O QUE DEFINE O TRAJE É, “O PROPÓSITO DO ENCONTRO”, NÃO O TÍTULO DO ANFITRIÃO

MATEMÁTICA DAS PALAVRAS

CARLOS RIBEIRO

A audiência à Will Smith, foi institucional, sim, mas de carácter cultural e promocional (turismo, imagem de Angola no exterior). O traje casual ou criativo não foi um desrespeito, mas sim uma adequação à linguagem do artista.

Como fã da carreira profissional de Will Smith, acho um despropósito a crítica à forma como se vestiu nesse encontro, com o Presidente da República. 

Não vou criticar o país e o protocolo lá do ‘mukifu’ presidencial. Porque, no fim do dia, o que “vale” é o contexto. Em muitos lugares isso é perfeitamente normal e até esperado. Chefes de estado, costumam flexibilizar o protocolo para receber artistas, valorizando a sua expressão pessoal e o reconhecimento do seu trabalho “artístico”. Vestir fato e gravata ou saia a cobrir os joelhos e saltos altos, nem sempre combina com a identidade de certos géneros artísticos, como músicos, actores, activistas culturais ou artistas plásticos. O que importa, nesses casos, é o respeito mútuo e o simbolismo do encontro e, não o formalismo indumentário. 

Em muitos países (e curiosamente os mesmos críticos têm visto disso um pouco por todo o lado nas redes sociais, revistas e televisões), há recepções de presidentes a cantores de camisola e calça jeans, sem qualquer problema de etiqueta. Em cerimónias mais formais (como em monarquias), a exigência pode ser maior. Mas, regra geral, para artistas, a criatividade e a autenticidade costumam ter precedência sobre o rigor formal. 

Contudo, muita gente acha que qualquer encontro com um chefe de estado exige fato e gravata. Não é verdade. O rigor formal é reservado para cúpulas diplomáticas, reuniões de governo ou audiências oficiais de estado. 

A audiência à Will Smith, foi institucional, sim, mas de carácter cultural e promocional (turismo, imagem de Angola no exterior). O traje casual ou criativo não foi um desrespeito, mas sim uma adequação à linguagem do artista. Como resultado, se confundiu etiqueta com respeito e, entramos no “achismo” de que a roupa informal foi sinónimo de desleixo, de arrogância e até de falta de profissionalismo do Protocolo de Estado. Ignoramos o facto de ter conversado com o Presidente. 

A roupa foi o de menos e menos ainda, foi, certamente, o motivo que o faz não participar nos Óscares ou o facto de ter sido suspenso de hollywood, por dez anos. Will Smith continua a fazer filmes (Uma História de Liberdade — 2022, Bad Boys, Até o Fim -2024, Am a Legend 2 ou Sugar Bandits, ainda sem data de lançamento); ou a produzir outros, como foi Rainhas Africanas – Nzinga, 2023 e que, talvez, pode ter sido um dos temas de conversa.

Curiosamente, se ele tivesse aparecido de fato e gravata, provavelmente, os mesmos críticos estariam a reclamar que ele estava “falso” ou “fora da sua essência”. O problema, muitas vezes, não é a roupa, mas a vontade de criticar. 

O Presidente recebeu o Will Smith, pelas suas qualidades culturais e mediáticas, não pelo seu corte de alfaiataria. O traje a rigor (ou a sua ausência) não é uma regra fixa, mas sim uma adequação ao tipo e à formalidade do encontro. Ou seja, o fato e gravata, o vestido com salto alto, se adequa ao contexto do encontro. Se for de carácter oficial de Estado (reunião com outro chefe de governo, assinatura de tratados, cerimónias de posse), exige traje formal. Se for de carácter institucional, mas de teor cultural, desportivo ou promocional, o protocolo é mais flexível, permitindo trajes criativos ou casuais, desde que haja respeito e reciprocidade. E, se for então de carácter privado, o traje a rigor é, completamente irrelevante. 

Portanto, o erro de quem criticou Will Smith foi assumir que todo encontro com um presidente da república, exige o mesmo grau de formalidade de uma cimeira diplomática. Will Smith, não foi recebido pelo Presidente da República, como representante oficial da administração Trump, mas como figura cultural e mediática.

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