TURISMO. ENTRE O POTENCIAL PROMETIDO E A REALIDADE ADIADA

SAMPAIO JÚNIOR

O Presidente da República autorizou um investimento público global de 449 milhões de euros, financiado pelo Mitsubishi UFJ Finance Group (MUFG), destinado ao desenvolvimento de infraestruturas turísticas em Cabo Ledo, Quicombo e Namibe. A pergunta que ecoa em Benguela é simples: por que razão uma província com tamanho potencial turístico ficou de fora?

O turismo em Angola continua a ser apresentado como uma das grandes alavancas para a criação de emprego e o aumento do contributo do sector não petrolífero para o PIB. No discurso, é prioridade estratégica. Na prática, porém, permanece refém de entraves estruturais, decisões selectivas e promessas que raramente saem do papel.

A província de Benguela é um exemplo gritante dessa contradição. Dotada de uma das mais belas e extensas faixas costeiras do país, com cenários naturais de rara beleza como na Baía dos Elefantes, Miradouro da Lua, Egipto Praia, Praia do Jomba, entre outros reúne condições naturais que qualquer destino turístico internacional transformaria em motores de desenvolvimento económico local. Aqui, a natureza fez a sua parte. O Estado, nem sempre faz a sua.

Houve momentos em que se vislumbrou uma visão estratégica para o sector. Antigos governadores como Dumilde Rangel, Isaac dos Anjos e Luís da Fonseca Nunes encararam o turismo como vector de transformação económica, identificando projectos imobiliários e promovendo iniciativas privadas ao longo da orla marítima. Observavam o mercado turístico com a perspicácia de verdadeiros “olheiros”, percebendo que este nicho poderia redesenhar o panorama económico da província. Tinham os olhos postos em territórios ainda intocados autênticos “mares nunca antes navegados”, do ponto de vista do investimento estruturado.

Contudo, as decisões mais recentes do Executivo levantam interrogações legítimas. De acordo com informações divulgadas, o Presidente da República autorizou um investimento público global de 449 milhões de euros, financiado pelo Mitsubishi UFJ Finance Group (MUFG), destinado ao desenvolvimento de infraestruturas turísticas em Cabo Ledo, Quicombo e Namibe. A pergunta que ecoa em Benguela é simples: por que razão uma província com tamanho potencial turístico ficou de fora?

Não se trata de rivalidade regional, mas de coerência estratégica. Se o objectivo é diversificar a economia através do turismo, a exclusão de Benguela do mapa dos grandes investimentos estruturantes soa menos a critério técnico, e mais a escolha política daquelas que raramente vêm acompanhadas de explicações transparentes.

E quando se fala em grandes montantes, a preocupação aumenta. Quem serão, afinal, os principais beneficiários destes recursos? Haverá concursos públicos claros, fiscalização rigorosa e prestação de contas? Ou veremos repetir-se a liturgia habitual dos ajustes directos, onde os mesmos operadores de sempre continuam a alimentar-se do erário, como se o Estado fosse um clube privado de amigos bem relacionados?

O investimento anunciado visa criar pólos de desenvolvimento turístico com infraestruturas básicas, acessos rodoviários, água, saneamento, energia, telecomunicações e iluminação pública, no âmbito do instrumento Planifica Turismo (mais uma nomenclatura que até o diabo já conhece). Em teoria, trata-se de uma base essencial para atrair investimento privado. 

Entretanto, há um dado que não pode ser ignorado, uma nova geração de empreendedores angolanos, muitos na faixa dos 35 aos 45 anos, tem demonstrado dinamismo notável, sobretudo na restauração e serviços turísticos, com recurso ao aluguer de espaços. Este capital humano existe, tem iniciativa e conhece o mercado. O que falta não é talento, é confiança no sistema, acesso justo a financiamento e regras iguais para todos. Sem isso, qualquer estratégia nacional de turismo corre o risco de ser apenas mais um plano elegante arquivado na gaveta.

O Executivo tem promovido Angola como destino atractivo para o investimento turístico, e até celebrou distinções internacionais recentes. Contudo, os prémios não substituem estradas transitáveis, água potável, energia estável, segurança e processos transparentes. Desenvolvimento turístico sustentável não se faz apenas com conferências e brochuras, mas também com obras funcionais, gestão séria, formação permanente de recursos humanos e inclusão real dos empresários nacionais.

O modelo de investimento público para facilitar a entrada do capital privado é, em teoria, correcto. Mas só produzirá resultados diferentes se romper com velhas práticas, favoritismos, opacidade contratual e concentração de oportunidades nos mesmos grupos de sempre. Caso contrário, continuaremos a assistir a concepção e implementação de projectos milionários que enriquecem poucos e deixam as comunidades locais apenas com poeira, promessas e empregos temporários de baixa qualificação.

Benguela não precisa de discursos entusiasmados sobre o seu potencial turístico, porque o mar, as falésias e as praias já anunciam todos os dias. O que precisa é de decisões corajosas, critérios transparentes e investimentos que não fiquem reféns de interesses restritos. Porque, no fim, o maior risco para o turismo angolano não é a falta de beleza natural. É a abundância de planos (…) que nunca saem da paisagem do papel.

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