
RECADOS DA CESALTINA ABREU (60)
“O mundo é formado não apenas pelo que já existe, mas pelo que pode efectivamente existir”.
Milton Santos
A desigualdade social é uma diferença de acesso a direitos, bens ou serviços que gera hierarquias. Distingue-se da simples diferença: é socialmente construída e traduz-se em vantagens para uns e desvantagens para outros. Assim, a vida em sociedade torna-se uma corrida em que nem todos partem do mesmo ponto, nem enfrentam os mesmos obstáculos.
Cabe ao Estado promover a justiça social e combater a exploração, a exclusão e a desigualdade. Mas a “igualdade”, por si só, não basta: muitas vezes perpetua injustiças ao ignorar necessidades distintas. Só a equidade — ao ajustar recursos às circunstâncias de cada um — garante condições e oportunidades reais.
Se a igualdade oferece o mesmo a todos, a equidade distribui, de forma justa, reconhecendo diferenças de partida. É, portanto, o caminho para uma verdadeira igualdade de oportunidades.
Se esta é uma exigência dentro dos países, torna-se urgente pensar a globalização à luz da equidade e, também, da solidariedade. Tal como ocorre hoje, a globalização tende a concentrar riqueza, precarizar o trabalho e ampliar o fosso entre países ricos e pobres, apesar de promover crescimento e conectividade.
A solidariedade é a virtude que nos liga ao outro e ao bem-comum, traduzindo-se em responsabilidade partilhada e acção comprometida. Ao conjugar equidade e solidariedade, aproximamo-nos da ideia de “outra globalização”, proposta por Milton Santos: um processo orientado para a cooperação entre nações e para a garantia de uma vida digna para todos.
Pensar essa ‘outra globalização’ implica enfrentar desigualdades económicas e culturais, mas também acreditar que é possível construir um mundo mais justo e humano — com vontade política e compromisso colectivo.
Uma ideia de ‘globalização solidária’, defendida por diversos movimentos sociais, propõe o uso da tecnologia, da economia e da informação para promover inclusão, dar visibilidade às periferias e fortalecer redes de solidariedade. Articulada com políticas nacionais eficazes, pode atenuar desigualdades e colocar esses recursos ao serviço das pessoas, da sustentabilidade e da justiça social.
O desafio é romper com a lógica de exclusão e construir relações mais justas e equilibradas entre os povos. Entre o que é e o que pode ser, escolhemos agir. Com equidade como prática, e não apenas princípio, e solidariedade como caminho — não excepção —, para que ninguém fique para trás, e a dignidade deixe de ser promessa, tornando-se realidade.
Uma sexta-feira feira com saúde, cuidados e coragem para continuar, porque um mundo justo não se espera: constrói-se, todos os dias.
Kandando daqui!










