27 DE MAIO DE 1977. O TESTEMUNHO ARREPIANTE DE BRITO JÚNIOR (PARTE III)

“O CHEFE CARLOS JORGE ACOMPANHADO DE MILITARES SÓ APARECIA DE MADRUGADA PARA NOS TORTURAR. NÃO NOS INTERROGAVAM NEM LIAM O QUE ESCREVÍAMOS”.

RAMIRO ALEIXO (EDIÇÃO)

“Qual inchaço qual carapuça, põe-te 

já a escrever fdp… senão arranco-te estes olhos”

“Como os meus olhos estavam inchadíssimos só a custo consegui distinguir quem estava naquele momento a ser espancado. Era nada mais nada menos que o inspector do CPPA, Sebastião Gaspar, mais conhecido de “Paizinho”, filho do enfermeiro Gamaliel Martins (actualmente Vice-Ministro do Comércio Interno). O próprio chefe Carlos Jorge espancava brutalmente o Paizinho ao mesmo tempo que gritava: “o que estavas a fazer no Bairro Alvalade no dia 27? Estavas a controlar o quê!!!”. “Porque é que no dia 27 ofereceste uma flor à tua vizinha? Estavas a comemorar o golpe?”.

Dia 9/Julho/1977. Senti que alguém me sacudia e ouvi uma voz longínqua que dizia: “está vivo, ainda se mexe”. Lentamente comecei a recuperar a consciência. Apercebi-me que estava deitado no chão e fazia frio. Sentia dores terríveis em todo o corpo. Lentamente abri os olhos. Estavam inchadíssimos. Ajeitei-me o melhor que pude. Apalpei-me e notei o sangue acoalhado sobre o cabelo, a barba. Moscas esvoaçavam. O Laleca estava assentado junto de mim e tinha as ligaduras na cabeça cheias de sangue. Ele não desmaiara. Continuávamos completamente nus. De pé estavam dois militares, muito jovens ainda, aparentando 18-19 anos. Um deles, o que me havia sacudido, com aspecto de moço inteligente, perguntou-nos, expressando-se num português correcto: (vou reproduzir o diálogo):

– Quem vos fez isto?

– O chefe Carlos Jorge e muitos militares que desconhecemos, respondemos.

O moço voltou-se para o companheiro e disse:

– Eu não te dizia que eles só andam a varrer os pretos? Isto não pode ser. Em todas as salas só encontramos pretos a serem varridos. Só há pretos fraccionistas? Tenho que informar isto. Onde está a vossa roupa? Eu sou de Banza Caculo Cazongo. Não posso permitir essa discriminação.

O Laleca apontou para o canto onde as nossas roupas estavam enroladas. O moço pegou nelas e deu-nos dizendo: “Vistam-se e se alguém vos perguntar quem vos deu as roupas digam que foi F. (esqueci-me do nome), natural de Caculo Cazongo. Mais tarde passaremos por cá”. Saíram. Nunca mais os vimos. Olhei para o relógio, eram cerca das 8,30 horas.

Com dificuldade consegui vestir-me, ajudado pelo Laleca. Nem de pé, nem assentado podia estar, tinha o corpo todo maltratado. Havia 48 horas que eu tinha sido tirado da cela B para aquela sala de torturas, espancado durante duas noites seguidas, sem dormir e sem higiene de espécie alguma, sem tratamento, humilhado até ao extremo. Até aquele momento ninguém me tinha feito um interrogatório.

Cerca das 11 horas apareceu um militar, obrigou-nos a levantar do chão, violentamente e sentarmo-nos. Deu-nos as folhas para que continuássemos a escrever, era ordem do chefe Osvaldo Inácio, disse-nos o militar. De vez em quando vinha espreitar.

Já passava das 17,30 horas quando surgiu o chefe Osvaldo Inácio. Desde a sessão de espancamento da noite do dia 7, uma 5ª feira, que o não víamos. Olhou para nós e perguntou: “ontem foram de novo espancados?”. Sim, respondemos. “Já escreveram tudo?”, tornou a perguntar e nós respondemos que sim. Chamou o soldado Kanhangulo e ordenou: “leva estes senhores para o posto médico e depois de tratados leva-os para as respectivas celas”. Trôpegos, fomos para o posto médico. O dr. Videira, atrás referido, tratou-me com todo o cuidado e com palavras de conforto. Fez-me os curativos na cabeça, massajou-me o corpo, mediu-me a tensão e disse que estava alta, o que era natural face aos momentos dramáticos que eu vivera nas últimas 30 horas. Findo o tratamento, o Kanhangulo levou-me para a cela B. Quando entrei os colegas de infortúnio ficaram estáticos. Pareciam que tinham visto um fantasma. Vencido o impacto fui rodeado de atitudes de solidariedade. Até os mercenários se preocuparam por mim. Tiraram-me a roupa suja de sangue e pó e puseram-me sobre um colchão; o mercenário Gustavo Grilo deu um frasco com um óleo ao José Vaz e este friccionou-me todo o corpo. Chorei e chorei de dor. Outro mercenário, Martin, deu-me leite. Eu mal podia abrir a boca. Um espanhol, Martinez, deu-me um comprimido calmante. (Os mercenários tinham na cela alguns medicamentos). Forraram-me num cobertor e adormeci sob o efeito do calmante. Desde o dia 30 de Junho, quando fui preso, que não dormia num colchão e nem sequer tinham dado ainda uma manta. Podem testemunhar o estado em que me encontrava quando voltei da sala onde fui torturado, o José Vaz, o João Piedade Quintas, o “Mister Mbuco”, o Inocêncio Ioba, o Aires de Menezes, o Gustavo Grilo e o próprio Inácio Laleca, meu companheiro de torturas.

