4ª PARTE (FIM)

O mundo de fora da caverna de Platão
Neste veloz século XXI, o mundo de fora da “caverna de Platão” tem sido testemunha do nascimento de uma nova era, num momento histórico único, em que a batalha em curso é entre duas “correntes de pensamento” – Soberanistas versus Entreguistas. Neste contexto, como projectar o futuro de uma sociedade que endeusa os anacronismos de economistas neoliberais, que insistem em condenar todo um país à ruína do fundamentalismo de mercado e da invisibilidade do Estado? Como é possível admitir que, num estágio como o que vivemos actualmente, um intelectual não tenha atingido ainda um nível de compreensão sobre os assédios contra a Venezuela, contra o Irão, contra a Rússia e contra a China por parte dos EUA? Como edificar um país que exige massa crítica com actores sociais que nada apreenderam com as invasões contra a Jugoslávia, o Iraque, o Afeganistão, a Líbia e a Síria? Como educar um país com mentalidade para a soberania e progresso, com órgãos de comunicação social especializados na reprodução da propaganda da imprensa ocidental e seu olhar enviesado sobre o mundo? Como construir, por meio do poder da imprensa, uma cultura de emancipação nacional sem domínio dos temas fulcrais do mundo contemporâneo?
A partir da explorada periferia do sistema financeiro internacional dominado e controlado pelos EUA e seus satélites, Angola é dos poucos países onde, ao invés de resistência, o que mais se dissemina é o esforço para decretar a inexistência do imperialismo norte-americano, como acto de superioridade intelectual, ou vontade abnegada de inocentar o Ocidente pelos diversos males causados aos povos africanos, que ainda se ressentem dos efeitos. O escândalo é tal, que num momento em que centenas de intelectuais no Ocidente ampliam o seu despertar sobre a natureza maléfica das elites políticas das potências do hemisfério norte e a apetência para destruir as nações do sul, existem “opinólogos” angolanos que, na prática, actuam como advogados dos interesses dos governos ocidentais, ao invés de contribuírem para uma consciência de emancipação cognitiva, que é a chave para todas as formas de independência e progresso.
Em 2004, no mesmo ano em que o FMI exigiu às autoridades angolanas as ditas reformas económicas como condição para a não realizada conferência internacional de doadores para a reconstrução de Angola, John Perkins publicou o best-seller “Confissões de um Assassino Económico”. Nesta obra autobiográfica, Perkins explica como, através do seu trabalho na empresa de consultoria Chas Main, foi treinado pela NSA (agência de inteligência dos EUA responsável pela recolha, processamento e distribuição de informações de inteligência electrónica) para ser um “assassino económico”. Perkins confessa que a sua missão “era convencer líderes de países subdesenvolvidos a aceitarem empréstimos para grandes projectos, prendendo-os, desta forma, num sistema de influência e controlo americano”. No entanto, nem mesmo estas confissões de um ex-funcionário do sistema imperialista estimulam as emissoras de rádio e os típicos comentaristasangolanos a informar os ouvintes com verdade sobre as práticas das elites ocidentais. A alienação atinge níveis patológicos, quando nem mesmo a auto-confissão de um assassino económico leva a que as redacções e comentaristas repensem as suas crenças sobre a “natureza imaculada” das ONG, consultoras e multinacionais estrangeiras e aprendam sobre a verdadeira essência da missão dos actores ao serviço do império.
No dia 23 de Outubro de 2025, a dívida dos EUA superou oficialmente, pela primeira vez na história, os 38 triliões de dólares. A dívida aumentou 500 bilhões de dólares em apenas um mês, correspondendo a 23 bilhões de dólares por dia. Trata-se de um dado sobre o país que é tomado pelos propagandistas neoliberais como o paraíso dos “craques” com legitimidade para ditar receitas de economia a todo o mundo. Ainda assim, aparecem os economistas representantes do neoliberalismo em Angola, usando os microfones, algumas vezes omitindo estas e tantas radiografias da decadência das sociedades do fundamentalismo de mercado, outras vezes a enganar milhares de cidadãos com a tese de que o modelo económico e social neoliberal, que conduz os EUA para a decadência, é o modelo ideal para Angola. Estes são os “assassinos económicos” que, dentro de Angola, estão ao serviço de interesses estrangeiros com o suporte de veículos e estruturas que sonegam a verdade sobre o mundo, tanto por ignorância, quanto como agenda premeditada.
