Maquiavel, poder, dinheiro e a engenharia política do presente angolano

Introdução
Nicolau Maquiavel, diplomata e pensador florentino do século XVI, não escreveu um manual de virtudes. Escreveu, sim, um espelho cru do poder quando levado ao limite. Em “O Príncipe” e nos “Discursos sobre a Primeira Década”, de Tito Lívio, descreve um governante que pode usar todos os meios — a força, a intriga, o medo, o dinheiro, a eliminação de rivais e até a neutralização de aliados — para se manter no comando.
Já lá vão quase cinco anos desde que lecionei Filosofia e Lógica no Instituto Superior Politécnico do Libolo. Nesse período, envolvi-me com dezenas de estudantes em debates sobre política, poder e justiça social, sempre com Maquiavel como provocador principal. Muitas vezes, perguntavam-me como certas decisões do Governo angolano poderiam ser interpretadas à luz de Maquiavel: seriam expressões de racionalidade política ou sinais de crueldade e irresponsabilidade?
Enquanto na sala de aula discutíamos conceitos, fora dela o país expunha as suas contradições: discursos sobre crescimento e estabilidade convivendo com pobreza persistente, desigualdade crescente, jovens sem horizonte e um Estado que parece, muitas vezes, mais empenhado em proteger-se a si mesmo do que em proteger o povo.
Este ensaio parte de uma hipótese simples e incómoda: cinquenta anos depois da independência, a prática política em Angola continua profundamente maquiaveliana. Esta leitura ganha ainda mais nitidez quando colocamos em diálogo Maquiavel, os chamados “Dez Mandamentos”, a realidade económica e social e leituras contemporâneas, como o artigo de Ramiro Aleixo, “A Mensagem de Natal de um Presidente Inconsequente”.
Dinheiro, poder e Maquiavel
Para Maquiavel, o dinheiro nunca é neutro. É um dos instrumentos centrais do poder. Um príncipe que controla os recursos financeiros controla também quem ascende e quem cai, que projectos avançam e quais ficam parados, quem tem voz e quem desaparece do espaço público.
Acumular riqueza e controlar a sua circulação significa poder financiar aliados, premiar lealdades, estrangular adversários e manter uma aparência de normalidade, mesmo quando a casa está a arder.
No contexto angolano, isso é visível na forma como a riqueza nacional, produzida sobretudo a partir dos recursos naturais, não se traduz numa melhoria proporcional da vida da maioria. Observa-se um padrão de acumulação nos círculos do poder, enquanto grande parte da população continua a viver na precariedade, entre biscates, informalidade, migalhas de programas sociais e promessas que raramente chegam ao bairro.
Vista com os olhos de Maquiavel, esta realidade não é somente uma falha de política económica; é uma engenharia deliberada. O dinheiro serve, antes de tudo, para garantir a estabilidade do trono.
Os Dez Mandamentos de Maquiavel e a política angolana
Ao longo do tempo, vários autores sintetizaram o espírito de O Príncipe em listas como os chamados “Dez Mandamentos de Maquiavel”, que aqui retomamos como chave de leitura:
1. Zelai apenas pelos vossos interesses;
2. Não honreis mais ninguém além de vós;
3. Fazei o mal, mas fingi fazer o bem;
4. Cobiçai e procurai fazer tudo o que puderdes;
5. Sede miseráveis;
6. Sede brutais;
7. Lograi o próximo sempre que puderdes;
8. Eliminai os vossos inimigos e, se necessário, os vossos amigos;
9. Usai a força em vez da bondade ao tratar com o próximo;
10. Pensai exclusivamente na guerra.
Estes mandamentos não constituem uma lista moral; são uma radiografia da lógica do poder quando a preocupação central não é a justiça, mas a conservação do comando. Em Angola, muitas decisões políticas — e também muitas omissões — podem ser lidas à luz destes princípios.
A política do dinheiro e da narrativa
A dependência de sectores estratégicos, como o petróleo, e a gestão selectiva das receitas públicas demonstram como o dinheiro se transforma numa alavanca de poder. Os recursos são orientados para áreas e grupos que reforçam a autoridade central, enquanto vastas franjas da população permanecem à margem. Mesmo projectos que, no papel, são de desenvolvimento, no terreno raramente alteram de forma profunda a vida de quem mais precisa.
