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Um texto publicado há dias no Jornal de Angola, alertou-me para certas questões que, por desleixo – devo admitir – têm merecido de mim pouca ou nenhuma importância. “A internacionalização das literaturas africanas”, tema que o escritor e poeta João Melo analisa no referido artigo, com a competência habitual, diga-se de passagem e em boa verdade, é certamente assunto do maior interesse para quem se envolve a sério no fantástico mundo da literatura, mas que passa ao lado de indivíduos como eu, que se descuidam no estudo e apreciação de alguns dos seus fenómenos.
Assumindo o lado negativo da questão, sou obrigado a perguntar. O que quererá dizer isto? A resposta é óbvia. Sou mais um entre alguns outros que, não sendo profissionais, se dedicam à escrita e até são considerados escritores, mas que, por variadas razões, se alheiam dos assuntos essenciais da cultura das letras, como é, por exemplo, esta questão da expansão da literatura pelo mundo. Haverá certamente outros, não sei se muitos, se poucos, nas mesmas condições que enfrento e a apresentar as mesmas dificuldades!
Descendo à profundidade do caso, noto, nesse particular que o João belisca, transparecer uma cruel realidade que, por sinal, até não é assim tão desconhecida. Não são estranhas as vias mais ou menos tortuosas pelas quais se consegue a entrada dos livros africanos nos mercados literários mundiais. Perfeitamente enquadradas no eterno fenómeno da África desconhecida e misteriosa, as literaturas africanas e seus autores, com o seu reduzido número de representantes da língua portuguesa, vão sendo descobertas e divulgadas. Internacionalizam-se, e obedecendo a determinados interesses, os estilos vão passando pelas criteriosas críticas, suscitando o mesmíssimo interesse que provocam nos negociantes das terras raras e dos metais preciosos existentes no nosso continente.
De repente descubro que sou parte desse número de angolanos que escreve por escrever e que volta e meia é obsequiado com o título de escritor. Que sou, provavelmente como os demais, sensível ao facto, mas que não deixa de aceitar como verdadeiro, o exercício masoquista de querer infringir dor em si próprio, como o faço agora. Na verdade, é aqui que radica o cerne da questão que destaca a questão inevitável. Se não são conhecidos na sua terra, como é que os escritores nas condições atrás descritas, podem ver o seu trabalho apreciado além-fronteiras?
Em Angola prevalecem muitas coisas más no que ao livro diz respeito. Entre muitas, um vazio na área da análise do trabalho de quem escreve. Dispensável nos autores com nome feito, cuja avaliação já é feita naturalmente por quem os edita há tempo considerável, não acontece o mesmo com os novos, os que pretendem ouvir ou ler opinião do público sobre o que realizam nesta matéria de comunicar através do livro. É evidente que a lacuna tem várias facetas, partindo, desde logo, da edição, lançamento e circulação das obras dos que se apresentam sem rótulos.
Não me move qualquer outra intenção que não seja a que expresso. Já terei falado do assunto, tantas vezes tenho, ao longo destes anos, tentado ajudar. Não me incomoda voltar ao tema. Tenho para mim, que a principal razão deste problema, é o facto de não ter sido instituída, como devia, e na base de regra obrigatória, a crítica literária. Nas instituições de ensino, a vários níveis, na comunicação social e em organismos como a Faculdade de Letras e a União dos Escritores Angolanos. Evitar-se-iam, entre outros pecados, falsas expectativas nos autores que vão aparecendo e melhorar-se-ia, claramente, a qualidade de muitos outros textos.