Os cristãos da Venezuela e a vida dos cristãos da Nigéria
Jordan Goudreau, ex-mercenário norte-americano que participou em actos contra a estabilidade da Venezuela, confessou, em Outubro de 2025, a sabotagem, em 2019, de centrais eléctricas, que causou apagões em Caracas, e o incêndio de uma refinaria que resultou na morte de várias pessoas.Foram acções praticadas pela CIA com a participação de sectores da oposição venezuelana. Goudreau, que fez parte do sistema, garante que existe uma estreita relação entre a CIA e a oposição venezuelana.
O jornalista norte-americano Max Blumenthal recorda que Marco Rubio, secretário de estado dos EUA, que afirma “estar a usar o exército contra a Venezuela para impedir que o fentanil envenene o povo norte-americano”, em 2016, “foi um dos principais patrocinadores de um projecto de lei que alimentou a crise dos opioides, impedindo a DEA de investigar empresas farmacêuticas corruptas”. Blumenthal acrescenta que, naquele mesmo ano, Rubio recebeu da Big Pharma um financiamento de 290 mil dólares. Podíamos citar uma infinidade de evidências, inclusive sobre o assassinato de pescadores no caribe, cujas lanchas foram bombardeadas por navios invasores dos EUA.
Por incrível que possa parecer, existirá algum professor universitário e intelectual angolano que classificará como uma ditadura o governo legítimo da Venezuela (sem o devido conhecimento da história dos processos políticos e sociais deste país) e designará como democracia o regime norte-americano, porque a mais alta expressão da democracia liberal sempre foi, de facto, a sabotagem, a mentira, o terror, o roubo, a intimidação, as invasões e o assassinato de civis. E as emissoras de rádio de Luanda não falarão das confissões do ex-mercenário Jordan Goudreau, que trabalhou para a CIA na Venezuela, muito menos sobre as denúncias de Max Blumenthal contra a falácia do governo Trump, sobre a mentira do combate às drogas. Antes pelo contrário, será ouvido o professor universitário a deleitar-se com a atribuição do mais contestado prémio Nobel da paz à opositora do governo da Venezuela, que tal como afirmou Goudreau, não passa de uma peça ao serviço da CIA. Deste modo, a vasta maioria dos ouvintes que depende destes órgãos de informação para vislumbrar o mundo, jamais terá acesso ao contraditório.
Ainda de acordo com Blumenthal, para além de prometer a entrega de todos os recursos naturais da Venezuela aos EUA caso o governo deste país invada o território venezuelano e destitua Nicolas Maduro, Maria Corina Machado foi a proponente do termo “narcoterrorismo”, como tentativa de justificação para um ataque contra o seu próprio país. Segundo o jornalista, os agentes de inteligência dos EUA que produziram relatórios afirmando a inexistência de qualquer relação entre o governo venezuelano e o narcotráfico foram demitidos. Então, Donald Trump adoptou a invenção de Corina Machado e designou o plano para a invasão da Venezuela “combate ao narcoterrorismo”, usando a artimanha da USA Patriot Act criada por George Bush em 2001, no sentido de se esquivar à obrigação de ter de obter a autorização do Congresso dos EUA. Mas esta é apenas uma pequena fracção da natureza sinistra da pessoa a quem foi atribuído o prémio Nobel da Paz de 2025. Por alguma razão, Jean Paul Sartre, filósofo francês anti-imperialista, rejeitou o prémio Nobel da Literatura, com que fora “agraciado” em 1964.
Um dia depois do avião russo Il-76 ter aterrado em Caracas com carga militar para apoio à Venezuela, Trump ameaçou o governo da Nigéria com uma intervenção militar caso as autoridades deste país não tomassem medidas para proteger os cristãos.