Dia 11/Julho/1977, 2ª. Feira. Cerca das 9 horas, estava eu ainda deitado, pois mal me podia manter de pé, cheio de fraqueza e de dores (na véspera o José Vaz me friccionara novamente o corpo todo) o chefe Osvaldo Inácio veio pessoalmente buscar-me. Levou-me à mesma sala onde estivera nos dias 7, 8 e 9. Já lá estava o Laleca. O mesmo chefe Osvaldo o tinha ido buscar. Mandou-me sentar, deu-me as folhas que escrevera nos dias anteriores e mais folhas em branco e uns cadernos diários com o símbolo da UNICEF e disse-me: “continua a escrever; só sairás daqui quando escreveres tudo. Tu és jornalista e sabes muita coisa, os teus contactos no estrangeiro”. Quando ele saiu olhei para o Laleca. Ainda estava inchado e fiz-lhe notar isto. Ele olhou também para mim e disse que o meu aspecto era pior que o dele. Ali ficamos todo o dia e de vez em quando vinha um militar espreitar.

Anoiteceu e ficamos às escuras. A lâmpada tinha fundido. Às 21 horas apareceu o chefe Baião que nos levou para outra sala, cada um de nós levando a sua cadeira e os papeis. Nessa sala encontramos um indivíduo branco, que se apresentou chamar-se Marques, de nacionalidade portuguesa; era assessor do comandante Nzaji até ao dia 26/Maio/77 quando foi preso pelo falecido cda. Helder Neto, acusado de ter desinformado a DISA. Ele tinha a cara inchada e com manchas negras. A roupa estava sujíssima e cheia de nódoas de sangue. Disse que se encontrava naquela sala desde 2 de Julho e era espancado todas as noites. Ficamos os três naquela pequena sala, em volta de uma mesa.

Às 22 horas, mais ou menos, apareceu o chefe Carlos Jorge, acompanhado de um militar, alto e corpulento, chamado Bonifácio. Claro que o meu corpo começou logo a tremer. O chefe Carlos Jorgeaproximou-se de mim e ordenou ao Bonifácio“trata a cara deste fraccionista racista”. O Bonifáciocomeçou então a socar-me a cara. O chefe Carlos Jorge, assentado sobre a mesa, ia dirigindo o “serviço”, dizendo: “dá-lhe aqui”“dá ali” e indicava o sítio da cara onde o Bonifácio devia socar. Tal como uma máquina, o Bonifácio ia desfazendo a minha cara com socos e chapadas: socava os maxilares, o nariz, chapava a boca, as maçãs do rosto, as têmporas. Eu era um boneco às mãos do Bonifácio. O sangue jorrava do meu nariz. Sentia que a minha cara se estava a transformar numa massa disforme. Passado não sei quanto tempo o chefe Carlos Jorge disse secamente: “basta”. E saíram ambos da sala.

Laleca abriu-me os olhos e disse que estavam ensanguentados. Apoiei a cabeça sobre a mesa. As lágrimas deslizavam. Meditei o que se estava passando comigo: que mal tinha feito para ser torturado tão barbaramente? Que mal tinha feito ao Carlos Jorge para me querer tanto mal? Não sei quanto tempo fiquei nesta meditação angustiante e momentos depois entrou de rompante o chefe Carlos Jorge, acompanhado de um grupo de militares (desta vez vinha fardado) e empurraram para a sala um indivíduo vestido com uma farda do CPPA. A sala estava cheia de militares. Como os meus olhos estavam inchadíssimos só a custo consegui distinguir quem estava naquele momento a ser espancado. Era nada mais nada menos que o inspector do CPPA, Sebastião Gaspar, mais conhecido de “Paizinho”, filho do enfermeiro Gamaliel Martins (actualmente Vice-Ministro do Comércio Interno). O próprio chefe Carlos Jorge espancava brutalmente o Paizinho ao mesmo tempo que gritava: “que estavas a fazer no Bairro Alvalade no dia 27? Estavas a controlar o quê!!!”. “Porque é que no dia 27 ofereceste uma flor à tua vizinha? Estavas a comemorar o golpe?”. O Paizinho continuou a ser espancado violentamente, mas, a determinado momento, o espancamento generalizou-se e os militares que acompanhavam o chefe começaram também a dar não só no Paizinho, mas a todos nós, Laleca, eu e o Marques. Foi terrível. Selvático. Socos, pontapés, coronhadas, atirados contra a parede, enfim. Eu praticamente estava já semi-inconsciente, mas ainda me lembro perfeitamente que o chefe Carlos Jorge abriu-me a boca violentamente e ia introduzindo porções de cabelo que arrancava da cabeça do Paizinho. Aliás, eles arrancavam-nos o cabelo, puxavam-nos pela barba, arrancavam-nos o bigode. A verdade é que eu engolia mesmo o cabelo, enquanto o chefe dizia: “coma, seu bandido, senão arranco-te os dentes”. Todos fomos espancados, mas o Paizinho foi quem mais apanhou nesta sessão. Era um recém-chegado! Depois de satisfeitos os seus instintos toda a turba saiu. Ficamos aí a gemer. Amanheceu assim.

