OS MANATINS DO MUNDO

POR JOAQUIM SEQUEIRA

O Manatim (nome científico: Trichechus Manatus), também conhecido por outros nomes, incluindo por peixe-boi e vaca-marinha, é o maior género da ordem dos mamíferos aquáticos sirénios (mamíferos herbívoros) e pertence à família dos triquequídeos. É ainda dividido em duas subespécies: o manatim-da-florida e o peixe-boi-das-Antilhas, com base em estudos genéticos e morfológicos. A subespécie da Flórida é encontrada principalmente ao longo da costa, mas o seu alcance estende-se até ao Oeste do Texas e pelo Norte. A subespécie das Antilhas tem uma distribuição esparsa em todo o Caribe, indo para Norte até ao México e para Sul até ao Brasil. A taxa metabólica extremamente baixa e a falta de uma gordura corporal isolante limita-os a locais com águas quentes, incluindo regiões tropicais. (Fonte: Wikipédia)

O Manatim e as correntes do esquecimento

Há, nas águas mornas da Florida, um manatim que se julga senhor do mundo. Flutua pesadamente nos canais artificiais, com a placidez de quem nunca sentiu a fome a roer-lhe as entranhas ou a rede a rasgar-lhe o dorso. É a espécie do Norte – Trichechus manatus – e engorda à sombra das hélices dos barcos de recreio, sob a protecção de leis que escreveram para ele. Não sabe, coitado, que a sua gordura é à medida do seu cativeiro.

Lá longe, nas águas barrentas da Amazónia e do Orinoco, o seu primo do Sul (Trichechus manatus também, mas outro, mais magro, mais antigo) aprendeu a desconfiar das correntes. Durante gerações, o manatim do Norte enviou os seus efluentes rio abaixo, e o do Sul, curioso e inquieto, precisava de saber. Que planos urdia o primo gordo? Tencionava ele alterar a sua dieta de ervas marinhas? Devoraria ele, um dia, as raízes que alimentavam os filhos do Sul?

Ainda no Sul, nas águas escuras e antigas que beijam as costas de África, onde o mangal tece corredores de raízes e a luz dança em partículas de ouro, nasceu um sonho que a ciência ainda não nomeou: o manatim-africae. Não é o mesmo viajante das Caraíbas, nem o solitário das fontes da Flórida. O manatim-africae traz no corpo liso a cor da terra molhada depois da primeira chuva, e nos olhos pequenos, a profundidade das lendas que os griots contam ao cair da noite. Diz-se que, quando ele emerge, o silêncio torna-se mais denso, como se o mar prendesse a respiração para ouvir o sopro suave das suas narinas. Ele desliza pelos estuários do Senegal ao Congo, guardião de um reino de águas mornas, onde o hálito quente do continente encontra a brisa salgada do Atlântico. A sua pele, mais espessa que a dos primos do outro lado do oceano, segreda histórias de um tempo em que os rios eram deuses e os animais, os seus mensageiros. As manchas no seu ventre não são cicatrizes de hélices, mas sim marcas deixadas pelos dedos da espuma, que o acaricia enquanto ele pasta nos campos submersos de ervas marinhas. O manatim-africae não tem pressa; o seu movimento é o da própria corrente, um poema lento escrito em ondulações na superfície, um elo vivo entre a foz do rio e o coração do mundo.

Não podendo subir ele próprio os rios – pesado, lento, alvo fácil – o manatim do Sul fez o que os sábios fazem: pediu ajuda a quem nada teme. Chamou o cacusso, de escamas finas e memória curta. Chamou o bagre, de bigodes sónicos e coração mercenário. “Ide”, disse ele, “subi a corrente, espreitai o manatim do Norte, trazei-me notícias das suas intenções e do seu ventre”.

E eles foram.

Atravessaram o Canal do Panamá nas noites sem lua, furaram as comportas dos diques, enganaram os sensores de temperatura. Chegados à Florida, rodearam o manatim aparentemente adormecido, escutaram-lhe os arrotos de alface-d’água, gravaram-lhe os roncos de indigestão. Depois, voltaram.

Mas à volta, algo estranho aconteceu. Os cacussos e os bagres não deixaram notícia na Venezuela. Nenhuma. Nem um relatório nas margens do Apure, nem um murmúrio nos deltas do Orinoco ou da Amazónia. Onde os homens esperavam mensageiros, só encontraram silêncio. Entretanto, pela África Central e do Sul, pela costa Oeste, lá foram eles deixando, em surdina, fragmentos do que viram. Um peixe aqui, um segredo ali. Mas ao Brasil, à Colômbia, à Venezuela, ao México, nada.

E assim o manatim do Sul ficou cego, enquanto o do Norte se lhe aproximava.

Não veio como inimigo declarado. Veio em barcos, veio em redes, veio na voracidade felídea dos que nunca aprenderam a saciar-se. O manatim da América Latina foi apanhado desprevenido. A sua carne, tenra de séculos de rio, alimentou os cães do Norte. O seu couro, outrora sagrado, enfeitou botas que pisaram lama estrangeira. Caçaram-no não por fome, mas por hábito.

Entretanto, os manatins africanos observavam.

Um deles, o que habita as águas calmas da Senegâmbia, foi ajudado a sobreviver. Deram-lhe um santuário, um veterinário, um boletim de saúde. O outro, o que pasta nos mangais mais abaixo da Guiné, foi salvo pelas suas juras de submissão. Declarou, em língua de coral, que aceitava os superiores interesses do Norte, que não disputaria pastos, que não ergueria filhotes contra os senhores das hélices. Em troca, deixaram-no viver.

Hoje, esse manatim vive desafogado. As suas águas estão quentes, a sua barriga cheia. Flutua à superfície e pensa que nada, jamais, atrapalhará os seus desígnios de um dia ser um do Norte ou andar pelas suas bordas, comendo restos. Sonha com a Florida, com os canais vigiados, com a gordura bento-benta das vacas marinhas americanas. Não sabe, coitado, que isto nunca ocorrerá.

Porque o Norte não precisa de primos. Precisa de sombra. E a sombra, para existir, tem de ficar atrás.

O manatim do Sul, esse, ainda espera notícias que nunca chegam. Os cacussos, entretanto, desovam nos rios de África. Os bagres crescem gordos nas represas do Congo ou do Ruanda. E o vento, que sopra de Oeste, traz apenas o cheiro distante de combustível e esquecimento.

Na concha vazia do silêncio, o mar pergunta: quem, afinal, subiu o rio? E quem desceu para nunca mais ser visto?

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