O MASSACRE DE 1965 E O “MÉTODO JACARTA”(2)

POR JOAQUIM SEQUEIRA

As causas, os mecanismos de violência, a cumplicidade internacional e as consequências duradouras de um dos capítulos mais brutais e menos discutidos da história contemporânea.

Introdução

Um leitor do artigo “A tragédia de 1965 na Indonésia” fez-me uma pergunta: “Mas quem, especificamente, assassinou os seis generais?”.

Respondendo a esta pergunta, interessa dizer que este período sombrio não foi um acontecimento isolado. Os acontecimentos na Indonésia deram origem ao que ficou conhecido como o “Método Jacarta”: um modelo de eliminação violenta da oposição política de esquerda, que foi posteriormente observado, apoiado e, em muitos aspectos, replicado noutros países, particularmente na América Latina. Aquele artigo procura analisar estes acontecimentos, não apenas para honrar a memória das vítimas e entender a complexidade histórica, mas também para reflectir sobre como esse “método” se tornou uma ferramenta geopolítica, com o objectivo fundamental de que tais atrocidades não se repitam.

Esta introdução serve como ponto de partida para explorar as causas, os mecanismos de violência, a cumplicidade internacional e as consequências duradouras de um dos capítulos mais brutais e menos discutidos da história contemporânea, tendo como mote o assassinato de seis oficiais generais.

O foco da análise de Bevins

Segundo Vincent Bevins, no livro “O Método Jacarta”, a responsabilidade pelos assassinatos dos seis generais indonésios em 30 de Setembro de 1965 permanece como um acontecimento de “origem obscura” e cercado por muito mistério.

Bevins não procura identificar um único culpado. Em vez disso, o seu trabalho concentra-se em como o incidente foi usado para desencadear os massacres em massa que se seguiram, analisando a verdadeira tragédia, o aproveitamento de Suharto e a propaganda e desinformação.

O general Suharto e a cúpula militar, com apoio internacional, mormente dos EUA, imediatamente atribuíram os assassinatos ao Partido Comunista da Indonésia (PKI). Isto serviu como o pretexto perfeito para lançar uma repressão brutal para eliminar o partido e qualquer oposição de esquerda.

O regime de Suharto disseminou versões sensacionalistas e falsas dos assassinatos, envolvendo rituais satânicos e torturas, retratando os comunistas como seres desumanos para justificar a violência em massa que se seguiu.

Bevins dedica a sua análise não ao golpe em si, mas às consequências: uma campanha de extermínio que matou centenas de milhares de pessoas acusadas de serem comunistas, e o estabelecimento de uma ditadura de 32 anos sob a liderança de Suharto.

Pode afirmar-se que a perspectiva central de Bevins é que a importância histórica do Movimento de 30 de Setembro (o assassinato de 6 generais) não está na identidade dos seus autores, mas no facto de ter sido o gatilho instrumentalizado para um dos maiores massacres do século XX e para a consolidação de um regime autoritário apoiado pelos EUA.

Como Bevins aborda a questão

Para entender melhor a abordagem de Bevins, veja-se como ele estrutura a sua investigação.

O que Bevins faz

  • Analisa o caso como um “incidente incitador” dentro do padrão histórico de massacres.
  • Foca-se nas consequências políticas e humanas do acontecimento.
  • Documenta o apoio material e político dos EUA ao exército indonésio após os assassinatos.

O que Bevins não faz

  • Não fornece uma conclusão definitiva sobre quem ordenou ou executou os assassinatos.
  • Não apresenta o acontecimento como um facto histórico claro, mas, pelo contrário, ainda envolto em mistério e disputada narrativa.

Se o leitor se interessa pela complexidade das narrativas históricas ou pelas consequências geopolíticas da Guerra Fria, este enfoque de Bevins oferece uma análise profunda sobre como acontecimentos específicos podem ser usados para reescrever a história de uma nação.

Pelo exposto, podemos ver que existiu uma versão divulgada pelo regime do general Suharto que alegava que membros da organização feminina Gerwani, acusada de ser ligada ao Partido Comunista (PKI), torturaram e executaram os generais num ritual sexual. Entretanto, essa narrativa é considerada uma propaganda falsa criada para justificar os massacres que se seguiram.

Para entender a origem e o propósito dessa acusação, veja-se como o regime usou esta história:

Alvo da acusação:

  • Grupo: Gerwani (Movimento de Mulheres da Indonésia)
  • Filiação: associada ao Partido Comunista da Indonésia (PKI)

Conteúdo da acusação:

  • Que as mulheres torturaram e mutilaram os generais num ritual.
  • Que houve uma orgia sexual antes das execuções.

Objectivo da propaganda:

  • Desumanizar o PKI e os seus militantes e simpatizantes.
  • Criar um pretexto emocional para a perseguição em massa que viria a seguir.

Consenso histórico actual:

  • A narrativa é amplamente desacreditada, como falsa.
  • Foi uma peça central da campanha de propaganda do exército para justificar o extermínio de centenas de milhares de supostos comunistas.

O que aconteceu e a interpretação de Bevins

Conforme referido anteriormente, os acontecimentos exactos da noite de 30 de Setembro de 1965 permanecem envoltos em mistério e disputada narrativa.

O facto histórico é que os generais foram sequestrados e mortos por um grupo chamado Movimento 30 de Setembro, composto principalmente por oficiais militares descontentes.

Resumidamente, podemos dizer que Vincent Bevins, em “O Método Jacarta”, se foca menos em determinar os autores exactos e mais em analisar como o incidente foi instrumentalizado. Ele demonstra como o general Suharto e o exército, com apoio internacional, usaram o episódio e propagandas falsas (como a da Gerwani) como pretexto para desencadear uma campanha de violência com o objectivo claro de eliminar fisicamente a esquerda política na Indonésia.

Portanto, a versão das “mulheres muçulmanas” (ou, mais precisamente, das activistas do Gerwani acusadas de comunistas) é um exemplo crucial de como a desinformação foi usada para incitar ao ódio e legitimar um dos maiores massacres do século XX.

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