
Se o processo avança sem sobressaltos não é porque o sistema se humanizou, mas porque já se concertou quem paga e quem se salva.
Vou dizê-lo sem rodeios: isto não é sobre Maduro. É sobre quem geriu o seu final e para quê. Quando um presidente é feito prisioneiro e não há caos interno nem fractura visível na cúpula, quando não há histeria militar nem sangue nas ruas, estamos perante uma operação controlada. As revoluções reais são ruidosas. As transições concertadas são silenciosas.
Aqui não há heroicidades nem epopeia. Há negociação fria. E a negociação não se faz com o povo, faz-se com a elite que garante a ordem. Quem acredita que os Estados Unidos — ou a estrutura que marca a regra — procura justiça, democracia ou reparação histórica, não compreendeu como o poder funciona. O que se procura é estabilidade, acesso a recursos e encerramento de um ciclo incómodo. Tudo o resto é cenário.
Por isso insisto: o elemento chave é a traição funcional do meio do Maduro. Não ideológica, não moral: funcional. A traição que se dá quando se compreende que o regime já caiu e que é melhor reposicionar-se do que resistir. É aí que entram nomes concretos, não por conspiração, mas por lógica de poder: Delcy Rodríguez, Diosdado Cabello, Vladimir Padrino López. Não como salvadores nem como demónios, mas como gestores da aterragem.
O pormenor verdadeiramente inquietante, para mim, não é um vídeo nem uma divulgação indevida. É a calma reveladora. A calma de quem já sabe que não vai cair no vazio. A calma de quem recebeu garantias. Ninguém fica tranquilo no meio de uma tempestade se não tiver um refúgio concertado. Essa serenidade não é inocente, é estratégica.
E aqui vem o mais incómodo: as transições tuteladas não libertam países, reordenam-nos. Mudam a narrativa, redistribuem o poder, branqueiam uns e sacrificam outros. O cidadão não entra na equação mais do que como álibi. Promete-se-lhe um futuro enquanto se decide a divisão em gabinetes fechados.
Não se trata de esquerdas ou direitas. Trata-se de quem controla as riquezas, o dinheiro, as armas e a narrativa quando se corre a cortina. E se o processo avança sem sobressaltos não é porque o sistema se humanizou, mas porque já se concertou quem paga e quem se salva.
O resto é ruído. E o ruído é, quase sempre, para que não se olhe para onde se está verdadeiramente a dizer tudo. Continuaremos a informar. Sem anestesia.
4.Janeiro.2026
*Título da Redacção (Tradução de Isabel Conde)
**Jornalista e Escritora (Salamanca)