A Nigéria tem, de facto, um sério problema de segurança causado pelos actos de insurreição praticados pelo grupo “islamita” radical Boko Haram. o Boko Haram existe desde 2009, com uma lista de vítimas que se estende em milhares de mortos, desalojados e sequestrados, e as suas vítimas são a população nigeriana em geral, tanto cristãos, como muçulmanos. Em 2015, o Índice de Terrorismo Global considerou o Boko Haram o grupo terrorista mais mortífero do mundo. Entretanto, em Janeiro de 2017, Donald Trump tomou posse do cargo de presidente dos EUA, para o seu primeiro mandato, funções que exerceu durante quatro anos. Ao longo deste período, jamais manifestou preocupação pela vida dos cristãos nigerianos.
Actualmente, existem na Palestina cerca de 50.000 cristãos distribuídos entre a Cisjordânia e Gaza. A população cristã nesta região também tem sido vítima de desalojamento e extermínio como resultado de décadas de guerras criminosas causadas pelos sionistas que governam o Estado de Israel, com o patrocínio dos governos do Ocidente, principalmente do governo do próprio Donald Trump. Em 1948, depois da guerra resultante da instauração do Estado de Israel, os cristãos representavam 20% deste país. Actualmente representam menos de 2% em Israel e 1, 2% nos territórios palestinos ocupados. Portanto, antes mesmo que certos sectores da opinião pública comessem a acreditar na compaixão de Trump pela vida dos cristãos da Nigéria, importa referir que, em relação à Venezuela, somando os 70% de católicos aos 14% de evangélicos, trata-se de um país onde garantidamente 84% da população é cristã. Adicionando outras franjas que, sendo cristãos. não se consideram católicos nem evangélicos, a percentagem pode ascender os 90% de cristãos. Logo, o plano de invasão de Trump contra a Venezuela poderá causar a morte de centenas ou milhares de milhares de cristãos venezuelanos. Será que para Trump a vida dos cristãos nigerianos é mais importante do que a dos cristãos venezuelanos? A Venezuela tem as maiores reservas de petróleo do mundo e a Nigéria é o maior produtor de petróleo de África. Será mera coincidência?
O apogeu do “mundo baseado em regras”
No dia 6 de Novembro de 2025, Mark Rutte, Secretário-Geral da OTAN, durante o seu discurso no “Fórum OTAN-Indústria” em Bucareste, Roménia, chegou a afirmar literalmente que “(…) a Rússia não está sozinha nos seus esforços para minar as regras globais. (…) ela está trabalhando com a China, com a Coreia do Norte, com o Irão e outros.”
Em resposta aos pronunciamentos do Secretário-Geral da OTAN, Maria Zakharova, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, pediu a Mark Rutte “que publicasse uma lista com asregras globais que, na sua opinião, Rússia, China, Coreia do Norte e Irão teriam violado”. A diplomata russa solicitou mesmo que a lista completa de tais “regras globais” fosse publicada no site da OTAN, uma vez que, na sua óptica, “ninguém sabe a que regras Rutte se refere”. Zakharova acrescentou, recordando as repetidas vezes na história em que a OTAN violou o direito internacional, citando como exemplo as invasões do Iraque sob falsas justificações, assim como o bombardeamento contra a Jugoslávia.
É claro que a publicação da “lista das regras globais” se trata de uma tarefa impossível para o Secretário-Geral da OTAN, porque simplesmente essas regras não existem. A existirem, não são válidas para o Ocidente e, mesmo assim, o Ocidente vai alterando-as com o “carro em andamento”. Ou seja, ao seu gosto e conforme os seus interesses.
Constitui um autêntico absurdo ver o Secretário-Geral da OTAN a dirigir críticas contra a relação da Rússia com a China, quando a própria União Europeia, organização da qual fazem parte um grande número de Estados membros da OTAN, tem décadas de relações com a China. A título de exemplo, as trocas comerciais entre a China e a União Europeia em 2024 atingiram o valor de 785,8 bilhões de dólares norte-americanos, representando um crescimento de 0,4% em comparação com o ano de 2023.
