
Ir a bombas de gasolina à noite no centro de Lisboa é comprar bilhete para assistir a filmes série B e esta semana tive a minha sessão traumática. Quando me dirigi à caixa para pagar, tinha à minha frente três estafetas da Glovo e um impasse agitado. O primeiro na fila não falava português e não reagia ao tom mal educado e arrogante do funcionário, “diga lá, afinal qual é o combustível?“. Perguntou, delicado, “Do you speak english?“, mas levou um soco – “Eu falar inglês, falo. Inglês e espanhol. Mas tu se queres trabalhar em Portugal, é que tens que falar português. Vá lá, qual é o combustível?”. Com a atmosfera pesada, cheguei-me à frente para intermediar a conversa, que só por má vontade não tinha fluido. O rapaz agradeceu e saiu. Avançou o segundo, novo sermão: “Querem vir para Portugal e nós é que temos que levar com isto e falar inglês …”. Terceiro estafeta, terceiro tabefe: “Não ponham ordem nisto, não…”. Até que chega a minha vez: “Qual é o combustível?“. Apeteceu-me responder-lhe “Regular diesel”, mas o tigre tatuado à minha frente pedia pouca conversa. Paguei sem dar confiança, mas sem me livrar da minha dose: “O Ventura é que vai pôr ordem nisto …. Boa noite e obrigada“. Boa noite.
Não há volta a dar. O ódio que chegou à cidade traz etiqueta Ventura, alastra ao dia, invadiu ruas e táxis, contamina os setores mais jovens, é gasolina aditivada para quem está farto disto tudo, e até 18 de janeiro vai piorar. Ele avisou, veio para “fazer desabar o sistema”. E é tão eficaz — não há debate em que não supere o milhão de espetadores –, que mal se começou a ouvir que o que o move é ser primeiro-ministro e que só vai a jogo nas presidenciais para ganhar balanço, ele virou a agulha. Agora a conversa é outra: se o Chega ganhar as legislativas, os dois do centrão não o vão deixar governar, haverá uma geringonça para o travar, e a única forma dele poder abanar a árvore é chegar à Presidência da República. Para isso tem que ganhar as presidenciais e, a partir de Belém, patrocinar uma mudança da Constituição que mude o regime, enterre o semipresidencialismo e ponha, finalmente, o Chefe de Estado a mandar.
Com Ventura, já sabemos como será: irá a Angola chamar corrupto a João Lourenço, ao Brasil chamar nomes a Lula e à Venezuela cuspir em Maduro (milhares de portugueses em jogo, aguentem-se). Mas no Alentejo falará baixinho dos GNR envolvidos no escabroso caso de exploração de imigrantes. Porque a polícia é pura, os imigrantes impuros, os corruptos uma praga, os que mamam no sistema uma pouca vergonha, os ciganos uma carraça, os subsidiodependentes uns calões, os políticos do costume uma treta e, à falta de três Salazares, temos um Ventura.
Se isto não chega para que o país perceba o que de decisivo está em causa nestas eleições é porque o país está doido. O milhão e meio de votos do líder do Chega em legislativas é muito respeitável, mas a maioria maior que não o quis tem que começar a fazer zoom e a focar-se no que verdadeiramente se joga daqui a pouco mais de um mês. E o que se joga – preservar ou dinamitar os valores de um regime que, mesmo com defeitos e mazelas, é um garante intransigente de liberdade e respeito pelo outro – não é coisa pouca.
Gouveia e Melo é menos susto, mas um mês é pouco para apagar o que lhe ouvimos há quatro anos e não esquecemos. Que “a democracia não precisa de militares” e que se o vissem ceder à tentação da política lhe oferecessem “uma corda para se enforcar”. Deus nos livre. Mas é impossível dissipar a ideia de que foi empurrado para avançar por quem nele vislumbrou diferença, interesse e chance, e ainda não encontrou a sua praia. Já sabemos que nunca ameaçará o sistema (está grávido dele), que é um bom aluno (tem progredido a olhos vistos nos debates), que tem pose de Estado e seguramente o discurso mais articulado quando o tema é geoestratégia. Mas o catavento mediático, até ver, é ele. Quer entrar em todos os sacos eleitorais, segue guiões que não domina e frases proclamatórias que se vê grego para desenvolver, já se disse e desdisse, perdeu autenticidade, foi de direita e de esquerda, autoritário e fofinho, desinspira certeza e confiança. Atenção ao Manuel João Vieira – “Estão a apostar mais no boneco do que na substância”.
O que nos espera em janeiro é isto, escolher entre establishment e outsiders. As sondagens puxam dois outsiders para os píncaros (Gouveia e Melo e André Ventura), mas também dizem que um deles (Ventura) tem morte certa no segundo round. O que quer dizer que se as eleições fossem movidas a cérebro, Ventura não chegaria à segunda volta por ser um desperdício. Mas o voto tem razões que a razão desconhece e Ventura é um temível líder de claque. Agiganta-se para o dérbi, cola Gouveia e Melo ao lamaçal de José Sócrates, nomeia fiéis do ex-primeiro-ministro que aderiram à equipa do almirante e vai valer tudo. O seu objetivo é garantir que a cadeira dos outsiders é sua e que Gouveia e Melo é o melhor do establishment para mandar para casa Luis Marques Mendes e António José Seguro e para, então sim, o país começar a ser outro.
Mas há um dado nas sondagens que será burrice não ver. Marcelo Rebelo de Sousa, o Presidente que, mesmo campeão das dissoluções, o país percebeu ser um agregador, garantia de confiança e antídoto contra ruturas insanáveis, está prestes a deixar o palácio com uma invejável cotação acima dos 50%. Com a Europa e o mundo em desordem, as democracias ocidentais em testes de resistência e o país a deslaçar para uma direita anti-sistema, gostar de Marcelo é escolher referenciais confiáveis e minimamente previsíveis. Seguro é um deles, cresceu nos debates e já chama pela esquerda, mas a esquerda está magríssima e afasta o centro. Marques Mendes é o insider melhor cotado, tem um centro-direita encorpado e uma popularidade cimentada em ecrãs, mas há uma direita que não o pode ver. As Festas, embrulhadas em debates, vão ser boas para oxigenar o cérebro.
Preferimos um outsider, um meio outsider, ou um insider de confiança e capaz de lá chegar? Enquanto Sócrates viaja entre o Brasil, a Ericeira e Abu Dhabi, e Marcelo regressa a casa divertidíssimo e a rir baixinho com as horas de conversa nas TV sobre a sua enésima hérnia, convém irmos caindo na real. Vêm aí as presidenciais mais importantes de sempre. E Marcelo só há um.
Até para a semana.
* Jornalista, na sua newsletter semanal – A Vida É Vil – do Expresso