Mesmo quando os indicadores macroeconómicos falam de crescimento, o quotidiano de muitas famílias angolanas conta outra história: salários que não acompanham o custo de vida, dificuldade de acesso a serviços básicos, jovens qualificados sem emprego e trabalhadores a viver numa pobreza silenciosa.
A desigualdade não é um acidente; é uma condição de funcionamento do sistema. Maquiavel diria que um príncipe prudente evita que o povo tenha força suficiente para o derrubar, mas também evita que morra de fome ao ponto de explodir. Mantém-no num equilíbrio frágil, entre a necessidade e a resignação.
Eliminai os vossos inimigos e, se necessário, os vossos amigos
Aqui, Maquiavel torna-se mais desconfortável e mais actual. Um governante decidido a manter o poder a qualquer custo, deve eliminar os seus inimigos e, quando a razão de Estado o exigir, também os seus amigos. Em Angola, não faltam exemplos que ecoam esta lógica.
O afastamento de figuras seniores do MPLA é muitas vezes apresentado como simples renovação. Contudo, muitos desses afastamentos coincidem com momentos em que essas figuras expressaram reservas quanto ao rumo político, sobretudo no que toca ao controlo da sucessão e à extensão do poder presidencial.
A reconfiguração de órgãos como o Comité Central e o Conselho da República, revela o mesmo padrão: vozes críticas ou excessivamente independentes vão sendo progressivamente afastadas. O príncipe prefere leais previsíveis a mentes autónomas.
O afastamento de Carolina Cerqueira da presidência da Assembleia Nacional, sem explicação compreensível para a opinião pública, ganha outra leitura, quando se observa o papel institucional que desempenhou ao facilitar pontes fora do controlo directo do poder. Um principado moderno não tolera mediações independentes.
A eliminação, neste contexto, não é física. É política, institucional e simbólica: perder cargos, influência, visibilidade e acesso aos espaços de decisão.
A mensagem de Natal e a política da aparência
O artigo de Ramiro Aleixo, “A Mensagem de Natal de um Presidente Inconsequente”, torna-se uma peça fundamental para compreender o Príncipe em Angola na actualidade. Nele é descrito um Natal vivido por muitas famílias como o mais pobre dos cinquenta anos de independência, enquanto o poder celebrava a data com pompa.
A mensagem presidencial fala de paz, estabilidade e esperança, mas ignora o desemprego, a inflação e o desgaste social. O discurso constrói um país imaginário, enquanto o povo vive num país real.
Maquiavel aconselharia precisamente isso: parecer virtuoso enquanto se governa com dureza; usar a palavra para suavizar a dor; manter viva a esperança, mesmo sem intenção de a concretizar plenamente. A inconsequência apontada por Aleixo transforma-se, assim, numa técnica de governação.
Transições difíceis e tensões sociais
A combinação de crise económica, aumento do custo de vida, reformas mal explicadas e frustração social acumulada tem produzido momentos de tensão. Sempre que o descontentamento tenta organizar-se, a resposta do Estado oscila entre o controlo da narrativa e o recurso à força.
Mais uma vez, Maquiavel: quando a persuasão falha, entra o medo. Entre ser amado e ser temido, é mais seguro ser temido.
Conclusão — O Príncipe em Angola, cinquenta anos depois
Cinquenta anos após a independência, Angola continua a ser um laboratório vivo para Maquiavel. A concentração da riqueza no topo, a neutralização de quadros independentes, a reconfiguração institucional, o controlo da narrativa e a gestão estratégica das alianças compõem o retrato de um principado moderno.
O artigo de Ramiro Aleixo funciona como testemunha do presente: a palavra oficial já não corresponde à vida real. Lida com Maquiavel na mão, essa distância deixa de ser falha e passa a ser método.
Este ensaio não pretende demonizar indivíduos, mas iluminar um sistema. A pergunta final já não é do filósofo nem do cronista, mas do cidadão: Angola quer continuar a ser governada por um Príncipe ou está pronta para construir, finalmente, uma república de cidadãos?
Referências
Aleixo, Ramiro. A Mensagem de Natal de um Presidente Inconsequente. Portal Kesongo.
Maquiavel, Nicolau. O Príncipe. 1513.
Maquiavel, Nicolau. Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio. 1517.
Chavalzada. Os Dez Mandamentos de Maquiavel. 2012.
Zemoleza. Maquiavel e o Príncipe: análise contemporânea. 2021.