Por outro lado, no dia 30 de Novembro do corrente ano, teve lugar em Busan, Coreia do Sul, um encontro entre Donald Trump e o presidente chinês Xi Jinping, onde o presidente norte-americano teve de ceder, face à resistência da China em meio à guerra comercial desatada por Trump. A recente medida adoptada pelo governo chinês, de estabelecer o controlo das exportações de terras raras e de uma ampla gama de tecnologias críticas, foi um golpe duro para a indústria dos EUA e da Europa. Outro facto relacionado é a informação posta a circular a 7 de Novembro, que dá conta de que o governo holandês cedeu igualmente e está disposto a devolver o controlo da empresa Nexperia aos chineses, caso Pequim permita a retoma das exportações de chips. Vale lembrar que, a 13 de Outubro de 2025, sob pressão dos EUA e de sectores de dentro da UE, o governo holandês nacionalizou a sucursal europeia da empresa chinesa Nexperia. Em resposta, a China bloqueou o fornecimento de matéria-prima para essa empresa. Como resultado, a Nexperia-Europa perdeu 70% da capacidade de produção de chips e baterias, o que colocou as indústrias do Ocidente em estado de pânico geral.
Neste contexto, o Secretário-Geral da OTAN, Mark Rutte, o mesmo que, do alto do seu proselitismo, considera que a China tem trabalhado com a Rússia para “minar as regras globais”, não proferiu nenhuma crítica contra o encontro de Donald Trump com o presidente chinês, Xi Jinping, assim como não é conhecida a sua opinião em relação ao choque de realidade sentido pelogoverno holandês (por sinal seu país de origem) cogitar a possibilidade de anular a nacionalização da Nexperia e devolver o controlo da empresa aos chineses.
O porquê deste silêncio?
A civilização das liberdades e dos direitos
A nível das grandes conquistas civilizacionais no campo das liberdades e do Direito, para além dosfactos já mencionados, entendemos ser importante atermo-nos ao seguinte:
Depois do início da Operação Militar Especial russa na Ucrânia (respaldada pelo direito internacional, além de décadas de jurisprudência produzida pelo próprio Ocidente), os países da OTAN têm estudado formas de se apropriar dos activos da Rússia que se encontram em bancos ocidentais, tendo a Bélgica a maior quantidade de dinheiro deste país. Considerando a inexistência de qualquer instrumento legal ou decisão judicial que sirva de base para a referida medida, a apropriação das reservas da Rússia por parte do Ocidente nestas circunstâncias constitui um acto de roubo, do qual nem a Alemanha nazista foi alvo, e que poderia gerar consequências sem precedentes em todo o sistema financeiro internacional.
Os argumentos de dentro da União Europeia, que tentam justificar o roubo dos activos da Rússia, oscilam entre a necessidade de se financiar a capacidade militar da Ucrânia, ao fundamento de que a Rússia tem de pagar pela reconstrução da Ucrânia. Porém, as vezes em que tais medidas foram tomadas na história foram contra países derrotados em guerras (por isso obrigados a indemnizar os vencedores) e com base em documentos com validade jurídica. O que não é o caso da guerra da OTAN contra a Rússia na Ucrânia.
Foi neste contexto que, no dia 3 de Outubro de 2025, durante uma conferência de imprensa a propósito da libertação de reféns israelitas, o jornalista italiano Gabriele Nunziati questionou aporta-voz da Comissão Europeia, Paula Pinho ‒ tendo em conta que a mesma teria dito “várias vezes, que a Rússia deveria pagar pela reconstrução da Ucrânia”‒, se de igual modo considerava que “Israel deveria pagar pela reconstrução de Gaza”, visto que a Faixa de Gaza e toda a sua infra-estrutura tinham sido destruídas. A porta-voz da Comissão Europeia respondeu afirmando que a pergunta era interessante, “mas que não iria comentar sobre o assunto”.
No dia 27 de Outubro, o jornalista Gabriele Nunziati foi demitido da agência de notícias Agenzia Nova, que se justificou, dizendo que a pergunta feita pelo jornalista à porta-voz da Comissão Europeia foi “completamente inadequada e imprudente”, acrescentando que a questão colocou a senhora numa “situação embaraçosa”.
Em termos de liberdade de comércio, o governo francês pediu à União Europeia o banimento das plataformas de comércio electrónico chinesas, Shine, Temu e Ali Express. Para além da França, as autoridades alemãs também têm expressado hostilidade contra os referidos sites de venda chineses. Os argumentos apresentados são diversos. Porém, a verdadeira razão é a dificuldade de as empresas retalhistas europeias fazerem frente à capacidade de oferta das plataformas de venda chinesas, bem como a grande adesão dos cidadãos aos referidos serviços.
