Da próxima vez que alguém tentar convencer-te de que um europeu e um africano não se podem entender, lembra-te disto: o teu governo já te traiu mais vezes do que qualquer africano alguma vez te traiu; e o meu governo já me roubou mais sonhos do que qualquer cidadão europeu alguma vez me roubou.
POR ALBÉRICO LUPITO
Há dias em que acordo e sinto o meu governo mais longe do que tu. Tu que vives do outro lado do mar. Tu que falas outra língua, que rezas talvez a outro deus, que tomas café a horas diferentes, que adormeces com notícias de parlamentos distantes.
A distância entre o meu peito e o meu primeiro-ministro e presidente, é maior do que a distância entre o meu peito e o teu.
Não é retórica. É geografia íntima. Os mapas mentem quando desenham continentes como mundos separados. A verdadeira fronteira não corre entre Dacar e Marselha, entre Lagos e Lisboa, entre Nairobi e Berlim. A verdadeira fronteira corre entre nós e aqueles que dizem governar-nos. E corre todos os dias, dentro de cada país, dentro de cada cidade, dentro de cada casa onde se conta o dinheiro para o pão.
I – A distância que nos é comum
Tu, europeu, sabes o que é ter um governo que assina acordos comerciais sem te perguntar nada?
Eu, africano, sei o que é ter um governo que levanta muros enquanto o meu filho tem fome.
Tu protestas na rua e eles aumentam o som das campainhas nos palácios.
Eu protesto na rua e eles chamam-lhe instabilidade.
Mas a ferida é a mesma. A solidão é a mesma. O silêncio depois da promessa é o mesmo.
Lembras-te da primeira vez que percebeste que o teu voto não mudava quase nada?
Eu lembro-me da primeira vez que percebi que o meu voto, se existisse livre, também não mudaria quase nada.
Governos têm uma arte: a de fazer-nos acreditar que o problema está sempre do outro lado da rua, do outro lado do rio, do outro lado da cor da pele.
Mas eu já vi o teu governo abandonar os teus velhos nos lares.
E tu já viste o meu governo roubar o leite das escolas.
Nenhum dos dois governos chorou. Nós, sim.
II – O que os governos não sabem sobre nós
Governos não sabem o cheiro da chuva na terra seca. Não sabem o peso de uma criança com malária ao colo às três da manhã. Não sabem o que é esperar seis horas numa fila do centro de saúde. Não sabem o que é pagar um suborno para não perder o emprego. Não sabem o que é fingir sorriso quando o salário não chega até ao fim do mês.
Tu sabes. Eu sei.
Por isso, a diferença entre o meu governo e eu é maior do que a diferença entre eu e tu. Porque o meu governo aprendeu a falar em meu nome sem nunca me ouvir. Porque o teu governo aprendeu a sorrir em nome da Europa enquanto te fecha as portas do conforto.
Governos gostam de distâncias. Gostam de generalidades.
Nós gostamos de detalhes: o nome da rua, o preço do tomate, a hora do autocarro ou do candongueiro, a chave que se perde, a janela que não fecha bem.
III – Tu és mais meu irmão do que o meu ministro
Escuta bem, que isto é importante: tu és mais meu irmão do que o ministro que nasceu na minha cidade; e eu sou mais teu irmão do que o deputado que discursa na tua língua. Porque tu sabes o que é chorar por falta de escola, de emprego, de justiça. Porque eu sei o que é acordar de madrugada e duvidar que alguém lá em cima pense em mim.
Já reparaste?
Os governos, quando querem dividir-nos, falam de civilizações, de culturas, de valores incompatíveis.
Nós, quando nos encontramos: numa fila de aeroporto, num mercado de rua, num projecto de ajuda mútua falamos de cansaço, de filhos, de receitas da avó, de músicas que nos fazem chorar.
E nesse instante, todas as bandeiras caem. Fica só a respiração. Fica só o gesto de oferecer água. Fica só o silêncio bom de quem não precisa de se explicar.
IV – O que herdámos e o que podemos recusar
Os governos herdaram discursos. Nós herdámos feridas.
Os teus avós europeus talvez tenham tido impérios. Os meus avós africanos talvez tenham sido colónias.
Mas nenhum de nós escolheu isso.
E nenhum governo (teu ou meu) quer que esqueçamos essas histórias de forma limpa. Eles precisam delas para nos manter separados. Precisam que tu olhes para mim como “o outro”, e que eu olhe para ti como “o privilegiado”. Assim, não nos unimos. Assim, não vemos que o inimigo comum não está na pele do vizinho: está no sistema que nos transforma em números.
Mas eu recuso. Recuso acreditar que a tua pele manda mais do que a minha tristeza. Recuso acreditar que o teu passaporte vale mais do que o meu cansaço. Recuso deixar que o meu governo me convença que tu és o problema, quando o problema é a cadeira onde ele se senta sem nos ver.
V – A longa noite dos governos
Governos viajam de jacto. Nós viajamos a pé. Governos falam de soberania. Nós falamos de sobrevivência. Governos traçam linhas nos mapas. Nós cruzamo-nos nas estações, nos mercados, nas filas dos consulados, nos mesmos bancos de espera. Governos assinam tratados. Nós assinamos recibos de renda, boletins de notas, atestados de pobreza, certidões de nascimento de filhos que já não cabem no orçamento.
À noite, quando os governos dormem em camas de linho, nós estamos acordados. Tu estás acordado a calcular o que cortar no mês que vem. Eu estou acordado a rezar para que amanhã haja luz para estudar. O nosso medo tem o mesmo nome, só muda o sotaque.
VI – Por isso, quando nos encontrarmos
Por isso, quando nos encontrarmos, e havemos de encontrar-nos, num mercado, num comboio, numa rede qualquer da Internet, numa esplanada à beira de um mar que não nos pertence. Não me fales do teu governo como se ele fosse a tua alma. Não te falarei do meu governo como se ele fosse a minha pele.
Falaremos da chuva que molha os teus campos e os meus. Falaremos do cansaço de pagar contas. Falaremos do medo que os nossos filhos adoeçam. Falaremos da primeira vez que rimos depois de um dia terrível. Falaremos da receita que a minha avó fazia e que a tua avó também fazia, com quase os mesmos ingredientes, só com nomes diferentes.
E aí, nesse chão comum, a diferença entre ti e eu desaparecerá. E ficará apenas uma verdade nua, pequena e gigante ao mesmo tempo:
A distância entre um ser humano e o seu governo é maior do que a distância entre dois continentes; e essa distância, essa sim, é a única que devíamos atravessar juntos.
Nota final
(como quem dobra um papel e mete no bolso)
Não estou a dizer que não há diferenças entre nós. Há. A tua escola tem talvez mais livros. O meu Sol é talvez mais quente. A tua polícia é talvez(?) menos violenta. O meu ritmo é talvez mais lento. Mas essas diferenças são migalhas ao pé do abismo que nos separa de quem nos governa.
Por isso, da próxima vez que alguém tentar convencer-te de que um europeu e um africano não se podem entender, lembra-te disto: o teu governo já te traiu mais vezes do que qualquer africano alguma vez te traiu; e o meu governo já me roubou mais sonhos do que qualquer cidadão europeu alguma vez me roubou.
Ficamos então.
Tu e eu.
Do lado de cá do poder.
Do lado de lá da mentira.
Irmãos por exclusão.
Irmãos por cansaço.
Irmãos, finalmente, por escolha.