Iniciei na escrita aos 50 anos. Portanto, há 31 anos que a encarei como um acto normal, um exercício que me dá muito prazer. Não há diferença grande entre a minha forma de falar e conversar, de contar coisas, e o que consigo, de algum modo, passar para o papel. Lembro-me de a saudosa dra. Gabriela Antunes se ter referido ao meu primeiro livro como uma boa redacção da quarta classe. Tirando uma observação feita na altura do lançamento pelo meu querido pai, foi a primeira crítica que obtive. Não obstante, meses depois, era admitido como membro da União dos Escritores Angolanos. Justamente? Não sei. Nunca frequentei encontros, nem sequer participei nos normais cursos de escrita criativa. Habituei-me sim, a ler muito, a ler bons autores e a saber, segundo a minha perspectiva, distinguir um bom livro de um texto mal elaborado. Com isso, tentando sempre melhorar a qualidade da minha escrita. O que na verdade me tem faltado, e falta certamente a outros que como eu se aventuram nesse difícil mundo de comunicar, é a crítica dos que sabem analisar o que leem. Houve tempo em que os jornais, principalmente, tinham ao seu trabalho, gente habilitada para essa função. Foi há muito tempo. Hoje é difícil ler ou ouvir em qualquer órgão de comunicação, comentário ou opinião sobre trabalho, obra nova de alguém que se abalance a expor o seu talento a público. Não se corrigem erros evidentes. Entrevistam-se autores, pouco se sabe dos editores, fala-se muito, mas não se faz verdadeira crítica literária. Os amigos falam bem uns dos outros, o que é natural, mas nem sempre há coragem para classificar devidamente a obra que sai para consumo público. Para ajudar quem (ainda) compra livros e, sobretudo, melhorar a prestação dos autores.
Porque não se criam então condições no Ministério da Cultura, via União dos Escritores Angolanos ou qualquer outra instituição, a organizar núcleos de autores e críticos literários ligados a Angola e à sua literatura, para através de um regime particular e remunerado (com o Estado e/ou as grandes empresas a garantir através do Mecenato), serem colocados ao serviço do melhoramento da literatura nacional? Utópico? Talvez. Nomes? Pepetela, Luandino, Manuel Rui, Luís Kandjimbo, João Melo, Adriano Mixinge, Irene Guerra Marques, Rita Chaves, Carmen Lúcia Tindó, José Luís Mendonça, Francisco Soares, José Eduardo Agualusa, Lopito Feijó, Inocência Mata, Pires Laranjeira, entre muitos outros, não ajudariam nessa tarefa?
Mesmo que pareça descabida – a questão de os angolanos não lerem ou terem difícil acesso ao livro, não deixa de constituir um falso problema – não deve ser desconsiderada a proposta. Não se irá certamente resolver o problema, mas poder-se-ia dar um passo interessante na descoberta de potencial escondido nos meandros da escrita literária do nosso país. Na história que se vai contando sobre o que fomos e o que somos. Deixaríamos, provavelmente, de ver o crescimento assustador da mediocridade, e de pensar em miragens como a CPLP que, neste domínio, nada contribui. Nem sequer na ajuda à circulação favorecida do livro no espaço lusófono. Talvez, por arrasto, deixássemos de sentir a confrangedora sensação de menoridade que sentimos, ao constatar que as poucas traduções e publicações que se conseguem, beneficiam do patrocínio do Instituto Camões e do governo português, tal como o João denunciou.
Confesso que abordei este assunto, sem o querer fazer. Com tanta coisa que há para se dizer, porque escolher um assunto que, infelizmente para quem não devia, não merece qualquer importância? Na verdade, tudo isto poderia ser dito com outra objectividade e eficácia, mesmo nos pronunciamentos dos políticos e seus seguidores. Comigo, o pensamento foi discorrendo. Quando me dei conta, estava a dar plena razão ao João Melo. É necessário fazer-se mais qualquer coisa. Se não der, que fiquem, ao menos, as ideias. É sobretudo necessário que nas discussões políticas que se soltam a esmo, a par das necessidades mais prementes que temos, se fale, com outra consistência, da escola, do livro e de quem os faz. Essas discussões estéreis que se fazem por aí, traduzem-se quase todas em conversa fiada, sem qualquer serventia, apenas vai interessando aos que vêm nelas, proveitos para si próprios. Como poderiam ser mais úteis ao povo e à juventude se falassem todas, um pouco que fosse, da necessidade da escola e do livro!
Com os meus cumprimentos, aqui estou eu a despedir-me dos meus leitores, dos meus companheiros de luta e amigos. Até ao próximo domingo à hora do matabicho.
Fernão Ferro, Portugal, 20 de Julho de 2025
