PENSAR COM RIGOR, EM TEMPOS DE RUÍDO, É UM ACTO DE CORAGEM

RECADOS DA CESALTINA ABREU (51)

“Hoje em dia, raciocinar já é um acto revolucionário. Pensar com coerência e lógica virou genialidade”.

Esta frase da Mafalda lembra algo cada vez mais raro: pensar com lógica, coerência e espírito crítico tornou-se quase um acto de resistência. Num mundo saturado de informação, desinformação, fake news e “achismos”, parar para reflectir profundamente tornou-se, paradoxalmente, um gesto subversivo.

Durante muito tempo acreditou-se que a ignorância era apenas falta de informação. Bastaria ensinar mais, explicar melhor. Mas surgiu outra pergunta: e se a ignorância também puder ser produzida?

A Agnotologia estuda precisamente isso — a produção deliberada da ignorância. Com método, dinheiro e estratégia, não é preciso convencer: basta instalar a dúvida. Se há dúvida, não há urgência; se tudo parece incerto, ninguém precisa agir.

Esse mecanismo repetiu-se em vários temas — das vacinas às mudanças climáticas — transformando evidências em “debates intermináveis”. A dúvida tornou-se produto; a hesitação, comportamento social.

Como mostrou Michel Foucault, ‘saber’ e ‘poder’ caminham juntos: alguns discursos ganham estatuto de verdade, enquanto outros são empurrados para a margem. Hoje, as redes sociais ampliam esse processo, oferecendo conforto cognitivo: para qualquer crença, há sempre um conteúdo que legitima a dúvida sobre tudo o resto.

Compreender esse mecanismo é uma forma de defesa. Não contra pessoas ou ideias, mas contra as engrenagens invisíveis que moldam o pensar e empobrecem o debate público.

Talvez por isso, o gesto mais subversivo hoje seja, simplesmente, parar. Parar e pensar — com tempo, com profundidade e com liberdade interior.

Porque pensar com rigor, em tempos de ruído, é um acto de coragem. E insistir em fazê-lo, mesmo quando tudo empurra para a pressa, para o simplismo e para a distração, é uma forma silenciosa — mas poderosa — de resistência.

No fundo, talvez seja isso que Mafalda sempre nos recorda com a sua lucidez inquieta: num mundo que prefere respostas rápidas a perguntas difíceis, e o barulho à reflexão, continuar a pensar é já uma pequena revolução.

Saúde, cuidados e coragem para não desistirmos de compreender o mundo — e de o transformar, um pouco que seja, para melhor. 

Kandando daqui.

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