NÃO ACEITAR COMO NORMAL O SOFRIMENTO EVITÁVEL

RECADOS DA CESALTINA ABREU (63)

Quando nos habituamos à desigualdade, à violência e à negligência, algo em nós se apaga. E no dia em que perdemos a capacidade de nos indignar diante da injustiça, perdemos também uma parte essencial da nossa humanidade…

A frase “A nossa indignação é mais humana que todo o nosso amor” sugere que a capacidade de nos indignarmos perante a injustiça é uma dimensão mais imediata, intrínseca e activa da natureza humana do que o próprio amor, funcionando muitas vezes como motor de luta e de transformação.

Ela convida a reflectir sobre a condição humana, onde a indignação surge como reacção genuína ao erro, ao malfeito, ao que fere a dignidade — talvez mais constante do que a complexidade do amor. Mais do que uma simples emoção, aponta para a necessidade de protesto e de acção contra o que reconhecemos como errado.

Marcada pela mortalidade, pela vulnerabilidade e pela busca de sentido, a condição humana encontra na indignação uma resposta simultaneamente emocional e política à injustiça. Individual ou colectivamente construída, ela funciona como antídoto contra a indiferença e a passividade, protegendo a dignidade humana — e procurando restaurá-la quando o Estado falha e a sociedade consente.

A indignação transforma o desamparo em acção colectiva, combate a indiferença e reafirma a responsabilidade ética. Quando é sincera, deixa de ser apenas reacção e torna-se compromisso: recusa o conformismo e o cinismo de que nada pode mudar.

Ao contrário da ideia de uma “natureza humana” fixa, a condição humana é dinâmica, moldada pelas formas de vida, pelos acontecimentos e pelas limitações que atravessamos — do nascimento à morte —, e pelas transformações históricas, como as revoluções tecnológicas que alteram o trabalho e a comunicação. Nesse contexto, persiste a assimetria de poder e a necessidade de laços sociais que nos permitam superar o desamparo.

É nesse quadro que a indignação se afirma como ferramenta essencial: combate o sofrimento imposto, reivindica direitos e reacende a esperança. Quando a sociedade se torna indiferente, ela emerge para restituir a dignidade humana. Não é um impulso passageiro, mas um verdadeiro termómetro moral que nos liga ao outro e nos lembra que vivemos em comum.

Quando nos habituamos à desigualdade, à violência e à negligência, algo em nós se apaga. E no dia em que perdemos a capacidade de nos indignar diante da injustiça, perdemos também uma parte essencial da nossa humanidade — a capacidade de reconhecer o valor da vida, da dignidade e da justiça.

Nesta 2.ª feira: saúde, cuidados e coragem — para não deixar nenhuma injustiça passar despercebida, para recusar o silêncio cúmplice, para não aceitar como normal o sofrimento evitável, e para transformar, mesmo que em pequenos gestos, o que está errado. E não deixar morrer em nós aquilo que ainda se recusa a aceitar o mundo tal como está. Porque no dia em que a injustiça já não nos ferir, já não seremos inteiros — seremos apenas o silêncio que a permite

Kandando daqui

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