
No mês em que se celebram flores e postais, eu escolho lembrar uma mulher que não coube em jarros nem vitrines. Sita Maria Valles, nascida em Cabinda, quando o mundo ainda fingia que o império era eterno, filha de Goa plantada em chão angolano, aprendeu cedo que a palavra “fronteira” era uma invenção de quem tem medo da liberdade.
Cresceu entre cidades – Cabinda, ex-Silva Porto (Cuito), Benguela, Luanda – como quem atravessa capítulos de um mesmo livro inacabado, enquanto o Liceu Salvador Correia lhe abria, pela janela das aulas, a visão de um país fendido entre a promessa e o porvir.
Em 1971, quando muitos apenas sonhavam em sair de casa, ela embarcou para Lisboa com vinte anos e nenhum interesse em neutralidade. Inscreveu-se em Medicina, mas o que realmente estudava era o corpo do colonialismo: suas fraturas, seus tumores, suas hemorragias morais.
Nas assembleias estudantis, na UEC, nas reuniões clandestinas, Sita não falava de futuro no condicional; conjugava o verbo “libertar” no presente, na primeira pessoa do plural. O estetoscópio que a esperava nas aulas transformou-se, nas suas mãos, em megafone.
A clínica deu lugar ao comício, e a anatomia que mais a ocupava era a da injustiça. Quando a Revolução dos Cravos desabrochou em Lisboa, Sita estava em Moscovo, no frio do Komsomol, discutindo revoluções que pareciam, finalmente, possíveis.
Soube do 25 de Abril à distância, como quem recebe, pelo telefone, a notícia de que uma velha muralha caiu. Interrompeu os estudos sem drama: para ela, a verdadeira prova final não era uma banca académica, mas a urgência de transformar o mundo.
O diploma que desejava tinha outra tinta: era a assinatura de um povo sobre o próprio destino. Em Junho de 1975, quando Angola se preparava para nascer outra vez, Sita regressou. Não voltou como turista da memória, mas como militante que sabia que cada rua de Luanda era uma frase por escrever.
Entrou no MPLA, assistiu à proclamação da independência em 11 de Novembro como quem ouve o coração do país recuperar o ritmo. Casou-se com José Van‑Dúnem, companheiro de ideias e de risco, e juntos tiveram um filho, João Ernesto, menino de colo, num tempo em que o futuro andava sobressaltado.
Entre fraldas, reuniões e cadernos de estudo, Sita assumiu a tarefa de reorganizar o sector intelectual do partido, tentando semear pensamento crítico num terreno que começava, de novo, a endurecer.
Mas a independência, esse parto tão esperado, veio acompanhada de febres e delírios. As tensões internas foram-se adensando, as linhas de lealdade tornaram-se armadilhas, as palavras “fraccionismo” e “traição” começaram a circular como sentenças. Em 1976, Sita foi afastada do MPLA por ter pertencido a organizações políticas estrangeiras – como se o mundo, de repente, tivesse encolhido e a internacionalidade se tornasse suspeita.
Ela, que atravessara continentes por uma causa, viu a porta bater-se no seu rosto sob o pretexto da pureza partidária. Não desistiu: levou o seu saber médico para o interior do país, vestindo a bata onde já não podia vestir a bandeira.
Então veio 27 de Maio de 1977, essa data que ainda hoje treme nas conversas sussurradas. Luanda acordou com tanques, tiros, listas, rumores. Chamaram-lhe tentativa de golpe, movimento fraccionista, conspiração.
Entre prisões, torturas e execuções sem julgamento, a lógica do medo tornou-se lei silenciosa. Sita foi presa em Junho. Não lhe deram palco para defesa, apenas corredores escuros, interrogatórios e, em seguida, um silêncio que ainda hoje não terminou.
Mataram-na sem sentença lida em voz alta, como se a vida dela coubesse num parágrafo de relatório. José Van‑Dúnem tombou com ela, e João Ernesto ficou órfão de corpo e de palavras.
As ossadas de Sita nunca foram entregues, como se o Estado quisesse manter a guarda até dos seus restos. O chão que a recebeu é incógnito; o mapa do seu último pouso continua em branco.
Mas o esquecimento falhou: o que não se sabe em coordenadas, sabe-se em consciência. Há um lugar, entre a memória e a ferida, onde o nome dela continua inteiro.
Hoje, quando falamos de Sita Valles, não falamos apenas de uma militante comunista, de uma estudante combativa, de uma mulher caída num episódio sombrio da história angolana.
Falamos de uma pergunta. Que democracia é essa que tem medo dos seus próprios filhos? Que revolução é essa que devora aqueles que a ajudaram a nascer? A história de Sita não é um convite à vingança, mas um espelho incômodo.
Obriga-nos a olhar para o 27 de Maio não como uma nota de rodapé, mas como capítulo que precisa ser lido, relido e, sobretudo, compreendido.
No mês dedicado às mulheres, há quem celebre flores, perfumes, vitrines em promoção.
Eu escolho lembrar esta mulher cujos restos mortais não têm morada, mas cuja coragem continua a habitar as perguntas de hoje.
Recordar Sita não é reacender trincheiras ideológicas, é recolocar a vida humana acima das siglas, dos cargos, das narrativas oficiais.
É reconhecer que Angola se fez – e ainda se faz – com mulheres e homens de diferentes convicções, alguns celebrados em praças, outros desaparecidos em valas anónimas. Enquanto o seu nome for dito, haverá uma brecha na muralha do esquecimento.
Talvez um dia encontrem os ossos de Sita, e alguém decida erguer uma lápide com datas e epitáfios. Até lá, o que temos é isto: a responsabilidade de dizer o seu nome em voz alta, de ensinar às novas gerações que a unidade nacional não se constrói apagando rostos, mas reconhecendo-os.
Feliz Março, mulher angolana que ousou enfrentar impérios, dogmas e medos. Feliz Março, Sita Valles: que a tua ausência continue a exigir de nós um país onde ninguém mais precise morrer em silêncio para que a história avance.
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