Como podemos constatar, livre mercado, concorrência, competitividade e não ingerência estatal na competição entre empresas são regras válidas somente quando empresas europeias pretendem exercer actividade em África, na Ásia ou na América-latina.
Porem, órgãos de comunicação e alguns “intelectuais” angolanos reproduzem com leviandade os estigmas criados por sites americanos e europeus, contra governantes de países que não prestam vassalagem ao Ocidente, sem ao menos exercerem o mínimo contraponto analítico. É a guerra das percepções. Infelizmente, alguns actores sociais angolanos ajudam a deformar as mentes e a mundividência de milhares de ouvintes, telespectadores e cidadãos sobre o que realmente ocorre no mundo fora da Caverna de Platão.
Epílogo
O olhar deturpado sobre as Relações Internacionais contemporâneas, em Angola, tem a sua origem na cultura da sonegação da verdade objectiva, inculcada por uma imprensa viciada pela linha editorial das agências ocidentais, mas também pela ausência da academia nos principais debates sobre questões importantes, como por exemplo o silêncio das faculdades de economia em relação àimposição dos dogmas neoliberais e suas consequências na vida da população, um vazio que acabou por ser preenchido por propagadores do fundamentalismo de mercado, demagogos despidos de qualquer sentimento de pertença à pátria angolana, por isso sem interesse no bem-estar social. Esta combinação de factores, à qual se adiciona um certo complexo de inferioridade, que faz com que certos angolanos ainda associem o sotaque de um comentador à uma suposta qualidade ou credibilidade das suas ideias, levou a que fosse normalizada a aceitação social da “síndroma de Estocolmo” e a conformação com um gueto cognitivo, que impede a maioria dos cidadãos de atingirem a luz capaz de desenvolver uma visão do mundo que atenda os interesses colectivos de Angola.
O mundo está num processo de transformação acelerado e irreversível. Ao invés da convergência de inteligências para a consolidação de um lugar afirmativo para Angola no quadrante internacional, com o suporte de alianças correctas para a concretização do progresso, o que temos visto a proliferar são actores sociais que trabalham para a submissão das mentes do povo e para a subalternização do país. Estes actores sociais que pretendem reeditar a história da escravidão e da neocolonização representam uma séria ameaça para o presente e para o futuro colectivo dos angolanos. Com os referidos “actores” do estrangulamento, torna-se quase impossível conduzir a sociedade angolana a bordo do comboio de alta velocidade que parte em direcção ao futuro compartilhado, tal como o fazem outras nações e povos do mundo multipolar.
O olhar equivocado sobre as Relações Internacionais, além de constituir uma enfermidade social causadora de uma mundividência destorcida da realidade fáctica, também propicia a proliferação de equívocos e até mesmo de quintas-colunas infiltrados em estruturas nacionais de diversos níveis e natureza, que se predispõem a servir o interesse externo.
Por mais que possa parecer tratar-se de uma condição da esfera individual, o fenómeno pode explicar o facto de uma determinada força partidária que tenha na sua génese a identidade da Esquerda, compor um governo que adopta políticas de direita que afectam gravemente as populações. O mesmo se pode dizer das causas que levam a que uma organização política opositora, de um país africano (marcado por séculos de escravatura e colonização), faça parte de um espectro ideológico que abarca a direita reaccionária do Ocidente e da América-latina, sendo inclusive simpática com políticos europeus de extrema-direita e claramente racistas, como o caso do político neofascista português que encontra alguma simpatia em sectores da oposição angolana, repetindo-se o passado de aliança com o regime segregacionista do apartheid.
Deste modo, esta desorientação cognitiva sobre as relações internacionais propicia a armadilha do relativismo ideológico, ou mesmo da emersão de uma espécie de “aideologismo”, terreno fértil inclusive para o revisionismo histórico e todo o tipo de manipulações psicossociais.
“Domestic policy can only defeat us; foreign policy can kill us (a política interna pode apenas derrotar-nos; a política externa pode matar-nos) ´´ – John F. Kennedy.
08 de novembro de 2025
*Orlando Victor Muhongo
(Doutor em Estudos Globais e Analista de Relações Internacionais)










