QUANDO O SUCESSO INCOMODA: CULTURA DE SUSPEITA, ESCASSEZ E O DESAFIO DE CRESCER EM ANGOLA

POR LUÍS SILVA CARDOSO

Não há “algo de doentio” num povo. Há padrões comportamentais moldados por sistemas. E esses padrões podem ser transformados. O desafio não é mudar “a mentalidade do angolano”, mas construir estruturas que tornem o mérito previsível, a justiça consistente e o progresso possível.

Há sociedades onde o sucesso inspira. Outras há onde ele provoca desconfiança, irritação ou ataque. Quando alguém ascende, destaca-se ou é reconhecido publicamente, em vez de orgulho colectivo instala-se suspeita: “Como conseguiu?”, e quase nunca em tom admirativo.

Esse fenómeno não é exclusivo de um país, mas em Angola assume contornos particularmente intensos devido à intersecção de factores históricos, económicos, institucionais e psicológicos que moldaram o tecido social nas últimas décadas.

Este não é um problema moral; é estrutural.

1.⁠ ⁠A dimensão histórica: quando o mérito deixa de ser referência

Durante longos períodos, o acesso a posições de poder, riqueza ou visibilidade esteve frequentemente associado a proximidade política, redes de influência ou estruturas informais de favorecimento. Mesmo quando isso não corresponde à totalidade dos casos, a percepção colectiva cristaliza-se.

Quando a sociedade aprende, por repetição histórica, que sucesso nem sempre é sinónimo de mérito, instala-se uma cultura de suspeita. O êxito deixa de ser inspiração e passa a ser indício de privilégio oculto.

Essa memória social não desaparece rapidamente. Ela molda a forma como se olha para quem vence.

2.⁠ ⁠A dimensão económica: mentalidade de escassez

Em contextos de elevada desigualdade, desemprego estrutural e mobilidade social limitada, o sucesso tende a ser percebido como um jogo de soma zero: “Se ele ganhou, alguém perdeu”.

A escassez gera competição defensiva. E onde as oportunidades são poucas, cada ascensão parece reduzir o espaço dos outros. A inveja, nesse contexto, não nasce apenas de ressentimento pessoal, mas de insegurança material.

Sociedades economicamente mais estáveis tendem a celebrar o sucesso porque ele não ameaça a sobrevivência colectiva.

3.⁠ ⁠A dimensão institucional: culturas organizacionais frágeis

Nas empresas públicas e privadas com baixa cultura de mérito, o trabalhador competente pode ser visto como ameaça e não como activo. O medo da substituição, a hierarquia rígida e a ausência de critérios transparentes de progressão criam ambientes onde:

  — Trabalhar bem é arriscado;

  — Destacar-se é perigoso;

  — inovar pode ser interpretado como insubordinação.

Nesses contextos, a mediocridade torna-se mecanismo de autoproteção colectiva.

Sem instituições fortes, a ética individual raramente é suficiente para sustentar uma cultura de excelência.

4.⁠ ⁠A dimensão psicológica e social: frustração acumulada

O que muitas vezes se manifesta como “ódio” é frustração acumulada. A repetição de experiências de injustiça produz cinismo social. A crença de que “ninguém sobe limpo” transforma-se em mecanismo de defesa emocional.

É mais confortável desacreditar o sucesso do outro do que confrontar a própria impotência perante estruturas que parecem intransponíveis.

As redes sociais amplificam esse fenómeno, transformando crítica em espectáculo e recompensa simbólica. O ataque gera visibilidade. A polémica gera seguidores. O ressentimento encontra palco.

5.⁠ ⁠O risco da generalização

Contudo, há um perigo adicional: transformar essa análise numa condenação identitária.

Não há “algo de doentio” num povo. Há padrões comportamentais moldados por sistemas. E esses padrões podem ser transformados.

Generalizações excessivas produzem autoimagem negativa colectiva, e povos que internalizam inferioridade tendem a reproduzi-la.

Caminhos estruturais para superar o problema

Se a raiz é estrutural, as soluções também devem ser.

1.⁠ ⁠Meritocracia institucional real

  — Concursos públicos transparentes;

  — Critérios objetivos de progressão profissional;

  — Avaliação baseada em desempenho mensurável;

  — Redução de interferência política em estruturas técnicas.

Quando as regras são claras, o sucesso torna-se previsível, e, portanto, legítimo.

2.⁠ ⁠Fortalecimento da justiça e combate consistente à corrupção

Nada destrói mais a confiança social do que a impunidade selectiva. Quando a corrupção é combatida de forma visível e imparcial, a narrativa colectiva muda.

A confiança institucional é o antídoto da suspeita social.

3.⁠ ⁠Educação para cultura de colaboração

Introduzir, desde cedo, práticas que valorizem:

  — Trabalho em equipa;

  — Liderança ética;

  — Inteligência emocional;

  — Valorização do mérito colectivo.

Crescimento sustentável exige mentalidade cooperativa, não apenas competitiva.

4.⁠ ⁠Diversificação económica e expansão de oportunidades

Quanto maior for o número de oportunidades legítimas de ascensão, menor a percepção de escassez.

Economias diversificadas geram múltiplos caminhos para o sucesso. E onde há muitos caminhos, o êxito de um não ameaça os demais.

5.⁠ ⁠Valorização pública de exemplos positivos

É essencial tornar visíveis histórias de sucesso baseadas em competência, inovação e trabalho honesto.

Narrativas moldam cultura. Se apenas o escândalo é amplificado, a suspeita torna-se norma.

Uma reflexão final

Sociedades não crescem apenas com recursos naturais ou infraestruturas. Crescem com confiança.

Confiança nas instituições.

Confiança nas regras.

Confiança de que o mérito pode, de facto, ser recompensado.

Onde há confiança, o sucesso inspira.

Onde há desconfiança, o sucesso provoca ressentimento.

O desafio não é mudar “a mentalidade do angolano”, é construir estruturas que tornem o mérito previsível, a justiça consistente e o progresso possível.

Quando o sistema é justo, a cultura acompanha. E talvez a verdadeira pergunta não seja “por que nos incomoda o sucesso?”, mas sim: “Que condições precisamos de criar para que o sucesso deixe de ser suspeito e passe a ser esperança colectiva”?

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