
O mundo pós-Guerra Fria acabou. O novo mundo, forjado na violência do retorno ao poder bruto, está a nascer. A questão é: teremos a sabedoria e a coragem para o moldar de forma plural, ou seremos apenas moldados por ele?
A decisão do Presidente Donald Trump de retirar os Estados Unidos de organizações internacionais, já anunciava uma redefinição estratégica do papel americano no mundo. Mas os eventos das últimas semanas transformaram essa redefinição numa convulsão global. O que parecia um “soberanismo estratégico” revelou a sua face mais crua: um imperialismo do século XXI, assente na força militar, no controlo de recursos alheios e na aniquilação de adversários.
A Operação “Resolução Absoluta” e o sequestro de um chefe de Estado
Na madrugada de 3 de Janeiro de 2026, por volta das 2h01 (horário local de Caracas), os Estados Unidos lançaram a Operação Determinação Absoluta (Absolute Resolve) contra a Venezuela. Não se tratou de uma mera operação policial, mas de uma invasão militar em grande escala que envolveu mais de 150 aeronaves – incluindo caças F-22, F-35, bombardeiros B-1 e drones Reaper – decolando de 20 bases diferentes. O alvo era o Presidente Nicolás Maduro e a sua esposa, a deputada Cília Flores, que foram sequestrados enquanto dormiam na sua residência no complexo militar de Fuerte Tiuna.
A operação foi meticulosamente planeada ao longo de meses. Agentes da CIA estavam infiltrados em Caracas desde Agosto de 2025, monitorizando cada detalhe da vida de Maduro: “como ele se movia, onde morava, para onde viajava, o que comia, o que vestia, quais eram seus animais de estimação”, revelou o general Dan Caine, chefe do Estado-Maior Conjunto dos EUA. Os soldados da Força Delta treinaram numa réplica exacta do refúgio de Maduro, construída em solo americano.
Trump assistiu ao vivo à transmissão do sequestro, descrevendo a experiência “como se estivesse vendo um programa de televisão”. Horas depois, publicou nas redes sociais a primeira imagem do líder venezuelano detido: com os olhos vendados, algemado, usando protectores auriculares e um agasalho da Nike.
A invasão não se limitou ao sequestro. Ataques atingiram infra-estruturas civis e militares em pelo menos quatro estados venezuelanos. O ministro da Defesa da Venezuela, general Vladimir Padrino López, denunciou que a acção “representa o maior insulto que o país já enfrentou”. Fontes venezuelanas relataram pelo menos 40 mortes, incluindo civis como Rosa González, uma idosa de 80 anos, que faleceu após um míssil atingir o seu prédio residencial em Catia La Mar. O governo cubano anunciou que 32 cidadãos cubanos que faziam parte da equipa de segurança de Maduro também perderam a vida durante a operação.
A violação do Direito Internacional e as reações globais
O sequestro de um chefe de Estado no exercício das suas funções, através de uma operação militar unilateral, constitui uma violação flagrante do direito internacional. A televisão estatal venezuelana classificou o evento como uma agressão que “constitui uma violação flagrante da Carta das Nações Unidas, particularmente dos artigos 1.º e 2.º, que consagram o respeito pela soberania, a igualdade jurídica dos Estados e a proibição do uso da força”.
As reações internacionais reflectem a profunda fratura geopolítica do momento:
• O eixo de apoio: Israel, através de Benjamim Netanyahu, parabenizou a “liderança audaciosa”; Javier Milei, da Argentina, celebrou a “queda do ditador narcoterrorista”; o Equador, por Daniel Noboa, avisou que “sua hora chegou”.
• O eixo de resistência: Rússia, China, Irão e Cuba condenaram veementemente o ataque como “agressão ilegal” e “terrorismo de Estado”.
• Condenação e cautela: Lula, do Brasil, afirmou que o bombardeio cruzou uma “linha inaceitável”; Gabriel Boric, do Chile, alertou: “Hoje é a Venezuela, amanhã pode ser qualquer outro”.
O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, adoptou uma posição contraditória: afirmou que o Reino Unido “não derramará lágrimas” por Maduro, mas exigiu respeito ao direito internacional. Em declaração ao parlamento, a secretária dos Negócios Estrangeiros, Yvette Cooper, revelou ter “levantado a importância de cumprir o direito internacional” nas conversações com o secretário de Estado Marco Rubio.
O ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Sergei Lavrov, afirmou que a operação demonstrou a fragmentação da liderança global, com Washington a destruir o sistema internacional que havia ajudado a construir.
O controlo do petróleo: o verdadeiro objectivo
Horas após ao sequestro, Donald Trump revelou abertamente as motivações económicas da operação. Em conferência de imprensa em Mar-a-Lago, declarou: “Vamos ter as nossas grandes empresas petrolíferas dos Estados Unidos, as maiores do mundo, a entrar, gastar milhares de milhões de dólares, reparar a infra-estrutura petrolífera gravemente danificada e começar a ganhar dinheiro para o país”.
Trump justificou a acção alegando que o petróleo foi “roubado” dos EUA durante as nacionalizações de 1976 e 2007, quando activos da Exxon e ConocoPhillips foram expropriados sem compensação integral.
A factualidade é ainda mais chocante: os primeiros 500 milhões de dólares da venda de petróleo venezuelano já foram depositados num banco no Catar. Criou-se um fundo opaco, longe do escrutínio do Congresso ou do povo americano, que a senadora Elizabeth Warren classificou como algo sem “qualquer base na lei”. O petróleo é venezuelano, o lucro é controlado por Washington, e a soberania é uma lembrança.
