o veneno, carinho.
Mas cuidado, ó gente, que o tempo é velhinho…
E o trafulheiro, um dia, fica sozinho.
Porque, no fundo, meu amigo, o maior defeito de um trafulheiro não é enganar os outros… é “acreditar que nunca será enganado pela própria consciência”. E essa, coitada, não se compra com investimento deficitário nenhum!
“A tua consciência te trairá” – em português.
“Kitekulu kia kué ki ku tela” – em kimbundu.
“Ocikundu kiove kaku kolesa” – em umbundu.
“Moyo aku wuku kusa” – em kikongo.











