
RECADOS DA CESALTINA ABREU(70)
“Tudo é mais fácil na vida virtual, mas perdemos a arte das relações sociais e da amizade.”
A frase de Zygmunt Bauman condensa o espírito daquilo a que chamou modernidade líquida: um tempo em que tudo se torna volátil — relações, vínculos, compromissos —, frágeis e maleáveis como líquidos.
Nunca foi tão fácil conectar. E, no entanto, nunca foi tão difícil sustentar. A leveza das conexões digitais — rápidas, editáveis, descartáveis — substitui o esforço silencioso que constrói amizades reais: tempo, presença, confronto, cuidado. A vida virtual oferece a ilusão de companhia, mas frequentemente desemboca na solidão. Porque curtidas não abraçam. Ecrãs não escutam. Notificações não substituem o encontro.
Adicionamos “amigos” com um clique, mas hesitamos diante do que exige permanência. Os laços tornam-se frágeis, reversíveis, consumíveis — marcas de uma sociedade em fluxo contínuo, onde o compromisso pesa e a ausência de compromisso alivia.
As redes sociais oferecem também um refúgio cómodo: evitam-se conflitos, contornam-se diferenças, silencia-se o desconforto. Mas, ao fugir do confronto, desaprendemos a arte do diálogo. E sem diálogo não há relação — há apenas coexistência superficial.
Vivemos o paradoxo apontado por Bauman: hiperconectados, mas profundamente sós. Um “isolamento em rede”, onde a abundância de contactos esconde a escassez de vínculos. Já não é preciso compreender o outro; basta bloquear, silenciar, excluir. A facilidade da desconexão fragiliza tudo — e empobrece-nos.
Talvez o mais inquietante seja isto: estamos a perder a capacidade de ficar. De suportar o outro na sua diferença. De investir quando não é fácil. De cuidar quando não é conveniente.
Talvez o desafio do nosso tempo não seja recusar a fluidez, mas aprender a criar ilhas de solidez dentro dela. Esta é a minha provocação para o fim de semana: não basta perguntar se esta é a vida que temos. É preciso perguntar, com honestidade, se é esta a vida que queremos sustentar. Porque, num mundo líquido, escolher permanecer pode ser o gesto mais radical.
Kandando daqui.











