É MUITA AFRONTA AOS ESFOMEADOS!

RAMIRO ALEIXO

Quem observa a imponência exterior e o luxo interior da nova sede do MPLA, inaugurada pelo seu presidente no dia 10 de Dezembro, conhece as dificuldades que Angola e os seus cidadãos vivem, até de sair de casa para o trabalho, para o sustento da família, nos domínios da educação e da saúde; quem, dia sim dia também, recebe por via dos órgãos oficiais, a informação que dá conta que a governação do Presidente João Lourenço solicitou e beneficiou de mais um empréstimo, com exaltação e júbilo, como se isso constituísse uma vitória que mereça celebração, não pode considerar essa gente que constitui a direcção desse partido, os fanáticos e os metralhas que a apoia, como pessoas sãs, patriotas e comprometidas com a Nação. Ou melhor, com competência necessária e fundamental para governar uma Nação com tantos desafios, necessidades e prioridades como Angola tem. Porque ninguém deve usar dinheiro que não é seu, para fazer festas e se o faz, deve ser responsabilizado.

A assistir o filme, embora na qualidade de convidada e nalguns casos como ajudante, a comunidade diplomática acreditada em Luanda faz tempo que já percebeu, que nalguma curva dessa estrada, o MPLA sofrerá um grande despiste que poderá arrastar Angola para novo banho de sangue. Porque é demasiada afronta da sua governação aos empobrecidos e (des)governados, e como vimos recentemente, eles não se coibirão de novo massacre para conter a insatisfação generalizada e defenderem o poder. 

Embora os interesses e as relações entre estados não se baseiam na compaixão, essa comparticipação dos outros no financiamento da festança desse poder gentio que se apossou de Angola, também não respeita princípios civilizacionais que têm como fundamento, o respeito à vida, o bem-estar dos povos, às liberdades e direitos fundamentais, o bom funcionamento das instituições, factores que desempenham papel saudável na relação de amizade e de cooperação recíproca. Porque a base fundamental do exercício político das nações, não é o fomento da fome e da miséria ou a repressão sobre os povos, nem a facilitação do enriquecimento das suas elites. Logo, aqui, não deve constituir excepção. E por isso, embora me custe essa ‘boleia’, não digam que André Ventura, líder do CHEGA em Portugal, não tem razão quando dirige críticas contundentes ao Presidente João Lourenço. Porque, particularmente nos últimos tempos, é o nosso Presidente quem dá a cara como o rei da festança, gastando demasiado no supérfluo, quando parte importante da juventude do seu país é forçada a imigrar para aquele, em busca das condições básicas a que não tem acesso cá dentro. O modelo da gestão do nosso Presidente e o seu comportamento, não favorecem a sua defesa. Apresenta-se com uniforme de pessoa civilizada, logo, é obrigado a seguir os padrões da civilidade e de respeito a leis, mas não faz, tratando o país como se fosse só sua pertença.

Para quem não tem comida, não dispõe do que é básico, como água, luz, escola, medicamentos ou um prato de feijões, a imponência desse edifício e o seu luxo interior podem significar, que afinal há caviar e champanhe que dá para todos, mas somente a direcção do MPLA se serve, come e bebe tudo, arrota e ainda raspa o fundo. São imagens chocantes, que atestam o saque denunciado a que Angola é sujeita nesses 50 anos, já que, até ao momento, não conseguiram provar, com um único documento, outra proveniência dos fundos utilizados para edificar e equipar esse edifício luxuoso e inteligente, que não seja o erário. 

Olhando para o país destruído nos 50 anos vencidos, reconstruído ou recauchutado nos 23 anos de paz e nesses sete anos de gestão do Presidente João Lourenço, não há absolutamente nada para arrogar aos dirigentes e militantes do MPLA, o direito de o considerarem um partido rico. Até constitui crime lesa-pátria fazer tal afirmação, diante de um Estado levado a falência, com metade da sua população num nível de pobreza extrema e com 9 milhões de crianças sem escola. Por outro lado, se é verdade que dominam a genialidade de gerar riqueza, se conhecem a equação matemática de multiplicar que tem permitido distribuir o que é bom por todos eles, por que não utilizar então esse conhecimento e essa inteligência para a resolução generalizada dos “problemas do povo”, incluindo dos seus militantes, que a cada dia se agudizam e também definham? 

Apesar da herança penosa que deixaram, porque o que de mau se faz em Angola começou mais lá atrás, Agostinho Neto e José Eduardo dos Santos, tanto quanto vi, eram avessos à exposição de riqueza, embora o último tenha favorecido uma elite despudorada que fez do erário o seu cofre (ou bolso). Mas, precisamente por ser mau, esse é um capítulo da nossa história que não deveria merecer ‘copi paste’ ou servir de inspiração a quem o substituiu, nem dos seus ‘muchachos’. E se o Presidente João Lourenço foi promotor da faxina etária responsável por essa herança, onde foi então que essa nova geração dos fatos, das gravatas, dos relógios e viaturas ‘top’ de gama de milhares de dólares ou euros que tomou conta do MPLA, sofreu o contágio desse vírus da luxúria, do esbanjamento do dinheiro público, do escárnio para com o povo e ainda acham que é normal? Só podem estar a seguir o exemplo do próprio ‘reformador’ porque essa herança já é sua.

Mais difícil ainda, é aceitarmos que boa parte dessa malta, sem escrúpulos, cuja identidade deveria ser a de militância e de fidelidade para com a Nação e só depois com o seu partido, defende esses ideais sectários e participa na formação dos nossos jovens que enchem as faculdades. Logicamente, o futuro está ameaçado, porque grande parte desses jovens, formados ou mal formatados, serão os substitutos dessa geração medíocre dos fatos, das gravatas, dos relógios, dos palácios e das viaturas milionárias que tomou de assalto o MPLA. São obedientes e também cúmplices da má gestão, como nos casos de José de Lima Massano e de Vera Daves, que não passarão incólumes na Justiça, quando chegar o dia da responsabilização.

Mas, até lá, infelizmente, a festança continuará e a tal elite até já tem encontro marcado no baile de final de ano, que terá lugar na nova sala protocolar da Presidência da República, a entidade promotora. Não somos tão maus quanto eles, mas seria justiça divina se caísse uma chuva torrencial só naquele perímetro, e arrastasse para o mar toda a sujeira, incluindo a produzida na Chicala (construção do Centro de Convenções), que já consumiu 600 milhões de dólares. Outro exemplo da arrogância do nosso empregado. 

O Chefe quis, o Chefe ordenou, cumpra-se!

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