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Perante essa modernidade que até dá gosto apreciar, verifico com tristeza, tenho de o admitir, que o mais importante já não é resolver os problemas do povo.

Esta crónica começou a ser escrita na manhã do 11 de Novembro. No início do dia em que celebrávamos o Cinquentenário da nossa Independência Nacional. A Festa que, durante largos meses, idealizamos incomparável, foi-me sendo mostrada pela luz e pelo som da grande reportagem da TPA Internacional. As imagens obrigaram-me a meditar, recordar e, nalguns momentos, até a chorar. O desfile cívico, mexeu comigo, a música e a passada elegante do semba, sem exageros, estiveram a meu gosto. Da exposição bélica, nem tanto.
Inevitavelmente, entrei no mundo da premonição de nascer, fui levado pelo ritmo das lembranças dos cinquenta anos passados, no embalo de tantos dias contados. Lembrei-me especialmente daquele começo de noite inesquecível. Em que se entrou devagarinho, com todos os cuidados, a aguardar o momento solene. Ouviam-se, a espaços, os sons das armas que ali perto, em Kifangondo, com as quais os mans da cobardia teimavam em impedir a nossa Festa. O Povo estava determinado, traçava-se o rumo do País. O Largo acolheu a multidão, éramos milhões e contra milhões ninguém combatia. Confiava-se no destino e o Largo ficou a ser, depois da meia-noite e para sempre, o Largo da Independência. Perdurou a lembrança do momento em que o Presidente Agostinho Neto proclamava perante a África e o Mundo, a Independência de Angola. Depois, o mítico Largo serviu, também, durante os anos que se seguiram, como refúgio dos trabalhadores que rejubilavam em Maio, sonhando com a aliança operário-camponesa. Nunca passou pelas suas mentes revolucionárias que o Largo ganhasse, não tardaria – os cinquenta anos depois e tantos dias passados confirmam isso – o ar moderno da burguesia, brilhante de luzes coloridas e resplandecente na simetria dos seus repuxos de água. E, perante essa modernidade que até dá gosto apreciar, verifico com tristeza, tenho de o admitir, que o mais importante já não é resolver os problemas do povo. Agora, é hora doutras palavras de ordem. Viva o progresso, a economia de mercado, viva o desenvolvimento. Que se lixe quem é pobre!
A momento dado, tal como diria Adolfo Maria, ponho-me a pensar, em voz alta, sobre o caminho que estamos a seguir. Não será, de modo nenhum, o caminho longe para São Tomé que a voz de Cesária Évora imortalizou no seu incomparável álbum “Sodade”. Mas é, sem dúvida nenhuma, o caminho que percorremos em trânsito equivocado, tortuoso, nestes tempos duros, mas maravilhosos apesar de tudo. Provavelmente, um caminho de sítios lindos, mas que está a ser demasiado longo e extremamente difícil. Não será, tenho a certeza, como aquele por onde David e Salomão caminharam na Terra Santa, embora se sinta, através de estranhos sinais, que é preenchido por uma infinidade de escolhos, por armadilhas subtis, nalguns casos, de enormes perigos. Dos que obrigam a reflectir e a hesitar, já que solicitam do povo, evidentemente, tremenda paciência e muita coragem.
Não! Não estou a pensar em Jerusalém, muito menos na Faixa de Gaza. Porém, apesar de os 50 anos da Dipanda nos insuflarem a alma de vaidade, festejamos a efeméride, cada um com a sua alegria, cada qual com o seu sentido orgulho. Mas com cada pessoa a ter a sua visão da festa, a falar consigo mesma, segredando frases para o seu íntimo. Sinal de democracia impaciente de mostrar-se, mas que há de vir? Oxalá que seja! Mas este é um sinal que vai dizendo, assim, para os que querem ouvir: “há coisas que vão acontecendo e se consolidam de tal modo que, nos obrigam a sentir a vida, como a sente qualquer desterrado”. Vade retro Satanás! Nunca serei como um palestiniano, se Deus quiser. Estes, coitados, ganham todos os dias coragem e resistência. Merecem um Nobel. Não o da Paz que os senhores donos do mundo, sem vergonha, anseiam descaradamente. Eles merecem, há muito, o da Coragem, o Prémio que não lhes escaparia, de modo nenhum, se houvesse justiça no mundo.
Falo assim, equivocadamente ou não, mas movido por uma tremenda dor. Há razões para isso. Falo, em virtude de se terem instalado na nossa sociedade elementos que fazem adivinhar um totalitarismo estranho. Maroto, escondido, mas bem visível. Estarei enganado, ou talvez não, mas tenho para mim, que se radicaliza, no nosso meio, silenciosamente, uma sociedade totalitária e inviável para nós.
Eu não queria viver numa favela e seguir a legítima pretensão do Gabriel, o Pensador, o tal que, tempos atrás, também sonhou. Foi o artista inimitável que, todos os que lhe quiseram seguir a tendência, desconseguiram chegar lá. Eu, cá por mim, queria apenas viver numa sociedade mais aberta socialmente, não como esta que se torna terrivelmente melancólica e triste quando se imagina, no meio de constantes barbaridades, que em ambiente faminto, estamos a festejar desta maneira o meio século da nossa Independência. Viva Angola! Que venha a Festa e que esta seja rija! Como no Carnaval, onde o que sobra vai no mar! Cantavam a Fineza e os Invejados.
E como acontece nos Carnavais, tudo, ou quase tudo, acaba na quarta-feira. Neste ano do Cinquentenário não fugimos à regra. Assim, e lembrando Vinícius, vejo-me forçado a cantarolar:
Tristeza não tem fim,
Felicidade sim…
À hora em que despacho este correio confirmava-se conseguida de facto, a proeza de se trazer Messi e seus companheiros argentinos a Angola. Vi imagens dos campeões do mundo a passarem pelo protocolo do Aeroporto e do Ministro dos Desportos a encorajar a nossa rapaziada. Como se fossem disputar o jogo das suas vidas. Depois foi o jogo, o alimento de uma plateia tristonha, a assistência e o golo de Messi. Era tudo o que se pretendia. Era natural que estivesse no programa da Festa. Não deu para registar mais e, por isso, deixo a segunda parte desta crónica, para a semana que vem. Talvez sob outra epígrafe. Depende do que verei durante a semana.
Com os meus cumprimentos e com votos de que a Dipanda tenha sido saboreada à maneira, espero por todos vós, meus leitores, camaradas e companheiros de luta, no próximo domingo, à hora do matabicho.
Forte da Casa, Portugal, 16 de Novembro de 2025











