DO PESSOAL DO ‘MAS’ AOS CONFORMADOS

RECADOS DA CESALTINA ABREU (69)
“Para destruir qualquer nação não é necessário utilizar bombas atómicas ou mísseis de longo alcance. Basta apenas reduzir a qualidade da educação e permitir que os estudantes ‘cabulem’ nos exames”.
A Ciência não se limita às áreas exactas: abrange todos os domínios do saber que interrogam o ser humano, a sociedade e o mundo. A ideia de Universidade nasceu da ambição da universalidade do saber: um espaço autónomo, crítico, capaz de pensar o mundo para além da utilidade imediata. Um lugar onde ciência, cultura e ética se encontram para formar não apenas profissionais, mas seres humanos inteiros. Foi esse o horizonte traçado — o de uma sociedade mais consciente, mais justa, mais humana.
Como alertava a UNESCO (1998) “(…), a educação superior deve visar a criação de uma nova sociedade não violenta e não exploradora, formada por indivíduos altamente esclarecidos, motivados e integrados, inspirados pelo amor à humanidade e guiados pela sabedoria”.
Em Angola, porém, o desinvestimento, a desvalorização da educação e dos educadores, e a mercantilização do ensino têm conduzido ao esvaziamento de sentido — abrindo caminho à ignorância.
As Ciências Sociais e as Humanidades estudam o ser humano enquanto ser social, as relações de poder e os processos que estruturam a vida colectiva. São áreas interligadas, que recorrem à multidisciplinaridade para compreender a complexidade social.
Enquanto as Ciências Sociais analisam estruturas e comportamentos, as Humanidades interrogam o sentido da existência, a cultura e a experiência humana, ajudando a compreender o passado, interpretar o presente e imaginar o futuro.
O pessoal das Sociais e Humanidades é o pessoal do “Mas…” — o que questiona quando todos aplaudem.
Essas áreas funcionam como consciência crítica da sociedade: interrogam consensos, desmontam “verdades estabelecidas” e analisam as relações de poder, as desigualdades e as suas implicações. O “Mas” é, assim, um exercício essencial contra o conformismo.
Por isso incomodam — e são frequentemente alvo de desvalorização, com dúvidas lançadas sobre a sua utilidade. Mas é precisamente nelas que se questiona o “quê”, o “porquê”, o “como” e “para quem”.
Educar é formar integralmente o ser humano — física, intelectual e moralmente — para que seja um cidadão consciente, crítico e capaz de transformar a sociedade.
Uma educação emancipadora ensina a pensar, a questionar e a participar. Vai além da transmissão de conteúdos, promovendo autonomia intelectual, pensamento crítico, responsabilidade social e reflexão ética. Forma cidadãos capazes de analisar a realidade, discernir informação e agir na construção de uma sociedade mais justa e democrática.
Em Angola, porém, predomina uma educação orientada para a manutenção do status quo : uma educação que domestica, que ensina a obedecer e a conformar-se.
Funciona como mecanismo de reprodução social, formando indivíduos ajustados ao sistema, mais do que cidadãos críticos. Prioriza a funcionalidade para o mercado, reforça hierarquias, induz comportamentos e perpetua desigualdades.
Em suma, é uma educação que molda pessoas para serem “peças” — e não cidadãos.
NP: este, não é um texto “sobre” educação; é um texto a partir deste lugar, com leitura do mundo e responsabilidade intelectual. Este é um posicionamento pessoal.
Saúde, cuidados e coragem para não nos escondermos atrás de ‘neutralidades aparentes’, e seguirmos interpelando.
Kandando daqui!