A “Doutrina Don-roe” e a ameaça a Cuba
O padrão repete-se com Cuba. Trump invocou uma versão extrema da Doutrina Monroe, rebatizando-a como “Doutrina Don-roe” (fundindo o seu nome ao do Presidente James Monroe). Enquanto a doutrina original era um escudo contra a influência externa na América Latina, a versão de Trump é uma afirmação de poder total: ele declarou que “a dominância americana no Hemisfério Ocidental nunca mais será questionada”.
Com o principal fornecedor de petróleo da ilha (a Venezuela) neutralizado, Trump fala agora abertamente numa “tomada de controlo amigável” de Cuba. “Eles não têm dinheiro. Não têm nada”, declarou o Presidente, como quem descreve uma propriedade em falência técnica prestes a ser adquirida numa liquidação forçada. A pressão é máxima: ameaça de tarifas a quem fornecer petróleo à ilha e uma flexibilização selectiva que permite o envio de combustível apenas para o sector privado – um claro instrumento para desestabilizar o governo e aumentar a dependência. A mensagem é cristalina: a soberania cubana é um obsctáculo a remover, por asfixia ou por “tomada amigável”.
O ataque ao Irão e a escalada no Médio Oriente
O ponto culminante desta escalada é o ataque conjunto dos EUA e Israel ao Irão, resultando na morte do líder supremo, Ayatollah Ali Khamenei, e de vários altos funcionários. Embora os detalhes completos da operação permaneçam por revelar, a acção enquadra-se no mesmo padrão de mudança de regime pela força, sem mandato internacional e em desafio aberto a qualquer noção de direito internacional.
A declaração de Trump aos iranianos – “Esta será provavelmente a vossa única oportunidade em gerações. Agora é o momento de agir. Não deixem passar” – soa menos a um apelo à liberdade e mais a uma ordem para se submeterem ou enfrentarem a aniquilação.
A necessidade urgente da multipolaridade
Perante este cenário, a questão que se coloca é a seguinte: pode uma superpotência preservar influência global ao mesmo tempo que se desengaja das estruturas que ajudou a criar? Esta questão analisada sem a devida profundidade pode parecer ingénua. Não se trata de preservar influência, mas sim de exercer poder puro e duro, sem a camuflagem das instituições. Os EUA de Trump não se retiram do mundo; redefinem-no à força, como um campo de batalha onde o direito internacional é um obstáculo e a soberania dos outros é uma ficção.
É aqui que a necessidade de um mundo multipolar deixa de ser um conceito académico ou uma aspiração geopolítica distante para se tornar uma exigência de sobrevivência para a maioria das nações.
Em primeiro lugar, a multipolaridade é o antídoto para o imperialismo do século XXI. Num mundo com vários centros de poder – China, Rússia, Índia, União Europeia, Brasil, África do Sul -, a capacidade de uma única potência para ditar os acontecimentos, invadir países ou sequestrar líderes fica severamente limitada. A resposta iraniana, com ataques a bases dos EUA e de Israel na região, e as declarações de apoio de vários actores mostram que o poder unipolar pode ser contestado.
Em segundo lugar, a multipolaridade oferece alternativas de alinhamento. Para países como os de África e da América Latina, significa poder de escolha. Se Washington condiciona a ajuda à subserviência e ao controlo dos seus recursos, Pequim oferece investimentos em infra-estruturas sem ingerência política explícita. Moscovo oferece uma alternativa de segurança. Esta competição, por mais imperfeita que seja, devolve aos países periféricos uma margem de manobra que a ordem unipolar lhes havia roubado. A própria decisão dos EUA de estacionar fundos do petróleo venezuelano no Catar é um reconhecimento tácito de que até mesmo potências médias têm um papel a desempenhar.
Em terceiro lugar, a multipolaridade permite reforçar a soberania pela via da cooperação Sul-Sul. Não se trata apenas de grandes potências, mas da capacidade de nações médias e pequenas se unirem para defender princípios comuns de soberania e não-intervenção. A condenação generalizada na América Latina e na ONU ao sequestro de Maduro, vinda de governos de diferentes matizes ideológicos, é um exemplo disso. A criação de mecanismos financeiros alternativos, de sistemas de comércio que não dependam do dólar ou do beneplácito de Washington, e de alianças políticas que contraponham o unilateralismo são as tarefas urgentes do nosso tempo.
Entre a submissão e a construção de um Novo Mundo
O que estamos a testemunhar não é o fim da ordem liberal, como muitos analistas dizem. É o seu oposto violento: o regresso à política de poder do século XIX, onde as grandes potências esquadrinhavam o mundo em busca de recursos e esferas de influência, com a diferença de que agora o fazem com tecnologia de ponta e discursos de “libertação” que ninguém leva a sério.
A ilusão de que as instituições multilaterais nos protegeriam morreu nas ruas de Caracas e nos céus de Teerão. A escolha que se coloca a países como Angola, Brasil, África do Sul, e a todos os que valorizam a sua auto-determinação, é difícil mas clara: ou nos resignamos a ser peões num tabuleiro dominado por uma única vontade hegemónica, ou trabalhamos activamente, e com urgência, para a construção de um mundo verdadeiramente multipolar.
A multipolaridade não é uma garantia de paz e justiça automáticas. Mas é a única garantia de que a voz dos muitos pode fazer contraponto à vontade dos poucos. É a única arquitectura que pode conter os ímpetos imperiais e oferecer um abrigo, ainda que frágil, à soberania das nações. O mundo pós-Guerra Fria acabou. O novo mundo, forjado na violência do retorno ao poder bruto, está a nascer. A questão é: teremos a sabedoria e a coragem para o moldar de forma plural, ou seremos apenas moldados por ele?










