DISTO NINGUÉM FALA!

(Um contributo à discussão do tema)

ZOOM DA TUNDAVALA

POR AIRES ALMEIDA

Governar, e bem, não é nenhum favor, é uma obrigação! O normal deveria ser “cobrar” pelo que deve ser feito, cobrar resultados. Escrutinar. E aceitar a cobrança, o escrutínio, como sendo parte do processo de criação, de “fazer obra”. Senão será o mesmo que “agradecer ao multicaixa sempre que se levanta o próprio dinheiro”.

Tem sido hábito, vindo de sectores geralmente ligados à governação, haver questionamentos relacionados com o facto de não se dar atenção, quase não se falar ou comentar, quando ela — a governação —, faz algo positivo, ou de bom e, ao contrário, se falar ou comentar, com maior frequência, sobre o que está mal, sobre os aspectos negativos da sociedade. Por isso, não é estranho que, em situações realmente dignas de registo, se oiça dizer, ou se leiam comentários como: “E agora, disto ninguém fala?”

A média está cheia de exemplos disso, sendo retratados, com maior ou menor precisão, acontecimentos ou situações negativas, exactamente por chamarem a atenção das pessoas, muito mais do que o que é bom. 

Então, por que razão, se dá mais atenção ao que está mal e que nos rodeia? 

Efectivamente, dar mais atenção às coisas más ou negativas à nossa volta é um fenómeno psicológico, conhecido como viés da negatividade estudado por Roy F. Baumeister, Kathleen D. Vohs, Ellen Bratslavsky e Catrin Finkenauer, num estudo intitulado “O Mau é Mais Forte que o Bom”, apresentado em 2001, (Revista: Review of General Psychology; Vol. 5-Dezembro de 2001), em que é demonstrado que, “em quase todas as situações, os acontecimentos negativos têm um impacto maior, mais duradouro e mais poderoso do que os eventos positivos da mesma grandeza”. 

viés da negatividade, segundo aquele estudo, “refere-se à nossa tendência, não apenas de registar estímulos negativos, mas também de nos determos e processarmos esses estímulos de forma mais completa e intensa do que os positivos ou neutros.” Um exemplo disso é a forma como se lida com um “insulto” ou com um “elogio”. Em situações de “insulto” os efeitos são mais duradouros. 

O estudo indica que, “nos estágios iniciais da evolução humana, as ameaças (como predadores, falta de comida, ou condições meteorológicas perigosas) representavam a diferença entre a vida e a morte. O cérebro desenvolveu-se para ser hipersensível a sinais de perigo e negatividade, pois, falhar em notar uma ameaça, tinha consequências muito piores do que falhar em notar uma oportunidade positiva.” Trata-se de um princípio de sobrevivência com foco no perigo. Por isso o cérebro trata a informação negativa como sendo prioritária ou mais importante.

viés da negatividade é muito explorado na actualidade pela comunicação social em geral, através de notícias, comentários ou análises, “bombardeadas” de forma sistemática, intensa e prolongada, relatando crises, guerras, conflitos, catástrofes, que tendem a dar mais “likes”, cliques, visualizações, prendendo mais a atenção do que as notícias sobre coisas boas ou acontecimentos que devem ser tidos como normais ou rotineiros. 

Ainda segundo o estudo, as experiências negativas são frequentemente codificadas na nossa memória de forma mais detalhada. Assim é que, “aprender com os erros e evitar a repetição de situações dolorosas, é uma parte crucial da nossa capacidade de adaptação e sobrevivência”.

Não deve ser visto como uma “conspiração” dar mais atenção ao “mal”, porque se goste disso, ou se queira somente ver o “mal”, mas sim porque o nosso cérebro foi programado, ao longo da evolução do homem, para o fazer como uma medida de sobrevivência. Muito menos será qualquer falta de “sentido patriótico” como muitas vezes se pretende fazer crer.

Em sentido inverso, encontra-se o viés da positividade e, nesta análise, haveria omissão se não se fizesse qualquer referência a ele.

Viés da Positividade ou Efeito Pollyanna é um termo mais informal e literário, usado para descrever a tendência de interpretar os eventos de forma optimista, vendo o lado bom em quase tudo, numa referência à personagem Pollyanna do livro de Eleanor H. Porter (Pollyana, USA 1913).

viés da positividade caracteriza-se pela “propensão a privilegiar, focar e lembrar informações, eventos ou experiências positivas em detrimento das negativas”, dando mais atenção ao lado positivo de uma situação, ignorando ou relativizando os problemas e desafios.

viés da positividade é igualmente explorado pela comunicação social, fundamentalmente quando esta é “usada” para defender pontos de vista, ou justificar ideias de grupos, ou mesmo da governação, criando realidades inexistentes ou “pintando” certas realidades com cores e tons contrários aos conhecidos.

viés da positividade apresenta-se quase sempre como superestimação de resultados e a subestimação de riscos, e manifesta-se pela incapacidade de aprender com os erros, pois o lado negativo (o erro) é sempre varrido para debaixo do tapete, sendo frequente apontar o dedo a outros “culpados” para os erros ou fracassos de planos e programas, nunca sendo imputados aos verdadeiros responsáveis, “ilibando-os” de responsabilidades atribuídas quase sempre a estranhos ou a situações cujo controle tenha sido perdido. 

“Disto ninguém fala”, é a atitude comportamental em situações em que o viés da positividade tornou-se padrão, sendo geralmente mal aceites opiniões contrárias, ou que manifestem tendencialmente alguma independência, de pensamento e de opinião, relativamente aos padrões estabelecidos.

O que é caricato é que, em paralelo com o viés da positividade, se vem cultivando o sentido de que se deve “agradecer” à governação por ter feito, por apresentar obra. É caricato na medida em que “fazer obra” é obrigação de quem governa, de quem está lá para isso, e até é pago para isso.  Agradece-se um favor.  Governar, e bem, não é nenhum favor, é uma obrigação! O normal deveria ser “cobrar” pelo que deve ser feito, cobrar resultados. Escrutinar. E aceitar a cobrança, o escrutínio, como sendo parte do processo de criação, de “fazer obra”. Senão será o mesmo que “agradecer ao multicaixa sempre que se levanta o próprio dinheiro”.

E disto, alguém fala?

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