HOMENAGEM AO “VELHO” JESSE JACKSON ACTIVISTA DOS DIREITOS CIVIS — COM UM OLHAR SOBRE ANGOLA

CARLOS GOMES NGONDI SUCAMI*

A transformação começa quando alguém decide que o silêncio já não é opção. Porque as nações não se erguem apenas com recursos naturais. Erguem-se com consciência cívica.

Quarta-feira, 17 de Fevereiro de 2026, numa tarde cinzenta, carregada de nuvens e o frio a rachar no município de Sint-Pieters Leeuw, na Província Belga do Vlaams-Brabant, onde vivo, jubilava pelos trinta anos da data natalícia do meu primogénito, o Basílio de Horizonte Ngondi, quando caiu a notícia, que nem uma bomba: “Morreu o activista dos direitos cívis, o “Velho” Jesse Jackson aos 84 anos. Foi como se me tirassem o chão (a mesma sensação que tive, no dia em que recebi a notícia da morte do meu saudoso Pai, o “Velho” Basílio da Silva Ngondi – Abril de 2024). 

Não sou racista e muito menos cidadão norte-americano. Porém, falar do “Velho” Jesse Jackson é revisitar uma das vozes mais persistentes da luta pelos direitos civis no século XX e início do século XXI. É recordar que a história não se constrói apenas com leis e discursos oficiais, mas com coragem, perseverança e fé inabalável na dignidade humana.

Discípulo político e espiritual de Martin Luther King Jr., o “Velho” Jesse Jackson ajudou a manter viva a chama do sonho da igualdade racial, quando muitos julgavam que as conquistas dos anos 60 eram suficientes. Fundador da Rainbow/PUSH Coalition, transformou a inclusão social, a justiça económica e a mobilização eleitoral das minorias em pilares da sua missão pública.

Mas esta homenagem ganha um significado ainda mais profundo quando olhamos para Angola.

A luta pelos direitos civis nos Estados Unidos dialoga, historicamente, com os processos de libertação africanos. Enquanto líderes como o “Velho” Jesse Jackson combatiam a segregação racial e as desigualdades estruturais no contexto americano, Angola travava a sua própria batalha contra o colonialismo português e, posteriormente, enfrentava o desafio doloroso da guerra civil. A independência proclamada a 11 de Novembro de 1975 não significou o fim das lutas — significou o início de uma nova etapa de construção nacional.

A mensagem do “Velho” Jesse Jackson — justiça, participação política e dignidade para todos — ecoa no percurso angolano de reconstrução e consolidação democrática. Angola, após décadas de conflito, tem buscado afirmar um Estado de direito mais sólido, ampliar a participação cívica e fortalecer instituições. Nesse processo, o papel do activismo cívico torna-se fundamental.

Para a diáspora angolana, especialmente na Europa e na América do Norte, a experiência afro-americana oferece referências importantes. A mobilização comunitária, a organização política de base e o uso estratégico dos meios de comunicação foram ferramentas amplamente utilizadas por “Velho” Jesse Jackson e pelos movimentos dos direitos civis. Esses instrumentos continuam actuais para as comunidades angolanas que desejam contribuir activamente para o desenvolvimento do País, quer a partir do território nacional, quer a partir da diáspora.

Há também um elemento simbólico poderoso: a afirmação da identidade negra em contextos de marginalização. O “Velho” Jesse Jackson ajudou a reforçar o orgulho afrodescendente, promovendo uma narrativa positiva da herança africana. Para Angola, País de juventude vibrante e culturalmente diverso, essa valorização identitária é essencial no fortalecimento da autoestima colectiva e na projecção internacional.

Assim, homenagear o “Velho” Jesse Jackson, sob a perspectiva angolana, é reafirmar que a cidadania activa é indispensável. É reconhecer que o desenvolvimento não depende apenas de políticas públicas, mas também de uma sociedade civil consciente, crítica e comprometida.

Num tempo em que África redefine o seu papel geopolítico e Angola consolida novas parcerias internacionais, a lição permanece actual: não há progresso sustentável sem inclusão. Não há estabilidade duradoura sem justiça social.

Esta singela homenagem é, pois, também um convite. Um convite aos jovens angolanos — dentro e fora do país — a assumirem o protagonismo na construção de uma Angola mais justa, mais participativa e mais solidária. Tal como o “Velho” Jesse Jackson ensinou, a transformação começa quando alguém decide que o silêncio já não é opção.

Porque as nações não se erguem apenas com recursos naturais. Erguem-se com consciência cívica. E essa é uma lição universal que Angola pode continuar a cultivar. 

E, como um bom africano que sou, e um bantu ainda por cima, estou de luto. Portanto, nada de funje com a muamba de galinha rija e o bom vinho tinto neste fim de semana.

Descanse em paz, “Velho” Jesse Jackson! 

Tenho dito! 

*Menga-Ma-Kimfumu

O reverendo Jesse Jackson ao lado do também reverendo Martin Luther King Jr. ao lado de outros líderes dos direitos civis na varanda do Lorraine Motel em Memphis, Tennessee, em 3 de Abril de 1968, um dia antes do assassinato do segundo, nas proximidades desse mesmo local. Da esquerda para a direita: Hosea Williams, Jesse Jackson, Luther King Jr. e Ralph Abernathy.

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