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Os que mandam em nós têm demonstrado, em meio século de gerência da terra, uma gritante incapacidade de fazer feliz os seus semelhantes. Por ignorância ou puro egoísmo de poder.
1-Tal como uma boa parte dos angolanos, tenho as minhas reservas sobre as grandes reuniões continentais, do género desta que juntou, esta semana, em Luanda, os líderes de África e da Europa. E sobre o que lá se trata e decide, sobretudo sobre as questões climáticas e da solidariedade dos poderosos do mundo para com os africanos. Tenho boas razões para duvidar.
2-A felicidade está a chegar! Vozes incredíveis anunciam. É o cúmulo continuarmos a embarcar nessa falácia! Questione-se antes, se a felicidade está a chegar para quem. Depois, tente-se, nesse contexto, saber que tipo de felicidade é essa de que se fala tanto e que, apesar de todas as evidências, ainda faz sonhar milhões de angolanos. A resposta virá, como chega a mim, em formato de grande dúvida.
Desconfio, temo mesmo a certeza, de que a tal, a dita cuja, não é mais que um sonho difícil de se concretizar. Todavia, não impossível de realizar. Desde logo, porque a vida é imparável. Daí, o reparo incontornável. Contrariando o raciocínio enganoso de certas pessoas, a felicidade que se almeja para nós e para o nosso povo não pode ser comparável àquela que já é usufruída pelos indivíduos que a apregoam. Naturalmente, os mandantes e os seus arautos, os mestres da mentira. Porque esses camaradas, contados num número razoável de cidadãos, já chegaram ao cúmulo do contentamento e da satisfação, sem terem precisado de tanto tempo de espera. Há muito que desfrutam de tudo quanto compõe a sua cesta básica, a essencial da felicidade.
A situação que se promete estar a caminho, não vai transformar do pé para a mão o coitado do povo angolano numa comunidade feliz. Saudável, escolarizada, licenciada, trabalhadora e patriota. Não! Que se afastem os sonhos, os contos milagrosos! Não tenhamos ilusões de que, surjam ou não mudanças, continuarão, com uma ou outra transformação de remedeio, a ser aplicados os métodos adoptados pelos que há meio século decidem o presente e o futuro dos cidadãos angolanos. A igualdade não é viável sem democracia. Este é um princípio da Escola das Nações Livres. Entre nós será quase impossível adoptá-lo porque, dos livros que nos regem, consta apenas uma rígida directiva: quem manda pode e quer, e deve ter mais do que os que obedecem. De acordo, tudo bem, nesse capítulo! Porém, nesta terra as diferenças são abismais, as coisas por cá acontecem com desequilíbrios assustadores.
Para além do mais e, não obstante, os que mandam em nós têm demonstrado, em meio século de gerência da terra, uma gritante incapacidade de fazer feliz os seus semelhantes. Por ignorância ou puro egoísmo de poder. Fica-se com a sensação de que nos seus compêndios de aprendizagem constam apenas matérias sobre o método unipessoal da felicidade, só estendido aos da sua estirpe ou a gente da sua estrita confiança. Falo de uma minoria que só pensa em si própria e nas suas famílias, com extensões a alguns compadres e servidores fiéis, em nada desiguais dos escravos romanos da era de Nero e Marco Aurélio, uns centuriões que abençoavam os chefes na hora de serem sacrificados.
Face ao que fica dito, levanto a voz para duvidar, para me mostrar desconfiado dessa tal felicidade. Porque a realidade vai descobrindo um quotidiano inquieto, onde, sob natural desconfiança do povão, a razão tende a cair sempre para o mesmo lado, o da tragédia. Os que se dizem estar do lado contrário, encontram-se aglomerados numa minoria irritante, moralmente enfraquecida, desacreditada por natureza. Está destinada a desaparecer, se tivermos em conta a unanimidade que passou a imperar com mais clareza na área dos três poderes estabelecidos.
A presença da intelectualidade como aliada natural, parece ter-se extinguido, como lume de fogueira que se apaga na vida da Nação angolana. Ela é praticamente invisível, quase inexistente. Salvas raras e marcantes excepções, salientam-se pela sua inoperância crítica, assente na consciência de que a maioria não tem consciência. São deprimentes as suas escolhas, a sugerir comités que contra a situação dizem sempre não, estamos bem, graças a Deus. Reúnem-se em grupos de gente “sem voz” ou doutros com comportamento e designação semelhantes.
Perante tal situação, o que poderão fazer os mais de trinta milhões de cidadãos que têm da felicidade ideia precária, nula, ou quase nenhuma? Esses mais de trinta milhões que integram muitos indigentes e analfabetos, contentar-se-ão com as migalhas habituais, hão de cantar e dançar quando o rancho for melhorado e continuarão a ter ideia rara do valor do trabalho, da importância da escola dos filhos e da serventia da saúde pública.
De qualquer modo, no meio de tudo isto, há uma coisa de que não duvido. Ao ritmo que anda a nossa vida e diante das perspectivas que se desenham no mundo global e se vislumbram no nosso horizonte, continuarão a escassear coisas, ao som da balada que bem conhecemos. Quer as promessas, quer os sonhos por onde viajamos há décadas. Assim, e por tudo quanto o tempo regista, temos toda a legitimidade de não acreditar num governo que não cumpre o que promete ao seu povo. É por tal facto que não me coíbo de perguntar novamente. Terei eu tempo de beneficiar em pleno, das benesses que se apregoam? De jovens e adultos bem formados, dos aeroportos, dos hospitais, dos complexos agrícolas, do turismo, dos combustíveis baratos, de uma pensão de reforma condigna? Não tenho ilusões. O meu caminho está prestes a chegar ao fim, envolto num cerrado cacimbo de desilusão. Afinal quem come em bons restaurantes, assiste a bons espectáculos e viaja de avião neste país? Quem consegue consulta nos hospitais de primeira linha? Quem ganha ou prospera com agricultura familiar? Quem tem capacidade de fazer turismo? Os mesmos de sempre, está claro! Talvez as próximas cinco gerações de angolanos consigam uma relativa felicidade. Exagero? Olhem que não, senhores doutores, olhem que não!
A felicidade está a chegar! Dizem isso e aplaudem os que já são felizes, os que plantaram e semearam nos seus quintais e nas suas chitacas a esperança onde germina a tal felicidade. Eles já provaram o seu sabor, os seus sonhos estão praticamente realizados, não se comparam aos nossos e aos dos nossos filhos e netos. Aos que se limitam a esperar eternamente.
Como pertenço à classe dos tipos sem jeito para certos papéis, limito-me a estar aqui, enquanto puder. E enquanto posso, envio os habituais cumprimentos, despedindo-me da minha gente, dos meus amigos, parentes e leitores fiéis. Prometo voltar no próximo domingo, à hora do matabicho.
Forte da Casa, Portugal, 30 de Novembro de 2025











