
Num Estado forte, a liberdade não é ameaça, é responsabilidade.
Em Angola, como em várias regiões da África contemporânea, cresce um fenómeno preocupante: movimentos que se apresentam como restauradores da “verdadeira África” e da “identidade ancestral”. Esses grupos constroem narrativas completas, afirmam detenção de verdades exclusivas e oferecem respostas totalizantes às angústias de cidadãos que se sentem marginalizados, desconectados ou invisíveis.
A primeira constatação é clara: não estamos a falar de criminalizar ideias, mas de compreender um risco estrutural. Democracia significa liberdade de expressão, pluralismo, diversidade de crenças e respeito por narrativas culturais alternativas. O problema surge quando vácuos sociais e institucionais criam terreno fértil para líderes carismáticos consolidarem autoridade paralela e promoverem práticas contrárias a direitos fundamentais.
O vácuo social que alimenta o poder absoluto
Sociologicamente, o crescimento desses movimentos não é surpresa. Ele alimenta-se de:
– Crise de identidade cultural: muitos cidadãos sentem que a sua história e ancestralidade são ignoradas.
– Sentimento de desvalorização histórica: narrativas escolares e institucionais muitas vezes não reforçam orgulho nem conhecimento do passado.
– Desconfiança nas instituições: governos percebidos como distantes, ineficazes ou selectivos aumentam o ceticismo.
– Busca de pertença forte: indivíduos procuram significado, comunidade e segurança simbólica onde o Estado falha.
Quando estas condições coexistem, surgem movimentos que prometem respostas absolutas, identidade clara e hierarquia rígida, seduzindo quem se sente perdido e criando estruturas paralelas que podem tensionar a ordem democrática.
O papel da liderança carismática
A liderança carismática é poderosa porque oferece:
– Segurança simbólica: um sentido de proteção e pertencimento.
– Respostas totais: soluções definitivas para problemas complexos.
– Estrutura hierárquica: regras claras e sistema interno de autoridade.
– Identidade absoluta: narrativa de verdade única que legitima a pertença.
Por si só, liderança forte não é perigosa. O alerta surge quando essa autoridade paralela começa a influenciar práticas que conflitam com normas de protecção social e direitos fundamentais, especialmente no que toca a menores, mulheres ou indivíduos vulneráveis.
Tecnologia e crescimento acelerado
O uso estratégico das redes sociais e da tecnologia moderna amplia a influência desses movimentos. Lives, vídeos e conteúdos multimédia criam percepção de relevância e legitimidade. Jovens e adultos dispersos geograficamente tornam-se seguidores fiéis de narrativas totalizantes que escapam ao controle do Estado.
O impacto não é apenas simbólico: a adesão digital fortalece a autoridade do grupo e acelera o crescimento de práticas que podem estar em desacordo com direitos constitucionais, mesmo que não sejam explicitamente criminosas.
O alerta ao governo e à sociedade
A responsabilidade do Estado é clara: o descaso institucional alimenta o vácuo. Quanto mais se ignora a dimensão identitária, histórica e cultural da população, maior a probabilidade de surgirem lideranças absolutistas paralelas.
O alerta é preventivo: não se trata de proibir ideias, mas de reforçar mecanismos de protecção, educação e valorização cultural. Ignorar este cenário é apostar que o pluralismo e a liberdade podem ser substituídos por autoridade simbólica absoluta, hierarquias paralelas e práticas que tensionem a democracia.
Historicamente, movimentos com características similares cresceram rapidamente em contextos de crise identitária, expandindo-se de forma simbólica até atingirem capacidade coerciva ou influência sobre práticas sociais, sobretudo quando os canais institucionais de integração e pertença eram frágeis ou inexistentes.
Prevenção e ação estratégica
A solução não é repressiva, mas estrutural. O Estado deve:
1) Fortalecer instituições de confiança: transparência, justiça e acesso igualitário.
2) Valorizar história e cultura locais: educação que fortaleça orgulho e conhecimento do passado.
3) Criar canais de pertença e cidadania: alternativas legítimas de integração e expressão cultural.
4) Proteger vulneráveis: políticas de proteção infantil, igualdade de género e direitos humanos.
O vácuo não é apenas um problema cultural; é um risco para a estabilidade democrática se for ignorado. A prevenção não significa censura, mas garantir que liberdade, identidade e pluralismo coexistam com direitos fundamentais.
Conclusão: o tempo de agir é agora
O crescimento de movimentos identitário-espirituais carismáticos é um alerta. Não se trata de criminalizar ideias, mas de reconhecer fatores que alimentam o surgimento de poder absoluto paralelo: crise de identidade, desvalorização histórica, desconfiança institucional e busca de pertença.
Ignorar estas questões é permitir que espaços de liberdade e pluralismo sejam preenchidos por práticas que, embora simbólicas, podem tensionar direitos fundamentais e a própria democracia.
O desafio do governo e da sociedade é agir antes que o vácuo social seja preenchido por liderança absoluta. A solução passa por educação, valorização cultural, cidadania ativa e proteção de vulneráveis, garantindo que pluralismo e liberdade coexistam com segurança, justiça e dignidade humana.Porque num Estado forte, a liberdade não é ameaça, é responsabilidade.











