
Angola encontra-se numa transição demográfica e sociológica silenciosa. O sistema político ainda é estável, mas enfrenta exigências crescentes de adaptação.
O debate sobre um pacto de transição ou um pacto de nação em Angola não é um capricho retórico. É um sintoma de maturação política. Revela que parte significativa do meio politizado começa a perceber que o modelo actual enfrenta tensões acumulativas, ainda controladas, mas estruturalmente relevantes.
Contudo, entre reconhecer a utilidade teórica de um pacto e afirmar a sua viabilidade imediata existe uma distância que precisa de ser analisada com frieza.
A distinção necessária
Um pacto de transição é um acordo estratégico entre actores com poder real, destinado a garantir mudança estável, previsível e sem rutura violenta. Surge quando o custo de manter o confronto supera o custo de negociar.
Um pacto de nação é mais ambicioso: pressupõe consenso mínimo sobre regras estruturantes do Estado, prioridades económicas, descentralização, justiça institucional e visão de longo prazo.
A sequência lógica, primeiro estabilizar a transição, depois consolidar um pacto nacional, é coerente do ponto de vista teórico. O problema não está na ideia. Está nas condições.
O estado real das forças políticas
Hoje, o MPLA mantém controlo institucional sólido. Detém a máquina administrativa, influência relevante nas instituições judiciais e alinhamento com as forças de defesa. Não há, até ao momento, fractura interna visível que o obrigue a negociar o poder.
Por sua vez, a UNITA consolidou-se como principal alternativa eleitoral. Cresceu nas áreas urbanas, mobilizou juventude, ampliou legitimidade política. Contudo, ainda não dispõe de instrumentos institucionais capazes de impor uma negociação estrutural, nem apresentou plenamente um programa económico que tranquilize elites administrativas e económicas, quanto à previsibilidade governativa.
Esta assimetria é o núcleo do problema.
Pactos não emergem da boa vontade; emergem de equilíbrios.
O erro de subestimar o momento
Seria prematuro afirmar que Angola reúne hoje condições objectivas para um pacto de transição formal. Não há crise sistémica aguda. Não há colapso económico. Não há impasse institucional. O sistema ainda absorve tensão.
Mas seria igualmente imprudente ignorar os sinais de transformação:
— O país tornou-se maioritariamente urbano;
— A população é predominantemente jovem e pós-guerra;
— O eleitor decide cada vez mais com base em emprego, inflação e qualidade real de serviços públicos;
— A legitimidade deixou de ser apenas formal e passou a ser percepcional.
Em centros como Luanda, a política é cada vez menos histórica e cada vez mais económica.
Desgaste acumulado não produz necessariamente rutura imediata, mas corrói lentamente a confiança institucional.
Aos quadros do partido governante
Ignorar o debate pode transmitir segurança, mas também pode revelar excesso de confiança. Sistemas dominantes são raramente derrubados de forma abrupta; desgastam-se quando deixam de se adaptar.
Antecipar reformas institucionais, reforçar transparência eleitoral e promover maior inclusão política não é sinal de fraqueza. É investimento em estabilidade futura.
A pergunta estratégica não é “porque negociar agora?”, mas “quando a negociação se tornar inevitável, estaremos preparados?”
Aos quadros da oposição
Defender pacto exige mais do que discurso conciliador. Exige:
— Programa económico detalhado e comunicável;
— Garantias de estabilidade institucional;
— Estratégia clara para gerir forças armadas e administração pública;
— Capacidade de construir pontes com sectores que hoje temem alternância abrupta.
Alternância não é apenas vitória eleitoral; é gestão do dia seguinte.
Sem essa preparação, o pacto torna-se palavra mobilizadora, mas não instrumento exequível.
O verdadeiro ponto de equilíbrio
Nas condições actuais, falar em pacto de transição ou de nação é legítimo como visão estratégica, mas prematuro como solução operacional imediata.
Contudo, as variáveis que podem alterar essa equação são claras:
— Agravamento económico;
— Nova redução significativa da margem eleitoral do partido dominante;
— Eventual fractura interna relevante;
— Aumento da pressão urbana e juvenil.
Se essas variáveis convergirem, o debate deixará de ser teórico.
Conclusão
Angola encontra-se numa transição demográfica e sociológica silenciosa. O sistema político ainda é estável, mas enfrenta exigências crescentes de adaptação.
Falar de pactos hoje é um exercício de responsabilidade intelectual. Implementá-los exige condições que ainda não estão plenamente reunidas.
O desafio das principais forças políticas não é apenas vencer eleições. É garantir que, quando a história exigir maior partilha de poder, o país tenha maturidade institucional suficiente para transformar tensão em negociação e competição em estabilidade.
O tempo político não se anuncia, acumula-se.E a lucidez estratégica consiste em preparar o futuro antes que ele se imponha.