Dia 12/Julho/1977. Cerca das 15 horas apareceu o chefe Osvaldo Inácio que me perguntou onde estava a chave do meu gabinete. Respondi-lhe que estava com a minha secretária. Vendo-me parado tornou a perguntar-me porque é que não estava a escrever. Respondi-lhe que quase não via nada dado o inchaço dos olhos, da cara e de todo o corpo. “O chefe não está vendo como estou?”, repliquei. Era angustiante a insensibilidade deste chefe. Espancados como fomos, estávamos sujos, roupa manchada de sangue, inchados, gemendo de dores, mas nada disto sensibilizou o chefe Osvaldo. Disse-lhe: “se o chefe quer que eu escreva devo primeiro ser tratado”. Ele olhou novamente para mim, chamou um militar e disse-lhe que me levasse ao ponto médico, onde o dr. Videira tratou-me o melhor que pode. Ao ser levado novamente para a sala de torturas, quando atravessava o pátio, ouvi muitas vozes a gritar: “coragem, Brito Júnior, coragem”. Eram presos de várias celas que, empoleirados nos buracos das grades, me encorajavam. Na realidade eu estava a viver o calvário da minha vida.

Cerca das 22 horas apareceu o chefe Osvaldo Inácio. Nós os 4 (Marques, Paizinho, Laleca e eu) sentados em volta da mesa tendo a nossa frente as folhas e cadernos da UNICEF. Então o chefe Osvaldopôs-se a conversar connosco dizendo que ele era o nosso oficial interrogador, que estávamos ali sob sua responsabilidade e que ninguém nos podia tocar sem o seu consentimento (o que para nós queria dizer que as torturas que estávamos sofrendo eram consentidas por ele). Voltando-se para mim disse: “fizemos uma busca no teu gabinete, mas não encontramos o que procuramos. De qualquer maneira arranjar-te-emos uma culpa”. Respondi-lhe: “só se fabricarem uma culpa, estou certo de não ter cometido qualquer crime”.

Estava o chefe Osvaldo Inácio naquela conversa de gozo quando entrou o chefe Carlos Jorge e, como sempre, acompanhado de 4 ou 5 militares, armados de pistola. Olhou para nós e vendo-me parado (os outros fingiam estar a escrever), perguntou-me: “então estás parado, não escreves?”. Respondi que quase não via nada porque tinha os olhos inchados. O chefe irou-se e gritou: “qual inchaço qual carapuça, põe-te já a escrever, só filho da puta, senão fodo-te, arranco-te estes olhos”. Ao mesmo tempo que me xingava começou a dar-me socos nas costas, imitando gestos e posições de karateca. Os outros soldados começaram também a dar e em breve a sessão de espancamento generalizou-se. Todos nós erámos alvos do sadismo dos militares. Pareciam tarados, drogados. Eu e o Laleca tínhamos as cabeças cheias de pensos e adesivos, mas mesmo assim espancavam-nos na cabeça. A dado momento gritei: “um pouco de humanidade camaradas”. O próprio chefe Carlos Jorge aos gritos respondeu “que não havia humanidade para assassinos como vocês, que mataram os comandantes e queriam matar o nosso Presidente”. Dizia isto ofegante, dado o esforço que estava fazendo ao espancar-nos. Voltando-se para o chefe Osvaldo Inácio (que durante toda a sessão de espancamento permaneceu impávido e sereno – só uma vez disse a um militar que evitasse bater na cara do Paizinho) disse-lhe: “dá mais um caderno a este filho da puta: ele vai continuar a escrever mesmo que morra de porrada”. Deram-nos mais uns socos e uns pontapés e saiu, levando consigo os militares. Ouvimos gritos de dor que vinham doutras salas e deduzimos que eram outros desgraçados a serem espancados. O chefe Osvaldo Ináciodeu-me mais um caderno UNICEF, disse-nos que continuássemos a escrever e saiu. Ficamos sós, gemendo de dores, tremendo de medo e de frio. Amanheceu. Que alívio. Durante o dia ninguém nos espancava e o chefe Carlos Jorge só aparecia de noite, depois das 22 horas. Durante o dia só eramos vigiados por algum militar, que nos ameaçava se não estivéssemos a escrever. Compreendemos que obrigavam-nos a escrever só para torturar-nos psicologicamente, dado que em nenhum momento se preocuparam ler o que já havíamos escrito.

Continua (Parte IV)…

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