O QUE PODE MUDAR EM ÁFRICA COM A INTERVENÇÃO DE DONALD TRUMP NA VENEZUELA

RAMIRO ALEIXO

E preparemo-nos, que esse é o inicio de uma nova configuração da geopolítica, em que a Europa, também enfraquecida, se ajoelha aos pés do todo-poderoso Trump, o grande negociante global do século. As reacções dos seus líderes, incluindo o silêncio, espelham vassalagem.

Impulsionada pela intervenção de Donald Trump na Venezuela, a França pode agora encontrar ‘legitimidade’ para justificar cópias de intervenções em países do Sahel, designadamente, o Mali, Burkina Faso e Níger que se rebelaram contra a sua influência e saíram da sua esfera de intervenção em busca de maior soberania.

As novas chefias militares desses três países, formaram recentemente a Aliança dos Estados do Sahel (AES) e um exército conjunto. Após os golpes, começaram por exigir a retirada das tropas francesas, mas também das empresas que exploravam recursos minerais importantes à preço de banana, como o urânio, marcando uma rotura com o neocolonialismo e a busca de novos parceiros. 

Outros países como o Chade, o Senegal e a Costa do Marfim pediram também a saída das forças francesas, consolidando uma onda de descolonização na região, corte e a perda de influência da potência colonizadora, que tinha nesses países, fontes de sustentáculo das suas reservas financeiras.

Mas, por arrasto, o acordo de paz assinado a 4 de Dezembro, em Washington, entre o Ruanda e a RDCongo, com o patrocínio do invasor da Venezuela, pode ser tido agora por Paul Kagame, como um documento sem qualquer valor. Porque os objectivos, quer de um quer de outro, no fundo, são os mesmos que o novo patrão do mundo: recursos minerais. A única diferença, é que Trump pretende ser o único comilão, quer dos recursos minerais que o Congo detêm quer da Venezuela. Para desespero de Félix Tshisekedi, que afinal o tempo veio demonstrar que estava cheio de razão ao não estreitar a mão a Paul Kagame. Provavelmente, também sentiu na pele a ameaça de Trump.

Por arrasto, os efeitos dessa invasão poderão resultar em mais asfixia e até num ataque a Cuba, como aliás foi anunciada na conferência de imprensa de Trump, pelo seu secretário Marco Rúbio, descendente de cubanos.

Mas, e agora? E se Kim Jong-un, depois do treino das suas tropas na Ucrânia em apoio a Rússia, decidir avançar também sobre a Coreia do Sul? E se a China, para repor os seus interesses de soberania e hegemonia, seguir o exemplo de Trump entrando em Taiwan?

Sem dúvida, o mundo, a partir de agora, conhece uma viragem perigosa para a estabilidade de qualquer nação. E preparemo-nos, que esse é o inicio de uma nova configuração da geopolítica, em que a Europa, também enfraquecida, se ajoelha aos pés do todo-poderoso Trump, o grande negociante global do século. As reacções dos seus líderes, incluindo o silêncio, espelham vassalagem. E a África, no meio, continua refém, amedrontada e com os seus líderes encolhidos com o rabo entre as pernas. O exemplo das fragilidades, ficou comprovado na Nigéria. E daí o silêncio medonho, incluindo de quem preside a União Africana.

Mas dizer o quê também? Provavelmente, tirar a lição de que na política, tal como em todos os domínios da vida, é preciso saber sair. E hoje, os ditadores que se querem eternizar no poder, perceberam que em política não vale tudo, e que nem todos os que rodeiam os ditadores, estão com eles. No caso de Maduro, a toupeira estava bem próximo dele.

Facto mesmo, é que o mundo rendeu-se ao poder ‘negocial’ de quem afinal, sempre mandou no mundo. Se ser amigo dos americanos já é complicado, ser inimigo mais complicado é. Que o diga Maduro.

A próxima ocupação será a da Gronelândia? E qual será a reacção da Europa? Oxalá que seja!

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