A DIALÉCTICA DO OBSCURO. QUANDO A ESTUPIDEZ VESTE O MANTO DA ERA

POR JOAQUIM SEQUEIRA

A história não é escrita pelos que mais gritaram, mas pelos que, no silêncio da sua reflexão e no calor da sua empatia, souberam enxergar além do circo momentâneo.

Há uma inteligência que não reside nos livros, mas no zumbido das folhas ao vento, no cálculo perfeito da migração das aves, no abraço que acalma sem uma única palavra. É uma sabedoria orgânica, tecida de empatia, de escuta, de humildade perante o vasto mistério do existir. É a luz que não ilumina apenas factos, mas aquece almas. Contudo, estamos a atravessar um tempo estranho, um crepúsculo enganoso onde essa luz parece apagar-se, ofuscada por um espectáculo estridente e vazio: a era em que a estupidez não apenas existe, mas graça. Ela já não se esconde nas sombras; ela desfila sob holofotes, aplaudida e intensamente partilhada nas redes sociais.

A estupidez contemporânea não é a simples falta de conhecimento: essa é uma condição humana remediável. Não. Ela é activa, tem performance. É a recusa orgulhosa da complexidade. É o martelo que, vendo um mundo cheio de parafusos, rosas, espelhos e cordas de violino, insiste que tudo é prego. E o pior: consegue seguidores para a sua teoria. Ela graça nos ecrãs, reduzindo debates ancestrais a slogans de duas sílabas. Dança nas redes sociais, onde a fúria é mais viral que a dúvida, e a certeza grosseira ganha mais corações do que a pergunta delicada.

Há uma poesia trágica nesse fenómeno. A estupidez vestiu o manto da era: tem a velocidade do clique, a estética do meme, a autoridade do algoritmo que nos mostra apenas o que já acreditamos. Ela é cómoda. Exige pouco: apenas a rendição da nuance, do colorido, do “por um lado…, por outro lado…”. Num mundo sobrecarregado de informação, ela oferece-se como um porto seguro de simplicidades perigosas. É o canto da sereia que promete alívio para o cansaço de pensar.

E a inteligência? Ah, a inteligência verdadeira hoje parece uma figura melancólica. Ela fala baixo, em tom de questionamento. Ela hesita. Sabe que a realidade é um tecido de contradições e que compreendê-la exige paciência, um exercício diário de desaprender preconceitos. A sua voz não grita; murmura. E num salão de gritos, um murmúrio parece irrelevante. A inteligência emocional, então, que lida com as feridas e os afectos, é muitas vezes ridicularizada como fraqueza, num culto perverso à dureza e ao pragmatismo desumano.

Mas é precisamente aqui, no coração deste obscuro, que talvez encontremos um fio de esperança. Porque a estupidez que graça é, no fundo, um grito de dor não escutado. É o sintoma de uma sociedade com excesso de dados e fome de sentido, de conexão autêntica. A verdadeira inteligência, a poética, a emocional, a que interroga e sente, não desapareceu. Ela retirou-se para os interstícios: numa conversa profunda entre amigos, no cuidado com um idoso, no artista que tenta capturar o inefável, no activista que luta sem discurso de ódio.

A batalha actual não é entre os sábios e os ignorantes. É entre a preguiça da alma e a coragem do espírito. Entre aceitar a caricatura do mundo ou abraçar a sua desconcertante, dolorosa e maravilhosa complexidade. A estupidez pode graçar, é verdade. O seu desfile é ruidoso. Mas a inteligência (essa que é feita de luz e sombra, de razão e compaixão) resiste. Silenciosamente, como a raiz que crava no subsolo durante o inverno, ela prepara o próximo florescer.

Que não nos rendamos ao espectáculo do óbvio. Que possamos, na nossa paz, cultivar a inteligência que não exclui, mas acolhe; que não cerra fileiras, mas abre diálogos; que não destrói, mas tece. Porque no fim, a história não é escrita pelos que mais gritaram, mas pelos que, no silêncio da sua reflexão e no calor da sua empatia, souberam enxergar além do circo momentâneo. A luz pode parecer fraca, mas é a única que ilumina o caminho para frente.

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