
Joaquim é um jovem na casa dos 30 anos. Passa as tardes defronte ao escritório de uma empresa de construção na Via Expressa. A entrada do escritório é pelo interior do recinto da empresa, de modo que o Joaquim pode ficar sob a pequeníssima sombra de uma figueira em crescimento, nascida com a chuva junto ao passeio.
Joaquim anda sempre carregado de um saco cheio de livros já gastos e cadernos meio usados. Passa as tardes a ler. Há dias em que lhe dá para escrever. Aí é vê-lo escrever, escrever, escrever. O que estará ele escrevendo? Algum romance? Pensamentos dispersos? Uma nova Bíblia?
Joaquim vive num estado de absoluta solidão. Se alguém, em Angola, quer estudar a fundo a solidão, deve ir procurar o Joaquim. Ficar ali todas as tardes. Observar os gestos, ler o que escreve com aquelas mãos escuras como breu, os cabelos agrestes e o rosto marcado pela ausência de água e sabão. Deve percorrer os caminhos que Joaquim percorre, com os pés descalços. Saber onde dorme, o que come, o que não pensa. E o que não sabe imaginar.
O único amigo do Joaquim é um vizinho de rua. Um jornalista e escritor. Se preocupou com o Joaquim, talvez por causa da biblioteca que carrega. Ou talvez por ser escritor e saber que um dos pressupostos da criação literária é a solidão.
Às vezes, o único amigo do Joaquim prepara uma marmita com uma refeição e oferece ao Joaquim. Às vezes, dá-lhe um pacote de bolacha de água e sal. Bananas. Este último sábado, dia 10 de Janeiro de 2026, o único amigo do Joaquim lhe deu um saco com seis mangas vermelhas. Chegou o tempo das mangas. E o único amigo do Joaquim se lembrou que o seu amigo também merece provar umas deliciosas mangas. Joaquim sempre agradece. E emite um desejo do fundo coração: “Que Deus te abençoe!”
Quem terá sido o Joaquim, anos antes deste seu estado de solidão absoluta? Onde terá ele adquirido o gosto pela leitura? E pela escrita? Onde anda a família do Joaquim? Onde dorme o Joaquim?
Mil perguntas sem resposta. A menos que o único amigo do Joaquim ganhe coragem e, um destes dias, vá ter com ele, e comece um inquérito. Prolongado. Paciente. Com um caça-palavras. O único amigo do Joaquim sabe recolher confissões. Não fosse ele jornalista de tarimba, dos tempos do Mwatxiânvua, David Mestre, Manuel Dionísio, Graça Campos, José Ribeiro, Osvaldo Gonçalves e o próprio cronista das malambas periféricas, o inconformado Salas Neto. De um tempo em que não imperava tanta mentira na Comunicação Social e nas nossas vidas públicas.
Quem sabe, um dia destes, o único amigo do Joaquim vá ao recanto das letras do Joaquim, ali no passeio em frente da empresa de construção, na pequeníssima sombra da figueira em crescimento, com um prato de boa comida e refresque a memória do Joaquim. E depois, quem sabe, publique um artigo no jornal do Estado, e o Executivo envie uma ambulância para recolher o Joaquim e levá-lo a um centro de reabilitação.
Quem sabe, um dia, o Joaquim possa voltar ao convívio social, ao lar familiar, e esse seu vício da leitura e o hábito da escrita possam ser uma mais-valia para o desenvolvimento nacional? É que, verdade seja dita, uma pessoa ao Deus dará, que agradece assim: “Que Deus te abençoe”, uma pessoa suja da escuridão da vida, que carrega consigo uma biblioteca num saco, uma pessoa que escreve merece um pouco de atenção por parte da sociedade. De uma entidade religiosa. De alguma ONG. Do próprio Estado. E mesmo que não saiba agradecer, mesmo que não tenha livros, mesmo que não goste de escrever, mesmo encaixilhado na mais absoluta solidão, é eternamente uma pessoa. E uma pessoa tem dignidade humana. E as pessoas são o bem público mais alto do Estado. Não são os postes de alta tensão.











